Intervenção, já

Carlos Chagas

Completam-se dois meses desde  que  o Procurador Geral da República, com o apoio do presidente Lula, encaminhou ao Supremo Tribunal Federal pedido de intervenção federal em Brasília. Os argumentos são claros: deterioração dos poderes Executivo e Legislativo, com a prisão  do governador e os flagrantes de pelo menos nove deputados distritais e altos funcionários  recebendo propina.  Além das ameaças à ordem pública.

Pois é. Quem vive na capital federal enfrenta o caos. Os apagões  sucedem-se  várias vezes por semana, atingindo não apenas alguns bairros e cidades satélites, mas o Distrito Federal inteiro. Ora o lado Norte, ora o lado Sul. Não só o Congresso fica sem luz.  O centro administrativo e bancário também, além dos tribunais. Semáforos apagados geram  engarrafamentos sem conta. Dias atrás o presidente do Senado, José Sarney,  foi visitar o governador Roberto Requião, na representação do Paraná. Ficou preso  no elevador, precisando escapulir entre dois andares.

O metrô está em greve.  A Justiça determinou que entre 30 e 50% dos serviços continuassem funcionando, como manda a Constituição. Os grevistas dão de ombros e o resultado está sendo o tumulto, pela falta de ônibus capazes de compensar a falta dos trens, sem que nenhuma autoridade obrigue o cumprimento da lei. Já não se estaciona apenas em fila dupla, nas principais ruas e avenidas, mas em fila tripla. E não se encontra um guarda, um policial militar, um agente do Detran para botar ordem.

Mas tem mais. Na periferia, virou aventura sair de casa, ou chegar em casa, depois que o sol se põe. Multiplicou-se o número de assaltos e invasões a residências. Quando  manifestações públicas se sucedem, se é para reprimir estudantes, aparece a cavalaria da Polícia Militar. Se são policiais que protestam, recebem garantia para a ocupação de prédios públicos, jardins e avenidas por horas a fio.

Enquanto isso, a Câmara Legislativa prepara-se para eleger um governador-tampão, já que o atual sumiu. Os deputados distritais vão votar num deles, sem limitações para a eleição sequer dos flagrados botando dinheiro podre no bolso, na bolsa ou na meia. O governador, já deposto pela Justiça Eleitoral, continua preso.

Indaga-se: é ou não caso para a intervenção federal? Com a palavra o Supremo Tribunal Federal.

Daqui a trinta anos

Não adianta, o “cara” continua  em sua  cruzada contra a mídia. Disse esta semana que daqui a trinta anos os historiadores irão basear-se nos jornais para reconstituir o período atual, correndo o risco de se deixarem influenciar pelo noticiário distorcido e maldoso hoje apresentado.  Não foram bem as palavras que o presidente usou, porque de novo atropelou  o vernáculo, mas a idéia é essa.

Mais uma vez com todo o respeito, o presidente Lula carece de razão. Apesar de erros monumentais que os meios de comunicação cometem, muitos até por má-fé e interesses escusos, a verdade é que desde Guttemberg  a imprensa vem se constituindo  na fonte primária da História. Apresenta os fatos sem retoque, ao contrário das versões posteriores,  encomendadas para ajeitar situações e poupar personagens.

Tome-se o exemplo do mensalão.  O universitário do futuro tomará conhecimento de uma das maiores lambanças verificadas nos tempos atuais pelas versões do PT e as negativas do próprio primeiro-companheiro ou pelo noticiário dos jornais?

Lições de Pedro Aleixo

Em depoimento no Senado, o ministro Edison Lobão lembrou episódio de 1969, quando o então presidente Costa e Silva,   pretendendo livrar-se do AI-5, pediu a Pedro Aleixo para elaborar uma emenda à Constituição, restabelecendo a normalidade institucional. Foram semanas de imensas  dificuldades, com os radicais que Lobão chamou de “áreas sensíveis” atropelando o trabalho do vice-presidente,  afinal malogrado pela doença do chefe do governo.

Sobre o  período, vale acrescentar um detalhe. No final de uma  daquelas reuniões onde certos “jurilas”, mistos de juristas e gorilas, tentavam sabotar o trabalho do dr. Pedro,  ele deixou a ante-sala presidencial cabisbaixo e abatido. Um amigo aproximou-se, buscando levantar seu ânimo, porque das vinte e uma sugestões que havia formulado naquela tarde,  apenas a última tinha sido aceita. Encaminhando-se para o elevador, recomendou ao interlocutor: “Passe na minha sala daqui a meia hora e conversaremos”.

O amigo, então muito jovem, foi e ouviu do vice-presidente: “Você não entende nada de política. Estou satisfeitíssimo com a reunião de hoje. Eu só queria, mesmo, aprovar a última sugestão. As demais foram cortina-de-fumaça para fazer-me parecer derrotado e, no final, aceitarem como prêmio de consolação a verdadeira mudança pretendida”…

O PAC II e o futuro

Declarou o presidente Lula que o PAC II, a ser divulgado nos próximos dias, servirá para que o seu sucessor (ou sucessora) não perca tempo elaborando planos de obras, mas já encontre definidas as metas a desenvolver.

Novamente com todo o respeito, mas esse raciocínio significa que o chefe do governo pretende engessar quem vier a sucedê-lo, determinando o que deve fazer. Uma intromissão indevida no livre arbítrio de quem vier a liderar a nação. Se for Dilma Rousseff,  menos mal. Ela é uma espécie de papel carbono do Lula. Mas se for José Serra, que reação terá ao receber um prato-feito referente ao seu mandato? Botará no fundo da gaveta, se for educado, ou na lata do lixo, se não for. Menos por conta do conteúdo, capaz até de surpreender pela qualidade, mais  por tratar-se de megalomania de quem, devendo desencarnar, imagina transformar-se em anjo da guarda ou alma penada…

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