Investigação sobre Pimentel e o amigo Bené chega ao BNDES

Filipe Coutinho e Murilo Ramos
Época

Bridge, em inglês, significa ponte. Localizada em Brasília, a Bridge Participações é propriedade do empresário Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, o Bené, amigo de Fernando Pimentel (PT), governador de Minas Gerais. Um ótimo amigo: já emprestou avião e pagou R$ 12 mil para Pimentel e a mulher passarem férias num resort na Bahia. Pimentel e Bené são investigados pela Polícia Federal, na Operação Acrônimo, por lavagem de dinheiro – e por suspeita de, justamente, fazer uma ponte. Entre empresas que desejam empréstimos no BNDES e o próprio BNDES. Bené é o principal caminho para a PF investigar a caixa-preta do banco estatal e deve ser um dos focos da CPI do BNDES, a ser instalada no próximo dia 5 na Câmara dos Deputados.

Época obteve cópias de notas fiscais da Bridge e de outra empresa de Bené, a BRO. A história das notas fiscais é repleta de coincidências, envolvendo as duas empresas e seu dono, a montadora Caoa, que fabrica e revende carros da sul-coreana Hyundai no Brasil, e Fernando Pimentel – que, antes de ser governador de Minas, era ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Pasta a que o BNDES é subordinado. Para a polícia, nem sempre coincidências são meras coincidências.

Em fevereiro de 2012, o BNDES financiou a construção de uma fábrica da Hyundai em Piracicaba, São Paulo, por R$ 218 milhões. Ainda em 2012, o governo lançou o programa Inovar Auto, como forma de modernizar a indústria automobilística em troca de isenções fiscais. Em 2013, a montadora foi habilitada para iniciar a produção do veículo ix35, além de importar carros com desconto no IPI. Uma das portarias assinadas por Pimentel autoriza a importação de 2 mil veículos. Uma das principais apostas da Caoa, a linha de produção do ix35 foi inaugurada em 17 de outubro de 2013, com a participação de Pimentel.

Na ocasião, o fundador da Caoa, Carlos Alberto de Oliveira Andrade, deixou claro qual era a importância da relação com o governo. “O Inovar Auto é que viabilizou esse nosso investimento de mais de R$ 600 milhões”, afirmou Andrade. É nesse ponto da cronologia que entram as notas fiscais a que Época teve acesso.

NOTAS FISCAIS

De acordo com elas, a Caoa repassou R$ 2,21 milhões às duas empresas de Bené, Bridge e BRO, entre outubro de 2013 e junho de 2014. Um desses depósitos, no valor de R$ 240 mil, foi realizado no dia 22 de outubro, cinco dias depois do discurso de Carlos Alberto e da visita de Pimentel à fábrica.

Um dos fatores a despertar a curiosidade era a natureza dos serviços prestados, sempre extremamente vaga. De acordo com uma das notas fiscais obtidas pela reportagem,  “estudo de processo produtivo usando como meio de pesquisa a internet”. O que significa isso? Procurar no Google? Talvez algo mais, pelo preço: R$ 265 mil. Outra nota segue a mesma lógica. “Estudo e planejamento de ações usando ferramentas tecnológicas existentes no mercado.”

Bené, denunciado na quinta-feira, dia 30, pelo Ministério Público Federal por desvio de R$ 2,9 milhões em 14 contratos irregulares para a realização de eventos do Ministério das Cidades no período de 2007 e 2009, agora se revela um expert no uso de “ferramentas tecnológicas”. Segundo a Caoa, foram as empresas – de mesmo dono, vale dizer – que “ofereceram propostas de prestação de serviços, como é usual no mercado”.

SEM COMPROVANTE

A Caoa não mostrou qualquer comprovante dos serviços prestados. A montadora afirma ainda que foram feitos estudos mercadológicos e estratégias comerciais no setor automobilístico.

Tanto Bridge quanto BRO, constatou a PF, são empresas de fachada. A BRO tem como sócios Bené e seu filho Paulo, de 21 anos. A empresa divide endereço com outras firmas do empresário, todas na lista de investigadas no inquérito da Operação Acrônimo. Bené é suspeito de fazer “confusão patrimonial” e ser o operador de Pimentel. Assim escreveu a PF:  “Fernando Pimentel seria o chefe da organização criminosa operada financeiramente por Benedito, grupo criminoso especializado em lavagem de capitais oriundos de desvio de recursos públicos e aplicação de parte dos valores branqueados em campanhas. Pimentel teria recebido diretamente vantagem ilícita em razão do cargo então ocupado”.

CORRUPÇÃO NO BNDES

Os repasses para a Bridge e BRO são o terceiro indício para uma mesma suspeita da PF: os incentivos do BNDES e do Ministério do Desenvolvimento podem ter sido facilitados por repasses a Fernando Pimentel. A mulher de Pimentel, Carolina Oliveira, é uma das principais suspeitas, junto com Bené. Ela recebeu R$ 236 mil da Pepper, que prestou serviços ao BNDES. E recebeu outros R$ 2,5 milhões do consultor Mário Rosa, que prestava serviço a empresas que receberam financiamentos do BNDES. Agora, ÉpocaA revela um novo caminho do dinheiro, por meio de Bené. O empresário, aliás, já era investigado por lavagem, depois de ter sido pego com R$ 113 mil em seu avião, durante a eleição do ano passado. Também é denunciado pelos desvios nos contratos com o Ministério das Cidades. Faltava, contudo, desvendar como Bené ganhava dinheiro ligado à atuação de Pimentel no governo. Os documentos revelados por Época fornecem novas pistas nesse sentido. O caso, em razão de Pimentel ser governador, é investigado no Superior Tribunal de Justiça.

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  1. A CPI do BNDES que vai iniciar seus trabalhos em agosto deve centrar o foco nas ações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff para beneficiar empresas corruptas na liberação de empréstimos do banco estatal e em financiamentos para negócios no exterior. A avaliação, que tem como base as investigações da operação Lava Jato, foi feita neste domingo pelo líder do PPS na Câmara, deputado federal Rubens Bueno (PR), um dos autores do pedido para a abertura da comissão parlamentar de inquérito.

    De acordo com o parlamentar, as apurações do escândalo do petrolão tem revelado que empreiteiras do clube da propina eram fartamente abastecidas com recursos do BNDES não só para negócios com a Petrobrás, mas para empreendimentos do setor elétrico, de outras áreas de infraestrutura e para o fechamento de contratos de obras no exterior. “Em troca, como vêm mostrando as deleções de empreiteiros e operadores presos, as empresas abasteciam caixas de campanha do PT e partidos aliados. Como as obras eram superfaturadas, tudo indica que essas campanhas acabaram, no final das contas, sendo financiadas com recursos do caixa do BNDES. Ou seja, propina com dinheiro público”, afirmou Rubens Bueno.

    Para o líder do PPS, o esquema já apontado pela operação Lava Jato precisa ser esmiuçado na CPI. “As delações indicam para vários caminhos que precisamos seguir. Mostram, por exemplo, que Dilma ajudou empreiteiras, em troca de doação de campanha, a fechar negócios no Peru e Nicarágua. Há ainda os casos de Cuba, Gana e República Dominicana”, lembrou o deputado.

    Até o momento, alertou o deputado, as investigações passam muito perto de Lula e Dilma, mas a nova comissão pode delinear a ligação direta entre os dois e as empresas corruptas. “Está cada vez mais claro que Lula e Dilma usaram o BNDES para ajudar um seleto grupo de empresas amigas. Em troca, recebiam doações de campanhas e outros favores que a CPI precisa desvendar. É um trabalho árduo que com certeza vai se estender ao exterior, onde a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça já estão mapeando contas que abasteceram partidos e corruptos do petrolão”, finalizou Rubens Bueno.

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