Jango, Ademar de Barros, Magalhes Pinto, Lacerda, Brizola, Ney Braga, Arraes, conspiraram em 1962 e 1963. Jango queria continuar, os outros, entrar. Os generais venceram. E ainda havia JK, que aderiu a Castelo.

Conforme prometi, mostrarei a posio dos principais polticos, pouco antes da tomada do Poder pelos generais, para a qual, direta ou indiretamente contriburam. Comeo pelo personagem que estava no Poder e no queria sair, e vou citando os governadores, pelo ordem de grandeza dos estados.

Conspirava-se contra ou a favor, ningum queria ser considerado de fora. Antes da participao de cada um, dois fatos importantssimos, jamais assinalados ou analisados. 1 Todos esses que citei, eram candidatos a presidente em 1965, ento por que conspiravam e pelo menos teoricamente lutavam contra essa eleio que pretendiam disputar?

que no confiavam em Joo Goulart, achavam que pelos caminhos tortuosos que trilhava, no faria eleio. No por estar ligado aos comunistas, como diziam os generais (e mais Lincoln Gordon-Roberto Marinho), e sim por desejar o Poder acima de qualquer coisa.

Os generais se aproveitaram da diviso dos civis, tomaram o poder como em 1889. E bem antes j sabiam que ficariam com esse Poder, se diziam decepcionados com os golpes anteriores, agora pretendiam dominar. Embora, como os civis, no soubessem o que fazer, no tinham planos, projetos, compromissos com o povo e o pas.

Quando digo, os militares sabiam antes, que ficariam com o Poder, basta citar esses fatos e fazer as anlises inteiramente inditas, e que vo surpreender muita gente. Os generais criaram um modelo nico em todo o mundo ocidental, ningum sequer imaginava que isso pudesse ser feito.

Implantaram uma ditadura FIXA com um ditador ROTATIVO. Antes, em todos os pases, (e at aqui mesmo), o que vigorava era o habitual: um ditador FIXO com uma ditadura tambm FIXA.

Para isso, impuseram as seguintes regras, inflexveis. A) O presidente da Repblica teria que ser um general. B) Da patente mais alta e da ativa. C) Que assumisse o compromisso de no pleitear reeleio ou um segundo mandato.

Tudo isso foi cumprido, com duas excees, por causa de dois tropeos do caminho. (A prorrogao de Castelo, porque Golbery era mais inteligente e mais corrupto do que os outros. E depois, pela morte de Costa e Silva).

Vejamos agora os personagens civis, que no perceberam que estavam derrotados antecipadamente pelos generais. Mas estes tambm no tinham muita conscincia, alguns at admitiam a rotina de dcadas: pacificar o pas e devolv-lo aos civis. Mas o Poder to sedutor, dominador e embriagador, que qualquer outro objetivo se dissipa ou se destri.

* Joo Goulart

Ostensivamente o personagem principal. No queria deixar o Poder de maneira alguma. Tinha velha rixa com os militares, que o derrubaram do Ministrio do Trabalho em 1952. Publicaram o famoso Manifesto dos Coronis, com 69 assinaturas, exigindo a sua sada. Saiu, disse a Vargas: Presidente, isso no tem importncia, NO MOMENTO NO PODEMOS RESISTIR“.

No guardava dio, a primeira assinatura desse manifesto era do coronel Amaury Kruel, que depois o prprio Jango promoveu a general e nomeou-o chefe da Casa Militar, ministro da Guerra e comandante do Segundo Exrcito, onde estava quando Goulart foi derrubado. Kruel foi para a televiso, dizer: Livre-se dos comunistas que eu o manterei no Poder. Ha!Ha!Ha!

Jango se irritou, no ligou e fez os comcios da Central do Brasil (13 de maro) e do Automvel Clube (20 de maro), que s podiam ser feitos se olhasse para trs e visse todo o Exrcito e todos os generais, aplaudindo-o.

Era o que lhe dizia o chefe da Casa Militar, general Assis Brasil: Temos 95 por cento do Exrcito. O que valeu um comentrio amargo de Jango, quando os dois atravessavam a fronteira, para o exlio-asilo: Ento, tnhamos 95 por cento do Exrcito? Desde a Repblica, todos que fizeram essa afirmao, no puderam confirm-la ou garanti-la.

* Ademar de Barros

Seu prestigio vinha do fato de ser governador de So Paulo. Das piores invenes de Vargas, que o nomeou interventor. Corruptssimo, queria a Presidncia de qualquer maneira, por isso conspirava, para no dar a impresso de que estava por fora ou alheio aos acontecimentos.

Desmoralizadssimo, quando interventor, para se manter no cargo teve que nomear para vice, Novelli Jnior, genro do prprio Dutra. Candidato a presidente, o Correio da Manh, no apogeu, dedicou-lhe um editorial, com ttulo em apenas duas palavras: LADRO, NO.

Estava dito tudo. O governador anunciou que ia processar o jornal, 48 horas depois veio a resposta num novo editorial: LADRO, SIM. Nunca houve processo.

Ademar acabou entrando na histria, por causa do roubo do cofre de sua amante, que era conhecida pelo nome de homem. Roubo de cofre, tudo a ver com Ademar de Barros.

* Magalhes Pinto

Outro absorvido pelo Poder, mas com atitudes s vezes corajosas. Em 1943 lanou o Manifesto dos Mineiros, primeiro solavanco na ditadura. Mas em 1964, governador de Minas, no fez nada, assistiu a tudo. E em 1967 tomou a primeira fila, como ministro do Exterior de Costa e Silva.

Num dia de confidncia, me confessou: Voc sabe, Helio, em 1964 eu no podia fazer nada. Em 1967, quis agir de dentro, no era possvel. Cada um tem a sua prpria viso.

* Carlos Lacerda

Conspirador nato, mesmo quando no se tratava de ditadura. Em 1960, o candidato presidencial da UDN era Juracy Magalhes, presidente do partido. Lacerda derrotou-o, levando Jnio para o partido e fortalecendo sua candidatura. Jnio derrotou Juracy, foi eleito presidente, com votao estrondosa.

Lacerda de elegeu governador da Guanabara, esperava ser presidente em 1965, sucessor de Jnio Quadros. Mas este no era confivel, tentou a renncia, um salto que acreditava tivesse uma rede por baixo, caiu no vazio. E provocou tudo que aconteceria de agosto de 1961 a maro de 1985.

Lacerda foi o nico que ficou na imensa voragem provocada pela renncia, sem saber o que fazer. Idolatrado pelos militares, foi abandonado por todos, repudiado inteiramente por causa da frente ampla.

Quem puder, leia o que Carlos Lacerda escreveu e saiu em O Globo, intitulado, Carta a um ex-amigo fardado. Qualquer que seja a posio em relao a Lacerda, lancinante, emocionante, amarga, mas para ser lida com o corao. (Tem no arquivo de O Globo e na Biblioteca Nacional).

* Leonel Brizola

No se pode dizer propriamente que conspirava, defendia bravamente seu espao. O fato de Jango ser cunhado no o favorecia, bem ao contrrio, prejudicava-o. Em maro de 1963, depois do plebiscito, e Jango com todos os Poderes, Brizola conversou com o marechal Lott e diante do que acertaram, pediu audincia ao presidente.

Fez a proposta: Voc me nomeia ministro da Fazenda e o marechal Lott, ministro da Guerra. Ele fica como fiador, se voc achar que eu possa fazer loucura. (Isso era o esperavam dele, defender acima de tudo, o INTERESSE NACIONAL).

Jango ouviu, disse que ia pensar, dava a impresso de estar favorvel. Mas conversou com Roberto Marinho e o embaixador Lincoln Gordon (os dois sentados na sua cama), o dono do Globo explodiu: Se voc nomear Brizola ministro da Fazenda, NO TERMINA O MANDATO.

Jango no nomeou e NO TERMINOU O MANDATO. Se tivesse aceito a proposta de Brizola, talvez no tivesse acontecido nada, embora ningum possa adivinhar ou garantir. (48 horas depois de Jango dizer NO a Brizola, Roberto Marinho colocou uma foto do presidente na 3 pgina e a legenda: O ESTADISTA.

* Ney Braga

Entra na histria por ser governador do Paran, militar da reserva, e com excelentes contatos em Braslia. Era guardado para uma possvel eleio entre aspas. Depois, todas foram entre aspas, mas Ney Braga no era general.

* Miguel Arraes

Conspirava por dever de oficio, comunista declarado, sabia que no tinha nenhuma chance. Mas como se elegera prefeito do Recife e governador de Pernambuco, acreditava que poderia ganhar em 1965.

Foi um dos dois governadores presos ( o outro, Seixas Dria, de Sergipe) e o nico a fazer acordo com a ditadura. No foi exilado ou asilado, e sim passaporteado para onde quisesse. Quis a Arglia, por causa da ditadura comunista. Enriqueceu e expulsou os brasileiros que chegaram l antes dele.

***

PS Contra ou a favor dos generais, ningum sobreviveu, nem civis nem militares. Transigindo ou no transigindo, todos foram soterrados. E os generais ocuparam o Poder por um tempo, entram na Histria, desgrenhadamente.

PS2 Juscelino e Jango, que haviam ocupado o Poder (e queriam voltar) e Lacerda, que pretendia ocup-lo, morreram antecipada ou dramaticamente, em episdios coincidentes que jamais sero elucidados.

PS3 Lio nica: no h ditadura eterna, ningum consegue um lugar na Histria usando a tortura, a crueldade, o autoritarismo. No governo ou na oposio.

PS4 A no ser o que no mundo ocidental (Amrica do Sul) se chame Pinochet, Videla e outros iguais a eles.

PS5 Aqui, sumariamente, o PR-64, e o 64 PROPRIAMENTE DITO.

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