JANGO, DUAS VEZES DEPOSTO

Percival Puggina

Quem estabelece a narrativa histórica e comanda a leitura do passado, mais facilmente escreverá o futuro.

É esse controle da versão mais conveniente que vem sendo imposto ao Brasil nos últimos anos. Até a exumação do cadáver de João Goulart serve, qualquer que seja o resultado, para se atrair atenção à narrativa que convém ao poder. Há uma ampla perspectiva demográfica para isso. Dos 200 milhões de brasileiros vivos, apenas 15 milhões tinham 18 anos ou mais em 1964. Os outros 185 milhões conhecem apenas uma versão dos fatos ocorridos naquele ano, e em parte dos anos seguintes. Foram capturados por um único relato. A versão que lhes é insistentemente repetida serve ao projeto de poder de quem a concebeu. Não é outra a tarefa dos comissários da História, integrantes da tal comissão que insiste em ser conhecida como Comissão da Verdade.

Absolutamente justo que se prestem honras fúnebres ao ex-presidente. Ele morreu no exílio e não as recebeu. E será interessante observar as expressões emocionadas de antigos militantes da luta armada diante dos restos mortais do presidente a quem tanto desprezaram. Desprezaram, sim. Eles eram comunistas e Jango não. Viam-no como um fazendeiro tíbio, inseguro, inconfiável. Enquanto representou para os comunistas dos anos 60 um projeto de poder, Jango teve seu apoio. Fora do governo, foi ignorado pelos próprios companheiros à sua esquerda. Ninguém gastou um cartucho ou pegou um bodoque para restaurá-lo no posto presidencial.

FOI DEPOSTO

Jango foi deposto pelo Congresso Nacional e pelos militares. E novamente destituído de qualquer importância pela maioria de seus parceiros. Brizola brigou com ele. O irrequieto cunhado, que projetava sombra em Jango presidente, olhos postos no mandato subsequente, continuou a projetá-la no exílio. Era em torno de Brizola que se articulavam alguns dos que foram à luta. No exílio, Jango só era visitado por amigos de pouco ou nenhum poder de mobilização.

Após sua queda, muitos dos que nestes dias o celebram em Brasília pegaram armas para reproduzir, aqui, as lições de sublevação revolucionária aprendidas em Cuba e na Rússia. No entanto, para a continuidade do projeto de poder ora em curso no Brasil é importante que esses inimigos da democracia dos anos 60 e 70 sejam aclamados como portadores dos mais elevados ideais libertários. Falso! Queriam implantar um projeto comunista no país, totalitário e muito mais brutal. Atrasaram a redemocratização.

Aliás, a bem da verdade, a democracia tinha inimigos pelos dois lados da disputa. Uns aferrados ao poder, abusando da violência. Outros, sem nenhum apoio popular, buscando o poder pela violência, para impor um regime que, já então, havia gerado cem milhões de cadáveres no mundo. Felizmente nos livramos desse mal maior e a política venceu. Foi através da política que o país se redemocratizou, constitucionalizou, pacificou. E hoje convive com uma concentração de poder que, novamente, vai corrompendo a democracia.

É fraudulento o empenho de mistificar a história, de ocultar o fato de que muitos dos que hoje nos governam eram revolucionários comunistas e zombavam da democracia, que diziam ser coisa burguesa. Sua afeição à ditadura dos Castro (cubanos) e sua devoção a Che Guevara (argentino) ficam bem representadas nos exames a que será submetido o ex-presidente Goulart. Neles estarão atuando peritos buscados a dedo na notória ditadura cubana de tantos cadáveres e na mal disfarçada ditadura argentina.

8 thoughts on “JANGO, DUAS VEZES DEPOSTO

  1. REMESSA DE ARTIGO

    Mensaleiros não são mártires, são criminosos condenados

    Milton Corrêa da Costa

    Mensaleiros políticos, condenados recentemente pelo STF por diferentes crimes, tendo tido, durante todas as quase intermináveis instâncias recursais, o direito da ampla defesa e do contraditório, agora recolhidos ao cárcere tentam, de todas as formas, se considerarem presos políticos (midiáticos), ‘mártires’ da injustiça e do revanchismo. Em verdade, são políticos presos por cometimento de graves crimes, por sentença transitado em julgado, ante a descoberta de um esquema ardiloso de compra de votos, de deputados de diferentes partidos, para perpetuação de um determinado partido no poder central. Uma trama jamais vista na história do país. Ressalte-se que quem rouba dinheiro público rouba a saúde e a educação dos pobres. É preciso parar, pois, de pousar como ‘vítimas inocentes’. Quem deve à Justiça, seja de que partido político for, tenha ou não um bom advogado, seja pobre ou rico, tem que ser responsabilizado por seus atos. Essa é a regra do jogo no estado de direito. A lei igual para todos.

    E se o Roberto Jefferson não tivesse arremessado no ventilador e puxado todos para o fundo da mesma vala, podre, fétida e imunda? Quem saberia da tramoia? Quanto o país já teria amargado até agora de desvio de dinheiro? Quantos dos mensaleiros já estariam milionários? Que tamanho do roubo a falcatrua estaria causando ao erário público? Qual seria o montante de patrimônio de cada mensaleiro? Como o país consegue suportar tantos assaltos aos cofres públicos -vide os tempos de roubalheira no INSS- como ainda ocorre hoje, com esquemas descobertos em série, envolvendo fraudes licitatórias, formação de cartéis, peculato,etc?

    Por outro lado, cabe indagar: será mesmo que político presidiário, sustentado na cadeia pelos impostos pagos por todos nós, com suspensão dos direitos políticos, ainda tem direito à manutenção do mandato e salário respectivo? A cassação do mandato não deveria ser automática como orientou o STF? Custo a acreditar que tal imoralidade venha a prevalecer. O voto secreto em plenário, com risco de efeito revanchista ao STF, é quem vai decidir? Em que outro país do mundo ocorreria tal contradição? O que dizer aos nossos filhos e netos?

    Causa estranheza também ver tanta cara de pau de alguns políticos criminosos, condenados, de punho cerrado e braço levantado saindo na foto, como se ainda fossem ‘heróis da resistência’ ao regime militar e como se o STF fosse uma corte parcial e política. Registre-se que o que foi julgado foi o presente não o passado. Ainda bem que a corte suprema é livre, soberana, independente, não sofre e não aceita influência, manipulação e pressão de quem quer que seja, ainda que alguns já tenham tentado. Derama com os burros n’água.

    Aqui ainda não é a Venezuela onde se almeja governar monocraticamente por decretos, com o poder máximo dado ao Executivo, numa afronta à democracia no mundo, encurralando-se o Judiciário e o Legislativo. O Brasil não é um estado totalitário. É um estado democrático de direito, calcado no pluralismo político, na harmonia entre os poderes, nos direitos e garantias individuais e na liberdade de imprensa, muito embora ainda com resquícios arraigados de que a lei ainda não é plenamente igual para todos. Até para visita (romaria) aos mensaleiros no cárcere há privilégios, como aconteceu na terça-feira 19/11, em Brasília- não era dia de visita- com a comitiva que se dirigiu para visitar Dirceu, Delúbio e Genoíno no Complexo Penitenciário da Papuda. O trio de figurões do PT. Outros cidadãos, sem tanto privilégio, permaneceram horas e horas numa fila para obter uma senha que os permitisse, no dia seguinte, dia regulamentar da visita, contactar seus parentes reclusos. Dois pesos e duas medidas.

    Para as futuras gerações os mensaleiros deixam, portanto, um péssimo exemplo na conduta desviante, anti-ética e imoral. A história lhes fará a justiça final. Serão marcados pelo crime de lesa-pátria. Finalmente parece que começamos -antes tarde do que nunca- a entrar na nova era da igualdade de todos perante a lei. Assim sendo falta agora punir o outro mensalão, o que envolve políticos do PSDB, de Minas Gerais. A sociedade brasileira aguarda ansiosamente. Aos falsos ‘inocentes’, ladrões do dinheiro público, o rigor da lei. Detalhe: minha maior preocupação humanitária é com os pobres e os miseráveis, vítimas dos desvios do dinheiro público, num país carente de saúde, educação, saneamento básico e moradia digna.

    Milton Corrêa da Costa é cidadão brasileiro que luta por uma lei igual para todos

  2. Perdão por repetir o que penso.

    “Um país se faz com homens e livros- M. Lobato”
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    Incluo uma complementação: a história de “Um país se faz com homens e livros”.
    Sem conotação ética de bem ou de mal é fácil perceber que a internet carrega consigo um aspecto negativo: a fluidez que leva a uma assustadora superficialidade e consequente irresponsabilidade. Nas relações humanas, o exemplo extremo de antítese é constituído pelo conflito; “mas a lógica dicotômica, por outro lado não é estranha à própria visão tradicional, religiosa ou metafísica, inclusive do mundo natural (luz-trevas, ordem-caos e, no limite, Deus-demônio) N. Bobbio”
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    A curta informação sobre a palhaçada da anulação pelo Senado da vacância do cargo Presidencial então ocupado em 1964 por Jango bem retrata o infeliz momento que nossas instituições políticas atravessam nas mãos de despreparados, oportunistas e aproveitadores. Muitos deles criminosos contumazes e sentenciados.
    Sequer o mérito dessa anulação pode ser analisado. Qual? Mudar a história “sem homens e livros” e com condutas figuradas deve envergonhar até mesmo um homem da estatura política de Jango que a própria história o desenha com uma raridade nos dias presentes: seriedade ideológica. Envergonha, in extremis, a nação brasileira submetendo-a ao escárnio do mundo civilizado e desacredita o Estado Constitucional e tripudia sobre a lei e a ordem solapando princípios e valores culturais da alma nacional.
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    Mais do que uma sandice de marginais da representação política, uma abusada e desnecessária provocação à tolerância de um povo e desmoralização das Forças Armadas instituição que lhe garante a tão banalizada soberania estranha a ideia totalitária.

  3. Agora nos 50 anos da morte de Kennedy vale lembrar que John Kennedy foi o financiador do golpe militar que nos impos uma ditadura predatória de 20 anos. Foram os golpistas que nos deixaram como legado esses homens que aí estão para nos governar. Porque os preparados que queriam um Brasil melhor foram perseguidos e até mortos.

  4. A verdade é que Jango não tinha condições para ser presidente de um país. Sua administração foi caótica, promovendo quebra da hierarquia nas forças armadas, inflação, perda do apoio do congresso e pior, do povão, com a imprensa contra. Menos o jornal Ultima Hora que era governista.
    Por essas e outras veio o tal golpe, que foi comemorado por grande parte do povo e da imprensa.

    “Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileira já registrou, o Sr João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos grandes covardes que ela já conheceu.” (Tribuna da Imprensa)

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Tribuna_da_Imprensa

  5. Eis outra opinião.

    Cada um conclua como bem entender.

    Carlos Chagas

    Coincidindo com as homenagens prestadas pelo governo à memória de João Goulart, o Congresso decidiu anular a sessão realizada no dia 2 de abril de 1964, quando o senador Auro de Moura Andrade considerou vaga a presidência da República. Tratou-se de uma violência monumental, primeiro porque a Constituição não previa essa figura, depois porque Jango encontrava-se em território brasileiro, no Rio Grande do Sul.

    Coisas de um país à época ainda despreparado para a democracia. Ação das elites organizadas em torno de seus privilégios, assustadas com a possibilidade de reformas de base capazes de mudar nosso perfil.

    Lavou a alma nacional a cerimônia realizada dias atrás, com as forças armadas batendo continência para os restos mortais do presidente que preferiu o exílio ao derramamento de sangue brasileiro

  6. Desde os tempos dos faraós do Egito Antigo, que governantes picaretas usam de múmias e de ossos, para ludibriarem seus povos. Para ficar só nos últimos cem anos, a então União Soviética tinha a múmia de Lenin. O argentino Peron tinha sua esposa Evita Peron. Fidel Castro arrumou os (supostos) ossos de Che Guevara. Em tempos de cadeia para mensaleiros e crise econômica, a Dilma vai logo procurar os ossos de JK e Jango, por sinal dois políticos que ela odiava, enquanto não tinham virado ossos.

  7. Bom e oportuno comentário. Admirava João Goulart, foi uma violência sua deposição, morreu no exílio só com a esposa . Deixem-no em paz. Não sei como esta familia concordou com mais esta violência contra ele. A história foi vivida , é passado, refazer funerais não refaz a história. Esta comissão da verdade é encabeçada por esta figura patética que é Maria do Rosário , precisa justificar o salário. Vá levantar outras bandeiras, como das familias dos presos das cadeias do Maranhão, das familias das vitimas de bandidos , que ela defende.Procurar tratamento para os moradores de rua e drogados . Largue de fuçar em cadáveres.

  8. Coisa incrível, nos 21 anos do governo militar o PIB brasileiro cresceu em média 6,29% ao ano, nos 05 anos do governo Sarney: 4,39 e no governo Dilma: 2,70. Nesses tempos de lembrança do governo militar tenho observado que muitos políticos influentes, inclusive a presidente, e que dizem terem sido torturados, perseguidos, e outras coisas mais, e que no período foram mortas mais de 400 pessoas vitimas do sistema autoritário. Gostaria de perguntar a essas mesmas pessoas o que elas acham das barbáries cometidas pelos governos comunistas autoritários que elas tanto defendem e admiram, tais como Cuba, Coréia do Norte, China e outras mais. E quantas pessoas foram mortas e torturadas nestes países e que tipo de democracias são essas ? Não sou de esquerda, direita ou centro, apenas gostaria que existissem governos que promovessem a justiça social, e um dos caminhos seria a educação de boa qualidade para pobres, ricos, brancos, amarelos, indígenas, pretos, etc.., ai sim todos teriam oportunidades iguais, e a sociedade como um todo seria mais justa. Na minha opinião a pior ditadura é a que veste a roupa da Democracia!

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