Je suis Janaína Paschoal

http://imguol.com/c/noticias/df/2016/03/30/30mar2016---a-advogada-janaina-paschoal-uma-das-autoras-do-pedido-de-impeachment-contra-a-presidente-dilma-rousseff-afirmou-que-a-sociedade-brasileira-foi-vitima-de-um-golpe-ela-participou-no-fim-da-1459379413965_615x300.jpg

Janaína Paschoal citou todos os crimes cometidos por Dilma

Jorge Béja

Ao longo da minha vida de repórter, estudante de Direito e advogado, vi de perto a atuação de advogados notáveis no Tribunal do Júri do Rio: Sobral Pinto, Laércio Pelegrino, Newton Feital, Leopoldo Heitor, Luis Bráz, Alfredo Tranjan… Eram emocionantes. Tinham o dom da palavra fácil e dominavam, como ninguém, a arte cênica, que todo advogado criminalista que atua no Tribunal do Júri precisa ter, mesmo que a causa lhe seja adversa. O Tribunal do Juri não é palco para advogado tímido.

Na década de 60, fui transmitir ao vivo para a Rádio Continental do Rio, o julgamento de Leopoldo Heitor na cidade de Rio Claro, interior fluminense. Três advogados atuaram em sua defesa: Rovane Tavares, Eurico Rezende e o próprio Leopoldo Heitor. E quando chegou a vez de Leopoldo falar para os jurados, me ficou viva na memória esta passagem, que mais de meio-século depois não me esqueci.

Com voz firme e retumbante, bradou: “Ah! Araguari, Araguari, cidade de minha terra natal que é Minas Gerais! Que vergonha para vossos filhos quando mandastes para o cárcere aqueles dois pobres coitados, um morto no cárcere, outro sobrevivido do cárcere e ambos acusados de assassinato de um homem e que por isso foram condenados. E anos depois, a vítima que eles teriam matado, apareceu viva na cidade de Araguari”.

(Leopoldo Heitor, que respondia pela acusação de ter sido o autor da morte de Dana de Teffé, se referia ao caso dos Irmãos Naves, o maior erro judiciário da História deste país).

JANAÍNA PASCHOAL, OUTRO TALENTO

Acreditava que, depois deles, não haveria mais advogado igual. Ontem, porém, depois de assistir falar a advogada Janaína Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, que ao lado de Miguel Reale Junior e Hélio Bicudo assinou a denúncia, voltei a ficar empolgado. E relembrei o passado.

A advogada e professora de Direito Penal da Universidade de São Paulo (USP) falou à Comissão Especial do Impeachment com desenvoltura. Falou de improviso. Não consultou uma anotação sequer. Com didática inigualável e o mais profundo e completo conhecimento do Direito Penal e da causa que defendia, Janaína fez calar 65 deputados titulares e outros tantos suplentes.

Sua explanação foi mais do que perfeita. Não deixou uma pergunta sem resposta. E resposta impossível de ser rebatida ou replicada. Simples, bela, sem a menor vaidade, vestida de branco, sem uma pintura e com um vocabulário de dar inveja, a professora e doutora Janaína brilhou. Sabia tudo e de tudo sabia. Tinha convicção do que dizia, do que escreveu na denúncia que gerou o impechment.

A NOBREZA TAMBÉM PEDE PERDÃO

Teve um momento, durante sua exposição, que a doutora Janaína, sem perder o tom e o encadeamento do seu raciocínio expositivo, disse a um parlamentar que ostentava um cartaz: “Deputado, o senhor vai cansar o braço”. Por isso foi advertida pelo presidente da Comissão, que lembrou que ali era permitida a manifestação por parte dos parlamentares. E, de imediato, a nobreza da doutora Janaína pediu “perdão”. Repetiu três vezes, perdão, perdão e perdão, tão acima estava daqueles que a ouviam.

Um pedido de perdão que não era necessário. A doutora Janaína bem que poderia ter respondido à presidência: se aos deputados é concedido o direito de manifestação, com muito mais direito, legitimidade e autoridade, têm também seus eleitores o direito de se manifestarem. E Janaína ali, além de advogada, era eleitora também como todos somos.

TODOS OS CRIMES DE DILMA

Mas a professora universitária e advogada preferiu não gerar polêmica no plenário da Comissão. Ela sabia que seu tempo era precioso para gastar com bate-boca inútil e desnecessário. E tocou em frente. Mostrou, tim-tim por tim-tim, todos os crimes que Dilma cometeu, crimes comuns e crimes de responsabilidade, no governo passado e no presente exercício de seu governo. Não ficou pedra sobre pedra.

Em outro momento, ao dizer que Dilma tomou medida “no calar da noite”, houve reação da platéia. E, com sabedoria e talento, consertou: “no calar do final do ano, então”.

APENAS UM TRECHO

“A responsabilidade fiscal neste governo infelizmente não é um valor. Mas se a responsabilidade fiscal não for observada, nenhum programa pode ser mantido. Vossas Excelências não imaginam a dor das famílias que acreditaram que iam ter seus filhos terminando a faculdade e estão começando a receber cartinha de que, ou eles pagam, ou eles perderam esse sonho. Então, a situação é muito grave. Aqui não tem nada a ver com elite, com não elite. Tem a ver com povo enganado. Tem a ver com povo enganado que agora não tem mais as benesses que lhes foram prometidas quando quem prometeu já sabia que não podia cumprir”.

É um trecho, uma passagem, da exposição perfeita e verdadeira que a advogada criminalista e professora de Direito Penal da USP fez ontem aos integrantes da Comissão Especial do Impeachment de Dilma Rousseff. Quem viu, não esquecerá jamais. Eu vi. Je suis Janaina Paschoal.

36 thoughts on “Je suis Janaína Paschoal

  1. Com muita dificuldade, eu não poderia deixar de comentar este importante artigo do dr.Béja com referência a esta senhora em tela, que ontem demonstrou competência e coragem que muitos homens não têm!
    Não se intimidou com os boquirrotos parlamentares, seus berros, má educação, desrespeito, ofensas e agressões que sofreu por intermédio de palavras proferidas por corruptos, irresponsáveis, traidores deste País, defensores de ladrões!
    Disse com clareza os crimes que a Dilma cometeu, e não se intimidou com as reações de indivíduos movidos por interesses e conveniências, que deveriam estar pensando no Brasil e no povo, que vem sofrendo com esta política ignóbil da presidente.
    A drª Janaína foi valente, BRASILEIRA LEGÍTIMA, e esfregou na cara dos que apoiam uma administração corrupta e desonesta os crimes de responsabilidade praticados pela presidente, em larga escala e valores BILIONÁRIOS!
    Parabéns a esta senhora, determinada, disposta, corajosa, fiel às suas convicções, HONESTA, pois exatamente por essas qualidades que deixou os defensores de Dilma ouriçados, sem respostas à altura de suas declarações e demonstrações, salvo expressões de “lideres” de partidos que ainda sustentam politicamente este governo nefasto, que tentaram desqualificá-la, sabendo que são eles os bandidos, os canalhas, os aproveitadores, os que incentivam os roubos e assaltos às estatais, fundos de pensão e o erário público!
    Cada uma das críticas pronunciadas pelos deletérios defensores de Dilma, na verdade significam rasgados elogios à conduta da advogada Janaína, e enaltecimento da sua eficiência e eficácia na apuração dos crimes da presidente, que ensejaram o pedido de impeachment, sendo esta senhora um de seus autores.
    Minha homenagem à profissional que dignificou a advocacia ontem à tarde no Congresso.
    Grato pelo artigo extraordinário, dr.Béja.
    Um forte abraço.
    Saúde e Paz!

  2. O pior de tudo foi ainda terem deixado a comunista ignorante da tal de Jandira Feghali falar ao microfone e dizer que a petição tem argumentos fracos e frágeis para ser considerado qualquer crime contra Dilma!! Ha ha ha ha ha ha. Uma ignorante querendo ser mais expert que a Dra Janaína Paschoal??? Nem deveria ter sentado para falar asneiras. Que vergonha Sra Jandira!!!

  3. Dr. Béja.
    Ontem, mesmo não sendo da área do direito, fiquei impressionado com a desenvoltura dela. Gostaria de citar a parte final de sua acusação, quando ela disse que já foi questionada tanto pela esquerda, como pela direita, por ter sido uma das autoras desse pedido e completou: Sim eu fiz esse pedido, pois sempre fui um defensora do Legislativo e já estava preocupada em ouvir de ambos lados que os Senhores Deputado e essa Casa não representam mais ninguém.
    Dessa forma esse processo , mesmo tendo qualquer resultado esse resultado será proveniente da consciência dos Senhores Parlamentares…

    Ganhou de longe da Miguel Reali ….

  4. Também eu, Dr. Jorge Béja, fiquei encantado com a exposição da Professora Doutora Janaína Paschoal no exíguo tempo que lhe foi concedido para fazer a acusação da Presidente Dilma Roussef, com uma fala bem articulada, citando crime por crime e explicando as diversas leis atinentes ao caso sem consultar uma anotação, numa retórica envolvente que seduz até o mais indiferente ouvinte, e me fez lembrar, mutatis mutandis, outro orador inigualável, o Padre Antônio Vieira, cuja força do convencimento era tamanha que no “Sermão do Bom Sucesso das Armas de Portugal” não fala ao povo, mas ao próprio Deus, que por intercessão de Nossa Senhora ajude os portugueses a expulsar os holandeses de nosso território porque os portugueses são os que tinham a fé genuína, e os holandeses, calvinistas, hereges. E Deus, intimado, atendeu tão bela retórica e tão irrecusável argumento . Os portugueses estavam em desvantagem militar. Leiam o que Vieira disse a Deus:

    Pregado na Igreja de Nossa Senhora d’Ajuda da cidade da Bahia, no ano de 1640, com o SS. Sacramento Exposto.

    “(…) Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens, mais alto hão de subir as minhas palavras; a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. É este o último dos quinze dias contínuos, em que todas as igrejas desta metrópole, a esse mesmo trono de vossa potente majestade, têm representado suas deprecações; e pois o dia é o último, justo será que nele se acuda também ao último e único remédio. Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e pois eles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-Vos a vós. E tão presumido venho da vossa misericórdia, que ainda que sejamos nós os pecadores, vós haveis de ser hoje o arrependido.(…)

    Muita razão tenho eu de o esperar. Olhai, Senhor, que já dizem os hereges insolentes com os sucessos prósperos que vós lhes dais ou permitis: já dizem que, porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda, e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece, e somos vencidos. Assim o dizem, assim o pregam, e ainda mal, porque não faltará quem os creia. Pois é possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra vossa fé? É possível que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfêmias contra vosso nome? Que diga o herege que Deus está holandês? Oh! não o permitais, Deus meu, por quem sois! Não o digo por nós, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo, e pela honra do vosso santíssimo nome; por vós o digo, e pela honra do vosso santíssimo nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomen tuum. Já que o pérfido calvinista, dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados, faz argumentos da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua a religião verdadeira; veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade.

    Os ventos e tempestades que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotes e desbaratem as suas: as doenças e pestes que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas, e despovoem os seus presídios; os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados, e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a fé romana, que professamos, é fé, e só ela a verdadeira e a vossa.(…)

    Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto? Que a mim, que sou vosso servo, me oprimais e aflijais, e aos ímpios, e aos inimigos vossos, os favoreçais e ajudeis? Parece-vos bem que sejam eles os prosperados e assistidos de vossa Providência; e nós os deixados de vossa mão, nós os esquecidos de vossa memória, nós o exemplo de vossos rigores, nós o despojo de vossa ira?

    Considerai, Deus meu, e perdoai-me se falo inconsideradamente. Considerai a quem tirais as terras do Brasil, e a quem as dais. Tirais estas terras àqueles mesmos portugueses (e completo eu: seus filhos católicos brasileiros) a quem escolhestes entre todas as nações do mundo para conquistadores da vossa fé, e a quem destes por armas, como insígnia e divisa singular, vossas próprias chagas. E será bem, supremo Senhor e Governador do universo, que às sagradas quinas de Portugal, e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas, arrastadas, e ignominiosamente rendidas? E que fareis, ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta?(…)

    Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos, tão honrada e tão gloriosamente; e assim permitis que saiamos agora com tanta afronta e ignomínia.(…) Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no Oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios e portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas das feras e monstros marinhos, – que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim?(…) Ganhá-las para as não lograr, desgraça foi, e não ventura: possuí-las para as perder, castigo de vossa ira, Senhor, e não mercê nem favor de vossa liberalidade.

    Se determináveis das estas terras aos piratas da Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores, para lhes lavrarmos as terras, para lhes edificarmos as cidades, e depois de cultivadas e enriquecidas, lhas entregardes? (…) Mas pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas, entregai-lhes quanto temos e possuímos, ponde em suas mãos o mundo: e a nós, os portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos.

    Mas só vos digo e lembro, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais(…) Holanda vos dará os apostólicos conquistadores que levem pelo mundo os estandartes da cruz. Holanda vos dará os pregadores evangélicos que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica, e a reguem com o próprio sangue. Holanda edificará templos, levantará altares, consagrará sacerdotes, e oferecerá o sacrifício de vosso santíssimo corpo. Holanda enfim vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdã, Meldeburgo e Flesinga, e em todas as outras colônias daquele frio e alagado inferno se está fazendo todos os dias…

    Se acaso for assim, e está determinado em vosso secreto juízo que entrem os hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente, e muito deveras, é que, antes da execução da sentença, repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração enquanto é tempo; porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão fundada em vós mesmo, que tenho para o dizer.

    Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os homens, e por mais que Noé orava em todos aqueles cem anos nunca houve remédio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se enfim as cataratas do céu, cresceu o mar até o cume dos montes, alagou-se o mundo todo: – já estará satisfeita vossa justiça. Senão quando, ao terceiro dia, começaram a aboiar os corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens, que a vissem, não os havia. Vistes vós também, como se o vísseis de novo, aquele lastimosíssimo espetáculo, e posto que não chorastes, porque ainda não tínheis olhos capazes de lágrimas, enterneceram-se porém as entranhas de vossa divindade com tão intrínseca dor (Tuctus dolore dordis intrinsecus) que do modo que em vós cabe arrependimento, vos arrependestes do que tínheis feito ao mundo, e foi tão inteira a vossa contrição, que não só tivestes pesar do passado, senão propósito firme de nunca mais o fazer.

    Este sois, Senhor; e pois sois este, não vos tomeis com vosso coração. Para que é fazer agora valentias contra ele, se o seu sentimento, e o vosso, as há de pagar depois? Já que as execuções de vossa justiça custam arrependimentos à vossa bondade; vede o que fazeis, antes que o façais, não vos aconteça outra. E para que o vejais com cores humanas, que já vos não são estranhas, dai-me que eu vos represente primeiro ao vivo as lástimas e misérias deste novo dilúvio; e se esta representação vos não enternecer, e tiverdes entranhas para o ver sem grande dor, executai-o embora.

    Imaginemos pois (o que até fingido e imaginado faz horror) imaginemos os que vêm a Bahia e o resto do Brasil a mão dos holandeses; que é que há de suceder em tal caso? Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, sexo, nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos. Chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua honestidade: chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito às suas cãs: chorarão os sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão finalmente todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a esses perdoará a desumanidade herética.

    Sei eu, Senhor, que só por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora que não era bem castigar Nínive. Mas não sei que tempos, nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda. Pois também vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo, também a vós há de chegar.

    Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras, arrebatarão essa custódia em que agora estais adorado dos anjos, tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplica-los-ão a suas nefandas embriaguezes; derribarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deforma-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo: e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas, nem às imagens tremendas de Cristo crucificado, nem às da virgem Maria. Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas em vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo corpo; mas nas de virgem Maria, nas de vossa santíssima mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e amor de filho.

    No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e com serem aqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a lhe tocar, nem a lhe perder o respeito. Assim foi, e assim havia de ser, porque assim o tínheis vós prometido pelo profeta: Flagellum non apropinquabit tabernaculo tuo. Pois, filho da virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de vossa mãe, como consentis agora que se lhe façam tantos desacatos? Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma virgem era a arca do testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhe tirastes a vida. Pois se então havia tanto rigor para quem ofendia a imagem de Maria, por que o não há também agora? Bastava então qualquer dos outros desacatos às coisas sagradas, para uma severíssima demonstração vossa, ainda milagrosa.

    Se a Jeroboão, porque levantou a mão para um profeta, se lhe secou logo o braço milagrosamente, como aos hereges, depois de se atreverem a afrontar vossos santos, lhes ficam ainda braços para outros delitos? Se a Baltasar, por beber pelos vasos do templo, em que não se consagrava vosso sangue, o privastes da vida e do reino; por que vivem os hereges que convertem vossos cálices a usos profanos? Já não há três dedos que escrevam sentença de morte contra sacrílegos?

    Enfim, Senhor, despojados assim os templos, e derribados os altares, acabar-se-á o culto divino: nascerá erva nas igrejas como nos campos, nem haverá quem nelas entre. Passará um dia de Natal e não haverá memória de vosso nascimento: passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa paixão. Chorarão as pedras das ruas, como diz Jeremias que choraram as de Jerusalém destruída: Viae Sion lugent, eo quod non sint, qui veniant ad solemnitatem. Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa a devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias. Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes que as digam: morrerão os católicos sem confissão nem sacramento: pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e em lugar de S; Jerônimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão neles os infames nomes de Calvino e de Lutero: beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses: e chegaremos a estado que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: Menino, de que seita sois? Um responderá, eu sou calvinista; outro, eu sou luterano.

    Pois isto se há de sofrer, meu Deus? Quando quisestes entregar vossas ovelhas a Pedro, examinaste-lo três vezes, se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão a lobos? Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito, nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é, (que assim o estão prometendo vossas entranhas piedosíssimas) se é que há de haver dor, se é que há de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem a execuções, agora; não é justo vos contente antes o de que vos há de pesar em algum tempo.”

  5. Sao pessoas assim que merecem serem admiradas. sem duvida alguma! So pelo fato de ser educada com os mal educados, respondeu a altura no perdao por 3 vezes, sinto calafrios ate agora ,relendo esse comentario do doutor Jorge Beja… ainda existe no Brasil pessoas como a doutora Janaina

  6. Lavou a nossa alma. Com cara de espanto e tentando disfarçar o incômodo por estar com uma plaquinha na mão defendendo um golpe que é deixar no poder uma Presidente que cometeu inúmeros crimes, deputados com certeza levarão em suas consciências este aprendizado. O bem vencerá.

  7. Permita-me discordar, em parte, Sr José T. Filho. “O bem vencerá”, concordo, mas “deputados com certeza levarão em suas consciências este aprendizado” será um pouco difícil. As fisionomias de Jandira Fegali, W. Damous e Benedita da Silva me deixaram em dúvida se conseguiriam aprender alguma coisa e se têm consciência.

  8. Dr. Jorge Béja, com o devido respeito ao Sr. e a outros Juristas, com 45 anos de advocacia, nunca tinha visto e ouvido um advogado (jurista) com um raciocínio tão limpo e contundente quanto o da Jurista Janaína Paschoal, ontem. Suas respostas eram tão incisivas que deixava seu interlocutor pasmo, pois citava a lei, doutrina e jurisprudência sem piscar nem consultar apontamentos. A sua simplicidade deveria servir da exemplo para todas as mulheres da Terra. Quanta Grandeza!!!

  9. Do ponto de vista estético, a sacudir Platão, é curioso, pelo menos na minha visão, como se dá o fenômeno do embelezamento físico pela beleza da inteligência.

    Por absoluta falta de tempo, só pude assistir parte, pequena parte, da fala da Dr.ª Janaína. Lógico que assistirei ao vídeo completo, especialmente após a menção honrosa do Dr. Béja. Mas deu para pressentir que não houve exageros nesses elogios.

  10. Leopoldo Heitor e Dana de Teffé, a nosso ver, citados na matéria, por si só resolvem a questão do impeachment 171: ” se não há corpo não há crime, e, por via de consequência, não há assassino a ser punido”, muito embora o homicídio esteja previsto em lei. E a política não pode ser mais realista do que o próprio rei, senão em estado de Revolução e subversão total do próprio Estado de Direito.

  11. Me parece que há uma tentativa de impedir investigações da lava jato, agora o stf diz que o caso do Lula ficará com eles, até onde vão levar este país, quando afundar de vez o stf será o responsável, pois são tantas as evidências de blindagem, corrupção, falcatruas, conchavos, o país vive sua pior administração, estas entidades que fazem ato contra o impeachment não é a maioria da população, são pagas pelo governo, por isto fazem estes atos, o povo não é bobo como parece, sentem que o país está afundando, inflação, juros, desemprego e por aí vai, seria mais grandioso Dilma Rousseff pedir para sair do que ver o país afundar, com ajuda de poderes que estão pagando para ver até onde vai dar, pode ser que o desastre seja pior.

  12. Costumo sempre citar Carlos Lacerda digo que foi um tribuno brilhante que o Brasil já teve. O Brasil parava para ouví-lo. Ontem, vi outra grande personalidade – a Dra. Janaina. Foi perfeita. Parabéns.

  13. Agora acabei de assistir ao depoimento da Dr.ª Janaína Paschoal.

    E cheguei à seguinte conclusão:
    SE D. Dilma assistisse à essa notável fala – deve ter assistido – e SE entendesse (estou querendo demais!) e SE tivesse vergonha na cara (aí o que quero já é “viajar na maionese”), teria entregue o cargo e sumiria para bem longe.

  14. Gostaria de ver o eminente Dr. Beja comentar a defesa do ministro e do professor (da UERJ, amigo do Fucs?), com relação às pedaladas e crimes de madame. Seria certamente a antítese de tudo dito sobre a nobre dra. Janaína.

    • Silvio Amorim, defender o indefensável é sempre muito difícil. Os dois, sem desenvoltura e sem o menor poder de convencimento, tentaram mostrar que os atos de Dilma não correspondem à prática que a lei considera crime de responsabilidade. Tentaram, mas não convenceram. Faltou alguém para deles indagar o que então seria crime de responsabilidade de acordo com a lei. Nem era preciso citar muitos exemplos. Bastaria um. Mas nem isso aconteceu. O que se viu e ouviu ontem, na Comissão Especial do Impeachment, foram duas pessoas inseguras, que em nenhuma passagem de suas falas convenceram.

  15. Estimado Jorge Béja,
    Um privilégio pelo nosso histórico relacionamento.
    Sensibilizado por sua memória do Grande Amigo Leopoldo Heitor, do qual mantemos saudades.
    Testemunhamos a atuação dele em um Júri, com registros de sua impecável oratória e criatividade na condução da Defesa de suas argumentações.
    Assistimos igualmente a fala/o depoimento da Dra. Janaína com similar empolgação por sua postura e essência.

    • Caríssimo João Luiz Allevato Junior.
      Faz tempo que ando procurando você. Estou felicíssimo por ter lido este artigo, em que relembro o fabuloso e inigualável Leopoldo Heitor de Andrade Mendes. Sei da sua amizade filial ao inesquecível Leopoldo Heitor e dele por você. Sei como você chorou com a morte dele. Leopoldo foi um grande homem, um grande brasileiro, um grande advogado. Ele não sabia dizer não a ninguém. Você que viveu tão próximo dele sabe muito mais das virtudes deste grande homem. Ele foi meu amigo. Lá no escritório, se procurar bem, ainda tenho a fita K7 do juri lá de Rio Claro que o absolveu. Tenho a fala do promotor e dos advogados de Leopoldo e do próprio Leopoldo defendo-se em causa própria. É uma relíquia. Vou procurar até achar. E em seguida vou procurar você para entregar ao filho dele, Leopoldo Heitor de Nadrade Mendes Filho, que é juiz de direito aqui no Estado do Rio. Bravo! Bravíssimo, Leopoldo Heitor!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *