JK definia a política como esperança: é o que está faltando ao Brasil

Pedro do Coutto

O ex-presidente Juscelino Kubitshek me disse numa entrevista publicada no Correio da Manhã em 1963, a respeito da sucessão marcada para 1965, mas que foi banida do mapa democrático pela ditadura militar que começou em 64, que, sob a ótica do eleitor, a política principalmente representava esperança, palavra abrangente em sua essência. Juscelino havia sido eleito em 1955 com 33% dos votos, seguido por Juarez Távora (27), Ademar de Barros (20) e Plínio Salgado (10). Outros dez por cento votaram nulo ou em branco.

A entrevista e os resultados de quase sessenta anos atrás me vieram à lembrança ao ler a matéria que a Folha de São Paulo publicou na edição de domingo, destacando que em relação às urnas de outubro deste ano o índice de desinteresse (hoje) nunca foi tão alto: 16%  pretendem anular ou votar branco, enquanto a parcela de 8% não sabe ainda como vai agir. Há, portanto, uma insatisfação com a política, a qual, na realidade, substitui a esperança pela desesperança.

Isso é péssimo para o país, mas os políticos e os administradores são os verdadeiros culpados. Corrupção em alta escala, promessas descumpridas, obras que começam em não acabam, eternizando os problemas que se destinavam a resolver. Os eleitores encontram-se exaustos de tantas decepções. Generalizam-se através de todos os partidos. Que, por sua vez, perderam a confiança dos eleitores.

DESESPERANÇA

De fato sentem que o Brasil seria outro fossem outros os comportamentos das elites governantes. Basta citar a influência exercida pelo doleiro Alberto Yousseff. Uma vergonha para o país, criando uma decepção coletiva. Com raras exceções, não há o desejo de construir, de acrescentar e melhorar as condições de vida. Prevalecem os interesses setoriais, para dizer o mínimo. Política devia continuar sendo motivo de esperança.

Deixou de ser, pelo menos até agora, em termos das eleições deste ano. Tanto é assim que Ricardo Mendonça, em reportagem sobre o Datafolha, focalizou um aspecto importante, termômetro da distância e do desinteresse: não fosse obrigatório o voto, 57% dos eleitores não compareceriam às urnas. Compareceriam 42%. Um por cento  disseram não saber como agiriam. Colocada a pergunta se o voto deve continuar obrigatório, 61% disseram que não.

Um ângulo interessante que vale a pena destacar. Se o voto passasse a ser facultativo, 43% dos 37% que pretendem votar em Dilma não sairiam de casa a 5 de outubro. Mas entre os 20% que se manifestaram em favor de Aécio Neves, a fração de 58% não iria votar. Portanto, fosse facultativo o direito de votar, o prejuízo maior recairia sobre o senador mineiro. Sabem por quê?  Porque a abstenção atingiria mais intensamente as classes de renda mais alta, como também assinala o Datafolha. Restrinjo a comparação a Dilma e Aécio pelo fato de achar, como já escrevi,que se houver segundo turno a disputa será entra a atual presidente e o candidato do PSDB. Eduardo Campos, para mim, não ultrapassará Aécio, que precisa dele para tornar possível o segundo turno. É a sua esperança.

5 thoughts on “JK definia a política como esperança: é o que está faltando ao Brasil

  1. Vamos votar, e?
    Com quem andam os candidatos?
    Qual é o mais megalomaníaco, faraó, democrático?
    Quem vai deixar de lado tudo o que interessa para construir palácios, trem bala, mudar centros administrativos, dar esmolas, criar ministérios?

    Brasília poderia ter sido uma bela cidade industrial, a esplanada dos ministérios (foto) uma esplanada da educação, da creche até a universidade.
    De favela só teria o catetinho para o executivo e um puxadinho para os outros dois poderes, ou, ficassem lá no Rio de Janeiro.

  2. Que interessante constatação. Justamente na classe que mais defende o voto facultativo reside o percentual que menos compareceria as urnas caso fosse adotado este sistema. Isto dá bem uma amostra do quanto eles valorizam a Democracia, apesar de se auto proclamarem os mais “politizados e formadores de opinião”.

  3. O experiente e grande Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO, lembra o dinâmico Presidente JUSCELINO KUBITSCHEK que definia que Política, (mais especificamente Eleição Presidencial), é ESPERANÇA. E por enquanto, para nossa Eleição de 03 Out 2014, o POVO está Desesperançado. E estando desesperançado, ganha a SITUAÇÃO.

  4. Sei não…
    É por essa e outras que torna-se um sonho de verão, de uma esperança que nunca virá, a tão decantada reforma política, acabando com a obrigatoriedade do voto.
    Como não acredito em pesquisa eleitoral, prefiro ficar com a minha desconfiança da urna eletrônica. Pelo menos até o dia em que ela dê um recibo do meu voto.
    Quanto a próxima eleição, permaneço, com a minha convicção:
    Não anulem o voto ! Não reelejam nenhum desses pulhas com mandato!
    Alternância já !
    Com lupa na mão escolha e vote em um novo nome que mereça o seu voto!

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