João Ubaldo e a cartilha do PT

Sebastião Nery

Francisco Leite Chaves, o François, presidente do Diretório da Faculdade de Direito da União dos Estudantes e do Sindicato dos Bancários da Paraíba, foi na década de 50 um dos mais ativos dirigentes nas lutas da nossa União Nacional dos Estudantes, com sua oratória vibrante e coerente.

Formado em Direito e transferido pelo Banco do Brasil para Londrina, no Paraná, preso no golpe de 64, continuou lá sua militância política. Em 74, fui a Londrina para o comício de lançamento de sua campanha para senador pelo MDB.

No aeroporto, uma charanga animava a chegada dos convidados. Quando o vi, saudei-o: “Senador François!” Ele me abraçou e disse no ouvido:

– Nada dessa história de François! Isso era na Paraíba e no Rio. Aqui sou o Leite Chaves. François aqui no Paraná é cabeleireiro e veado!

Brilhante senador, depois procurador-geral da Justiça Militar no governo Sarney, foi ele que reabriu o processo do assassinato de Rubens Paiva.

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LOURINHO

Em 81, Brizola instalava em São Paulo o diretório estadual do PDT. Foi à tribuna um rapaz alourado, de cabelo baixo:

– Nós, os negros…

Brizola levou um susto:

– O companheiro lourinho fala em nome de quê?

– Sou o representante do movimento negro.

– Lá na Bahia do Caó (Carlos Alberto de Oliveira, negro, jornalista baiano, deputado pelo Rio) o companheiro seria o representante dos gringos.

O “lourinho” falou, bem, e continuou representando os negros paulistas.

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MORENINHO

Paulo Guerra era governador de Pernambuco, Joaquim Guerra, o filho, candidato a deputado (elegeu-se, Arena, bom deputado). Houve festa da padroeira em Bom Conselho, Joaquim Guerra foi lá. Depois da festa religiosa, o baile. Joaquim Guerra, bem moreno, queimado de sol, solteiro, foi dançar com a filha do prefeito. O prefeito viu, chamou a mulher:

– Quem é aquele negrinho que está dançando com a menina?

– Não tem nenhum negrinho aqui.

– Aquele ali, dançando com nossa filha.

– Fale baixo, homem, não diga besteira. É o filho do governador.

– Moreninho jeitoso!

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CARTILHA

Na escola, aprendemos que o Brasil é um país continental, múltiplo, multirracial, multicultural, multi tanta coisa.

Pois em 2005, na Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, embora dirigida pelo jornalista mineiro Nilmario Miranda, veterano lutador das causas populares e das melhores figuras do governo, fizeram uma Cartillha do “Politicamente Correto”, de palavras proibidas.

Impressas com dinheiro público, milhares delas foram distribuídas nas repartições públicas, nas escolas, com o que se deve e não se deve dizer. Foi a volta da Santa Inquisição! Um Index vernacular. Uma censura medieval, de QI de calango, de quem tem minhoca na cabeça.

Queriam proibir “veado, negro, preto, mulato, escuro, baianada, palhaço, comunista, funcionário” etc.

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JOÃO UBALDO

João Ubaldo Ribeiro, mestre da língua e da liberdade, jeitoso moreninho baiano, imediatamente jogou na Internet um grito perplexo, indignado, contra a Cartilha do PT:

1. “Estamos ingressando numa era totalitária, em que o governo dá o primeiro passo para instituir uma nova língua e baixar normas sobre as palavras que devemos usar? Palavras veneráveis, como “beata”, em qualquer sentido, deverão ser banidas? Será criada uma política da linguagem? Que autoridade tem essa Secretaria para emitir essas opiniões, que por enquanto podem ser apenas opiniões, mas nada impede, na ditadura mal disfarçada em que vivemos, que uma Medida Provisória venha a ser baixada?”

2. “Os escritores e jornalistas terão seus livros e textos examinados, para que se expurguem termos ou expressões condenadas? Contar piadas será tido como conduta anti-social e discriminatória? O governo é o dono da língua? As palavras “negro”, “preto”, “escuro”, e semelhantes, serão vedadas, sem qualquer contexto julgado negativo? As nuvens de chuva por acaso são brancas e alguém está insultando os negros quando diz que há nuvens negras no horizonte (e há)? Tratar-se-á como injúria ou difamação chamar de comunista alguém que até o seja, mas não se considere como tal?”

3. “Não podemos aceitar esse delírio totalitário, autoritário, (ele, sim!), asnático, deletério e potencialmente destrutivo. Não sei mais o que dizer sobre esse descalabro, escândalo, esse sinal de atraso monstruoso, que de agora em diante não deverei mais poder chamar de palhaçada, para não insultar os palhaços”.

O PT, que rasgou seu programa, naquela hora criou a Cartilha de uma nova Inquisição. Espera-se que hoje os petistas estejam arrependidos.

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