Jobim: personagem de FHC, de Lula, de Dilma, agora de Nelson Rodrigues

Pedro do Coutto

O ex-deputado Nelson Jobim, ministro da Justiça de FHC, por este nomeado para o Supremo Tribunal Federal, e ministro da Defesa de Lula, após aposentar-se do STF, mantido no cargo por Dilma Rousseff, personagem portanto de vários governos, apresenta-se agora como personagem de “A Vida Como Ela É”, de Nelson Rodrigues. Recorreu a ele ao subir no palco dos acontecimentos, desta vez para passar à presidente sua cerimônia de despedida de tantos e diversos ministérios, de tantas e diversas tendências políticas.

Alguma dúvida? Se dúvida houvesse quanto sua intenção de afastar-se da Esplanada, não teria feito, no Senado, o discurso que fez ao participar da homenagem pela passagem dos 80 anos do ex presidente Fernando Henrique. Elogiou enfaticamente FHC e, no contexto, afirmou textualmente que hoje tem de tolerar idiotas. Esqueceu a expressão idiotas da objetividade a que o autor de “Vestido de Noiva” recorria frequentemente. “Só os profetas enxergam o óbvio”, para mim esta a melhor de todas. Cortes de linguagem fortes como os provérbios. E reveladoras de intenções, disfarces e de posicionamentos que a mente humana traduz e revela.

Nós precisamos ter presente – acentuou referindo-se a FHC – que os tempos mudaram. Nelson Rodrigues dizia no passado que os idiotas chegavam devagar e ficavam quietos. O que se percebe hoje é que os idiotas perderam a modéstia. E nós temos de ter tolerância e compreensão também com os idiotas (repetiu novamente), que são exatamente aqueles que escrevem para o esquecimento.

Mais do que evidente que as palavras de Nelson Jobim tinham (e têm) endereço definido. Presidente Dilma Roussef, no Palácio do Planalto, Brasília.

Não pode ser outro. Caso contrário, não injetaria nas expressões a ênfase que injetou. Está portanto de saída da Defesa. Partiu para o ataque. Escreveu para o esquecimento. Qual? Faltou explicar.

Mas a lacuna não tem importância, tantas as presenças em suas palavras. A maior delas a que passou a atmosfera de insatisfação. Clima indisfarçável para qualquer ator da cena política, uma vez que decorre sempre de situações reais bastante substantivas. Como vontades contrariadas, contestações em série, perda de espaço administrativo, enfraquecimento no eterno jogo do poder.

Existe a hipótese, mais plausível, de algum desentendimento mais forte com Dilma Rousseff, uma vez que Jobim projetou, no seu discurso, o confronto entre o estilo suave de Fernando Henrique em relação a outro mais rude. Tanto assim que revelou para todos que Fernando Henrique nunca levantou a voz. Levantar a voz? Porque dizer isso? Só poderia estar comparando o comportamento polido do homem do PSDB, tucano portanto, com o da mulher do PT que preside o país.

A excelente reportagem de Vera Magalhães e Cátia Seabra, Folha de São Paulo de sexta-feira, não dá margem a dúvida. O texto é primoroso. Traduziu o clima, tanto em torno de Jobim, quanto o panorama de tensão ampliado por ele.

Me veio à memória a única atuação de Nelson Rodrigues como ator, o de tio Raul, da peça “Perdoa-me por Me Traires”, Teatro Municipal, novembro de 1956. Tio Raul é chamado a intervir na crise conjugal de seu sobrinho e conclui: você não tem razão nenhuma.

Desce o pano. Intervalo para o segundo ato. Com o tipo de saudação a FHC, Nelson Jobim prepara sua saída de cena. Ou então ameaça deixar o palco caso Dilma não alise as arestas e os espinhos surgidos no Ministério Civil que deve coordenar as ações militares. Este o único dilema que Jobim iluminou pensando na reação de Roussef. Ela não queria mantê-lo no posto. Mas Lula a convenceu. Talvez agora o próprio antecessor esteja mais convencido das razões da sucessora. Quem sabe? As próximas semanas vão revelar. Uma novela.

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