Joel Silveira, repórter e historiador

Pedro do Coutto

A Folha de São Paulo de domingo 27 publicou no Caderno Ilustrada bela reportagem de Morris Kachani focalizando o documentário dirigido por Geneton Moraes Neto sobre a vida e obra de Joel Silveira, um dos maiores jornalistas de seu tempo, e autor de vários livros como o magnífico A História da Forças Expedicionária Brasileira nos campos da Itália. Estava então em O Jornal, da cadeia de Assis Chateaubriand, e foi cobrir a luta da FEB enfrentando os alemães que ocuparam o país e o frio da neve que as batalhas manchavam de sangue. “Por favor não morra, seu Joel”, disse Chateaubriand quando o escalou para a tarefa.

Nascido em 1918, somente viria a morrer em 2007. Durante sua longa jornada na imprensa, deixou a marca de seu talento, sua capacidade de síntese, sua precisão na produção dos textos, como aliás lembrou Ruy Castro ao falar sobre o documentário produzido pela Globo News. Iniciativa extremamente importante, pois lembrar Joel Silveira é destacar um dos maiores autores do cotidiano. Encontrava caminhos inesperados nos fatos simples, destacando criticamente seus encantos e seus dramas.

Geneton classifica o jornalismo de Joel Silveira como um jornalismo literário, o jornalismo do autor. Pois Silveira, com sua sensibilidade, iluminava pontos pouco perceptíveis da trajetória humana. E os sublinhava com firmeza, leveza e objetividade. Geneton compara seu brilho com o de Paulo Francis e Darci Ribeiro. Morris Kachani cita o exemplo de Euclides da Cunha, também, que escreveu Os Sertões dentro da série de reportagem sobre Canudos que fez para o Estado de São Paulo.

A história, aliás, nascia das teclas nervosas das redações, hoje as teclas acionadas nos computadores. A meta do jornalismo, entretanto prossegue no empenho de aproximar o fato do conhecimento público, apresentando seus vários ângulos. Como a indústria busca aproximar o espaço do invento da criação do produto. No século 19, a máquina fotográfica demorou longo tempo entre as primeiras experiências e sua entrada no mercado. Hoje, século 21, esta semana deve estar sendo concluída a elaboração de uma ideia de poucos dias atrás.

Essa rapidez se deve à informação e o talento humano. Deve-se indiretamente aos que partiram em busca da informação e de sua tradução coletiva. Caso de Joel Silveira e de alguns outros que se empenharam com amor e assim com entusiasmo. A diferença PE que os inventos são propriedades empresariais, as produções jornalísticas são abertas a todos e quanto mais clara melhor. A clareza foi a marca mais forte do repórter, do caso do jornalista que é notícia, como alguém o classificou, para destacar sua importância, na época em que mantinha uma coluna no antigo Diário de Notícias.

Fez grandes amigos como Carlos Heitor Cony e José Aparecido de Oliveira. Cony conseguiu publicar em capítulos na Revista Manchete a história da FEB. Com vinte livros publicados, Joel Silveira disputou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Mas perdeu para Zélia Gatai, viúva de Jorge Amado. Que fazer? Porém sua obra múltipla aí está e será lembrada. Como jornalista e escritor está ao nível de William Schirer, repórter do New York Times, autor do monumental Ascensão e Queda do III Reich. O jornalismo e a história caminham juntos.

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