Jogo de compadres

Carlos Chagas

José Serra acaba de levantar a bola para o Lula cortar. Declarou que meta não é promessa, ao justificar porque algumas estações do metrô de São Paulo não foram entregues à população na data antes anunciada. Sendo assim, melhor argumento não haverá para explicar o atraso nas obras do PAC I.  Foram metas, não promessas, mais da metade das quais furadas.

Quem quiser que se engane quando, dentro de poucos dias, o governo divulgar o PAC II. Vai valer  tudo, desde a erradicação do analfabetismo à entrega de uma casa para cada brasileiro. O desvio das águas do Amazonas para o Rio Grande do Sul, a implantação do trem-bala no trecho Manaus-Porto Alegre,  a distribuição de montes de ações da Petrobrás para cada bebê nascido desde 2003 e quantos disparates a mais poderão ser incluídos na segunda versão das promessas de campanha de Dilma Rousseff?

Por essas e outras muita gente anda desiludida com a sucessão presidencial. Entre Serra e Dilma, dão um pela outra e não querem volta. Trata-se de um exagero, é claro, mas  o governador de São Paulo dá a impressão de que entrará de salto alto na disputa. Uma coisa é a baixaria, que espera-se não venha a acontecer, mas outra igualmente triste é o compadrismo entre os candidatos. Se é para continuar tudo como está, logo aparecerá alguém sugerindo melhor deixar o Lula no governo…

Bicadas no ninho

Coube ao senador Artur Virgílio protestar contra a inusitada intervenção do ex-presidente Fernando Henrique na política do Distrito Federal. Para o líder do PSDB no Senado, o sociólogo não tem procuração para selar acordos nas sucessões estaduais e, muito  menos, para prometer a presença de José Serra nos palanques de Joaquim Roriz, por ele recebido esta semana em São Paulo.

Há quem identifique nas trapalhadas de FHC uma vontade de não se afastar do palco, ainda mais agora que lá do exterior figuras de projeção lembram o nome do presidente Lula para secretário-geral das Nações Unidas. Ele não quer, rejeita qualquer sondagem, mas a simples menção da hipótese desperta quilos de frustração no antecessor. Afinal, quem fala cinco línguas, escreve livros complicados e pronuncia conferências esotéricas pelo mundo?

A reação de Artur Virgílio não foi isolada, apesar dele ter sido escalado para único  crítico, tendo em vista não conturbar o ninho dos tucanos. Os principais dirigentes do PSDB concordam em gênero, número e grau com o representante do Amazonas, em especial porque a imagem de Joaquim Roriz não será, propriamente, edificante para a campanha de José Serra.

Uma brecha

Uma brecha foi aberta no muro das resistências do  governador Aécio Neves de rejeitar sua candidatura à vice-presidência na chapa de José Serra. Quem abriu foi o próprio governador mineiro, ao dizer que  fundamental será o escolhido ajudar na vitória do candidato. Como não será Kátia Abreu que ajudará,  nem Tasso Jereissatti, basta concluir de quem virá a ajuda mais substancial: dele mesmo, Aécio. A aliança de Minas com São Paulo assusta os adversários.

Ficha limpa, mas nem tanto

O presidente da Câmara, Michel Temer, marcou para o próximo dia 7 a votação da chamada emenda da ficha limpa, que se aprovada impedirá de se candidatarem os candidatos condenados em segunda instância pelo Código Penal. Trata-se de uma meia-sola na proposta original, que negava registro a qualquer cidadão condenado pela justiça criminal, mesmo  passada por um juiz singular.  Os interessados em não cair nas malhas da proibição alteraram o texto para “condenados por colegiado”, ou seja, os tribunais acima da primeira instância. Resta o consolo de que o júri é um colegiado, mesmo na escala inicial dos  julgamentos. Quem tiver sido condenado pelo conselho de sentença ficará de fora das eleições. Isso, é claro, se o projeto for aprovado, coisa de que muita gente duvida…

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