Jorge Bastos Moreno, um suave tradutor da realidade

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Moreno escrevia em O Globo há mais de 30 anos

Pedro do Coutto

A diferença de 20 anos entre a minha geração e a dele não me deu o prazer de conhecê-lo pessoalmente, mas acompanhei sua trajetória brilhante no Globo. Pelas manifestações intensas que marcaram sua morte, constato que se tratava de excepcional figura humana, um suave tradutor da realidade, alguém que jogava luz entre a sombra e o fato. Colecionou amigos em grande número, o que destacava seu caráter agregador e assinalava sua compreensão entre as diferenças humanas.

Com ele desaparece um estilo raro no jornalismo brasileiro: alguém capaz de penetrar nas curvas do segredo sem contundir aqueles que o guardavam. Um jornalista que soube honrar sua profissão, a qual, no fundo, é uma ponte entre o que existe e o que se sabe. Atravessam essa ponte diariamente milhões de pessoas à procura da exatidão de uma ideia clara entre as múltiplas versões que podem existir entre um lado e outro da política, da economia da sociedade.

ANSIEDADE – O jornalismo, efetivamente, é isso. A busca incessante e renovadora marcada pela ansiedade própria de todos os profissionais de imprensa. Um jornalista nunca está tranqüilo, porque ele sempre tem o impulso dentro de si de identificar uma situação e em seguida traduzi-la para a opinião pública, para todos nós que caminhamos no tempo e buscamos uma resposta sempre clara de uma pergunta reveladora.

A beleza da comunicação vive nesta busca que se renova a todos os momentos. Redatores, repórteres, fotógrafos, cinegrafistas habitam esse universo fascinante que é marcado pela descoberta e por sua divulgação. Às vezes pessoas não entendem bem a nossa tarefa de tradução e revelação. Mas para estes dou sempre o exemplo do risco que também envolve a atividade profissional. Basta recorrer aos arquivos de fatos perigosos e marcantes da existência para se ter certeza do que estou afirmando aqui.

HIROSHIMA – Se alguém verifica, estarrecido, a história da bomba de Hiroshima, por exemplo, vai se deparar com os documentos fotográficos. E talvez não pense no risco que fotógrafos correram naquele agosto de 1945. Se alguém procurar fotografias da invasão da Normandia, em julho de 44, vai verificar que o risco heróico dos soldados americanos e ingleses que desembarcaram era o mesmo que os portadores das hoje velhas máquinas fotográficas corriam. Não é diferente a jornada também heróica da Força Expedicionária Brasileira nas montanhas da Itália Fascista.

Reportagens produziram em sua época longos capítulos da história universal. Hoje essa história está nos livros, depois de estar nas teclas de velhas máquinas de escrever e eternizadas nas lentes dos repórteres que trabalhavam na visão. São episódios como os de Monte Castelo, Pearl Harbor, Stalingrado, que serão visitados para sempre na memória universal.

PERSONAGEM – Jorge Bastos Moreno foi personagem marcante no jornalismo que se renova, não só a cada dia mas a cada momento da vida.

A história se escreve, assim, através das marcas indeléveis que a imprensa e a televisão produzem, da mesma forma que as imagens e os fatos registrados pelo jornalista que há poucos dias desembarcou da viagem. Viagem, lembro agora era a imagem que o grande pensador Alceu de Amoroso Lima – no final da vida, mais cristão do que católico – usava para falar daqueles que deixaram de viver na terra. Amoroso Lima referiu-se assim quando da morte de Nelson Rodrigues. Frisou que, apesar de suas divergências ele era mais um companheiro de viagem que desembarcava.

Jorge Bastos Moreno desembarcou, é pena. Mas sua passagem possui momentos importantes da história que ele assistiu e traduziu com leveza e humor. Mas sem minimizar o valor das descobertas a que chegou. Por tudo isso será sempre lembrado como um grande jornalista que foi. Ele viverá nos arquivos de O Globo com o destaque que fez por merecer.

One thought on “Jorge Bastos Moreno, um suave tradutor da realidade

  1. Belíssimo elogio do grande e experiente Jornalista, Sr. PEDRO DO COUTTO, por ocasião do passamento do Jornalista JORGE BASTOS MORENO.

    Como dizia THOMAS JEFFERSON, “a Imprensa Livre é a única salvaguarda das Liberdades Públicas; e que uma Imprensa Livre é o triunfo da Humanidade sobre a opressão; por isso até seus abusos devem ser suportados”.

    Os Antigos diziam que a Imprensa era a Escola dos Adultos, então os Jornalistas são nossos Professores e JORGE BASTOS MORENO foi nela, um bom Professor,

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