Jornalismo, a eterna aventura de escrever a história do mundo de minuto a minuto

Charge reproduzida do Arquivo Google

Pedro do Coutto

Acredito que o título é uma síntese forte e realista do jornalismo e eu ia dizer a história do mundo “no dia a dia”. Mas me lembrei a tempo da influência decisiva da internet na comunicação e por isso, substitui o espaço de 24 horas pelo espaço urgente de 60 segundos. O jornalismo, depois de Gutemberg no século XV, assumiu um papel essencial para contar a história dos países, povos, homens e mulheres que povoam o universo e, como nós, vivem tanto as suas realidades quanto suas fantasias, na busca de afirmações, dúvidas e certezas que no fundo habitam a alma humana.

Tive o impulso de escrever este texto quando li na manhã deste domingo o artigo de Otávio Frias Filho, diretor de redação da Folha de São Paulo, na edição de 25, caderno “Ilustríssima”. Achei que o tema tem uma amplitude muito maior do que aquela que foi atribuída por ele à imprensa, podendo esta afirmação soar estranha. Por isso convido os leitores deste site a lerem o artigo de Otavio Frias Filho.

COMUNICAÇÃO – O jornalismo é uma ponte entre o ontem e o hoje, entre o hoje e o amanhã, oferecendo um percurso que dá margem a interpretações e reinterpretações. Daqui a pouco citarei um exemplo.

Entretanto, o aspecto principal do jornalismo é que ele representa o canal de comunicação entre o poder e as sociedades, entre os fatos e suas versões, entre as empresas jornalísticas e a população de todos os países. Essa comunicação, com a internet, ganhou uma dimensão ainda mais extraordinária e impactante: por isso nenhum termo é mais adequado para definir a procura de notícias do que a palavra navegação. Esta palavra ganhou contornos mais amplos através do tempo. Antes estava restrita às caravelas e as grandes descobertas. Depois passou a voar pelos ares, Incorporou a era da cibernética espacial e agora encontra-se à disposição de todos através das telas dos computadores.

A velocidade da informação tornou mais urgente e imediata as mensagens que, de uma forma ou de outra vão ser incorporadas à memória coletiva. Todo jornalista leva consigo a extrema responsabilidade de entregar o produto de seu trabalho ao julgamento coletivo. Não basta ler apenas um jornal, ou acessar um site, como este da Tribuna da Internet. Indispensável se torna participar dos conteúdos mais importantes e mais sérios que cada pessoa escolher para si.

A história também é o presente na magistral definição de Arnold Toynbee. Houve um tempo em que, pelos colégios do mundo a fora, estudava-se a história do passado. Foi um erro. Ela acontece na velocidade do presente, na força dos fatos, na clareza das opiniões. Como na expressão de Simone de Beauvoir,  todos procuramos em tudo a exatidão de uma ideia. A predominância do fato e sua influência, consciente ou não em nossas vidas.

São grandes os riscos da profissão. Quando lemos os jornais e nos deparamos com fotografias de guerras e cenas de sangue, não devemos nos esquecer que elas chegam a nós pelo jornalismo, única ponte e única fonte que existe em transmitir os fatos. E assim transmitir o pulsar da vida humana.

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JORNALISMO, UM MAL NECESSÁRIO
Otavio Frias Filho / Folha

O jornalismo pode ser qualificado, embora com certo exagero, como um mal necessário. É um mal porque todo relato jornalístico tende ao provisório, quando não ao precário. Nem todos os jornalistas estamos preparados para abordar os assuntos sobre os quais escrevemos. Mesmo quando estamos, é próprio do jornalismo apreender os fatos às pressas em seus contornos ainda indefinidos. A chance de erro, sobretudo de imprecisões, é grande.

O próprio instrumento utilizado é suspeito. Diferente da notação matemática, que é neutra e exata, a linguagem escrita se presta a vieses de todo tipo, na maior parte inconscientes, que refletem vivências, visões de mundo, cacoetes mentais de quem escreve. Eles interagem com os vieses de quem lê, de forma que, se são incomuns os textos de fato isentos, mais raro ainda que sejam reconhecidos como tais.

DEBILIDADES – A propósito do lançamento da quinta versão do “Manual da Redação” da Folha, peço licença para um testemunho pessoal. Pertenço a uma geração que não se conformava com as debilidades do relato jornalístico. Claro que nunca tivemos a ilusão de que fosse possível alcançar uma objetividade comparável à da matemática. Mas acreditávamos em dois caminhos para reduzir a margem de arbítrio.

O primeiro era estipular uma série de normas destinadas a coibir a incidência de erros e lacunas e amainar o efeito dos vieses. O segundo era dotar o veículo de instrumentos coercitivos de autocorreção, como a manutenção de um(a) ombudsman e a obrigatoriedade de publicar a seção “Erramos”.

Foram estratégias frutíferas, mas que logo mostraram seus limites. É mais fácil retificar erros específicos do que tornar as abordagens menos superficiais. E o excesso de regras acabou por se converter em obstáculo —não existe norma que garanta uma boa formação profissional e intelectual. As edições mais recentes do “Manual” são menos draconianas, baseadas antes em orientações do que em comandos categóricos.

CULTIVAR VALORES – O objetivo daquela geração, realizado apenas em parte, era estabelecer que o jornalismo, apesar de suas severas limitações, é uma forma legítima de conhecimento sobre o nível mais imediato da realidade. Para afirmar sua autonomia, precisa cultivar valores, métodos e regras próprios.

O que nos remete à questão do início; sendo um mal, por que necessário? Por dois motivos. Ao disseminar notícias e opiniões, a prática jornalística municia seus leitores de ferramentas para um exercício mais consciente da cidadania. Thomas Jefferson pretendia que o bom jornalismo fosse a escola na qual os eleitores haveriam de aprender, pela cobertura crítica dos governantes, a exercer a democracia.

O outro motivo é que os veículos, desde que comprometidos com critérios de verificação e com o debate dos problemas públicos, servem como arena de ideias e soluções. O livre funcionamento das várias formas de imprensa, mesmo as sectárias e as de má qualidade, corresponde em seu conjunto à respiração mental da sociedade.

JORNALISMO DE VERDADE – No entanto, o jornalismo dito de qualidade sempre foi objeto de uma minoria. A grande maioria das pessoas está de tal maneira consumida por seus dramas e divertimentos pessoais ou domésticos que sobra pouca atenção para o que é público. Desde quando os tabloides eram o principal veículo de massas, passando pela televisão e pela internet, vastas porções de jornalismo recreativo vêm sendo servidas à maioria.

O jornalismo de verdade, que apura, investiga e debate, é sempre elitista. Está voltado não a uma elite econômica (embora exista uma intersecção com ela), mas a uma aristocracia do espírito — aqueles interessados no que está além dos interesses privados. São líderes comunitários, professores, empresários, políticos, sindicalistas, cientistas, artistas. São pessoas voltadas ao coletivo.

SEMPRE EM CRISE – A influência desse tipo de jornalismo sempre foi, assim, mediada, e não somente pelas elites sociais que o assimilavam. Desde que se tornou hegemônico, nos anos 1960-70, o jornalismo televisivo se faz pautar pela imprensa. Algo parecido ocorre agora com as redes sociais, que se tornaram câmara de amplificação e controvérsia (espécie de metaimprensa) em torno do que é publicado na mídia profissional.

A imprensa, que vive de cobrir crises, sempre esteve em crise. O paradoxo deste período é que, no mesmo passo em que as bases materiais do jornalismo profissional deslizam, sua capacidade de atingir mais leitores se multiplica na internet, conforme se torna visível a perspectiva de um dia universalizar o ensino superior.

6 thoughts on “Jornalismo, a eterna aventura de escrever a história do mundo de minuto a minuto

  1. Ler os Frias já era….
    A Folha não recuperara sua credibilidade depois da era lula, pode apostar…

    Prefiro ler coisa melhor:

    Magnifica a edição especial impressa do Jornal do Brasil de hoje, Domingo, 25 de Fevereiro de 2018 – Ano 127 n° 01

    “Às 10 horas da manhã, o JB já tinha vendido 90% dos seus exemplares nas bancas. Por volta das 11 horas, a venda estava esgotada”.

    O JB disponibilizou a edição especial para baixar em formato digital (PDF) segue o link:

    http://www.jb.com.br/jornaldigital/2018/02/25/1/

    Fotos, textos e reportagens históricas!

    Chamada da capa:
    “O Rio tem solução
    TODOS AMAM O RIO”

    E um ‘full page’, na página 34, em serifa:

    ‘Porque o Brasil precisa ouvir umas verdades’.

  2. As redações da nossa imprensa são dominadas pela esquerda há mais de 50 anos. Até no tempo da ditadura ela expurgou Gustavo Corção no Globo.
    Agora foi a vez de Guilherme Fiuza, uma das melhores cabeças pensantes do Brasil hoje, mas foi falar a verdade, os redatores do Globo o despediu.
    A Foia tem mais de 15 ou 20 esquerdinhas escrevendo suas colunas. Só o soldadinho do PT Janio de Freitas escreve 3 vezes por semana. Ao contrário, temos dois isentos como o João Pereira Coutinho e o Pondé.

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