Jornalista projeta e destaca os fatos, mas não os cria

Pedro do Coutto

Reportagem de Natuza Nery, Folha de São Paulo de quinta-feira 14 de julho, data nacional da França, revela que no Brasil senadores do PT, entre os quais Jorge Viana, afirmam-se insatisfeitos com os rumos da comunicação social do governo Dilma Roussef, Não têm razão alguma. O setor, dos mais importantes, sob o comando da ministra Helena Chagas atua de forma altamente eficaz e objetiva, conduzindo os atos da chefe do executivo e do governo à opinião pública. Cumpre seu papel, pois a missão do jornalismo é estabelecer um canal de comunicação com a sociedade, com a opinião pública.

Jornalista profissional, Helena Chagas conhece bem a matéria. E a verdade mais contida: sem imprensa não pode existir afirmação humana. Vamos a um só exemplo entre milhares. No início de 57, apareceu no Santos um menino de 16 anos, fenômeno no futebol. Quem revelou o talento? Os jornais, as rádios, as emissoras de televisão.

Agora, os meios de comunicação, a mídia como é chamada genericamente, não cria nada além de suas lentes, não é um sistema de ficção. Os repórteres não são romancistas. Não operam no plano da arte, portanto. São o espelho geral da realidade. Se há fatos concretos, os profissionais de imprensa os expõem. Se não há, nada podem fazer. Isso de um lado. De outro, os assessores de imprensa não podem evitar a publicação de matérias contrárias.

Isso não existe. Mas é uma ideia obscura exposta constantemente pelas agências de publicidade que operam no universo  público. Com 56 anos de profissão, desde o tempo do Correio da Manhã, posso afirmar que ninguém é capaz de tal milagre. Porém administradores são induzidos a acreditar que sim, envolvidos pela sedução do canto de Circe (para citar Homero, pai da poesia). Falso. A comunicação expõe e destaca o positivo. Não pode conter o negativo.

Nem deve interessar ao mundo político, como me disse um dia o presidente JK. Todo governo tem de ouvir o lado contrário, levar em conta a oposição, preocupar-se com ela. Porque é ela quem passa a verdade aos governantes. Não os aduladores sempre de plantão, capazes de conduzir os detentores do poder a um êxtase de narcisismo. Para os que bajulam, os bajulados estão sempre certos, são os melhores, os mais inteligentes, os mais eficientes, acertam tudo. Tal anestesia intoxicante elimina a sensibilidade para com a realidade.

JK estava absolutamente certo. Hoje, 50 anos depois da entrevista da qual constava a opinião a que me refiro, vejo que sua importância é fundamental, muito maior e mais ampla do que pensei que fosse em 1959.

Como pode predominar uma agenda positiva se explodem casos como Palocci, Antonio Pagot, Alfredo Nascimento, Departamento Nacional de Infraestrutura do Transporte, preços superfaturados, roubo em cima de roubo, escândalos em sequência, propinodutos, envolvimentos escusos entre políticos e empresários? Impossível.

Há aspectos positivos. A demissão dos acusados do MT um deles, a demissão de Palocci, outro, a reação da presidente da República contra as cartilhas do absurdo e do mau gosto do ministro Fernando Haddad. Haddad anuncia sua candidatura a prefeito de São Paulo, com o importante apoio de Lula. Uma forma serena de Roussef livrar-se de sua presença negativa à frente do Ministério da Educação.

Esquema ético de imprensa pode produzir milagres. Até porque bombas explodem repentinamente de maneira inesperada. E neste ponto uma das diferenças essenciais entre os jornais e as telas da Internet. Os que navegam partem em busca de objetivos definidos. Pesquisas. Os jornais surpreendem a todos nós, leitores, todos os dias, com fatos inesperados. Por isso, não se pode procurar por aquilo que não sabemos se vai sair ou não. Helena Chagas está atuando firme. O senador Jorge Viana não tem razão. Nem ele nem os senadores a que se referiu Nautza Nery.

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