José Dirceu, este homem fatal de Nelson Rodrigues

Pedro do Coutto

Reportagens de Sérgio Roxo, no Globo, e Mônica Bergamo, Folha de São Paulo, publicadas nas edições de sexta-feira, revelaram que o ex-ministro José Dirceu, condenado pelo mensalão e agora acusado de envolvimento no gigantesco assalto praticado contra a Petrobrás, através de seus advogados, ingressou na Justiça (de São Paulo) com um pedido de habeas corpus preventivo contra a hipótese, levantada por ele próprio, de ter uma nova prisão decretada pelo juiz Sérgio Moro, titular da Vara Federal no Paraná. O pedido foi negado.

Sua atuação, como integrante do escândalo – acentuam Sérgio Roxo e Mônica Bergamo – se complicou com o depoimento do empresário Milton Pascowitch, da Jamb Engenheiros Associados, no qual afirmou que o pagamento de 1 milhão e 450 mil reais feito a ele, sob forma de consultoria, na verdade foi propina pela obtenção de contrato na estatal. Não foi a primeira revelação sobre comissões pagas a Dirceu sob a forma de consultoria.

Antes de Pascowitch, o engenheiro Ricardo Pessoa, da UTC, que coordenada o grupo de ação das empreiteiras junto à Petrobrás, já havia descortinado a farsa no depoimento à Polícia Federal e Ministério Público, matérias divulgadas pela Revista Veja e pelos jornais O Globo, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo.

Antecipando-se a uma nova prisão, José Dirceu, sobretudo pelo tom do pedido à Justiça, emerge novamente como o homem fatal de Nélson Rodrigues, personagem do escritor muito frequente nas crônicas sobre futebol e nas suas memórias publicadas no Globo. De fato, José Dirceu encaixa-se plenamente no personagem sempre envolvido em complicações em momentos dramáticos, além de, também, em nuvens de humor em torno de sua figura e desempenho.

“PRIMEIRO-MINISTRO”

Vamos por etapas. No governo Lula, que começou em 2003, foi nomeado ministro chefe da Casa Civil e destacado pelo presidente como capitão do time, referindo-se à equipe de sua administração. Era, de fato, portanto, uma espécie de primeiro-ministro da administração que alvorecia. Que fez ele? Organizou um tragicômico mensalão, denunciado pelo deputado Roberto Jefferson, que culminou com sua demissão por quem o havia nomeado e a cassação de seu mandato de deputado pela Câmara. Tão fortes foram os efeitos da explosão que acabou condenado à prisão pelo Supremo Tribunal Federal.

Antes da prisão fechada que virou domiciliar, na qual se encontra, José Dirceu passou a desenvolver forte atuação nos bastidores, de tal forma que foi “contratado” por diversas empresas de porte para trabalhos de consultoria sobre os mais diversos assuntos, incluindo empreendimentos no exterior. Abria portas, estava sempre com as chaves do sucesso nas mãos. Mas esse tempo passou, teve fim, como se imagina, com a época das delações premiadas. Em relação a si próprio, com o mensalão de 2005 jogou fora a Presidência da República em 2010. Foi na verdade, o grande derrotado da trama e do drama que causou.

Não fosse isso, não haveria a candidatura Dilma Rousseff na sequência de Lula. Dilma deve sua vitória nas urnas à alucinação de José Dirceu.

SENTENÇA FINAL

Neste momento, como personagem de meu saudoso amigo Nelson Rodrigues, ele mergulha na dúvida: ser ou não ser preso? Basta ler o texto produzido por seus advogados. “Hoje, no crepúsculo de sua vida, com 70 anos, cumprindo pena em regime aberto, vê-se citado e enredado, agora, porém, sem a perspectiva de viver para ver sua sentença final”.

Não ver sua sentença final? Então os advogados interpretaram como certa a condenação na estrada entre a vida e a morte. Nelson Rodrigues assim revive nas páginas dos jornais, ao lado de Shakespeare.

2 thoughts on “José Dirceu, este homem fatal de Nelson Rodrigues

  1. Sr. Pedro do Coutto, apenas ligeiro reparo, com o merecido respeito. O perigoso meliante “zédirceu”, por seus caríssimos advogados, impetrou HC perante o TRF-4ª Região, com sede em Porto Alegre e jurisdição nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Caratina e Paraná. Atenciosamente.

  2. Nelson Rodrigues e Shakespeare revivem nesse drama grego, mas, Miguel de Cervantes também na clássica sentença: Alta madrugada, os cavaleiros de Granada levantam suas lanças e espadas, para quê? para nada! De que adiantou empalmar o poder e se servir dele, ao invés de melhorar a vida do povo? Nesse particular, se igualaram a todos os outros governos, aos quais criticavam sem parar, na época em que achavam os únicos a terem o monopólio da ética, da moral e dos bons costumes. Estávamos enganados, fomos enganados e hoje estamos aí vivos para constatar a grande farsa. Mais uma lição de vida com toda a sua carga melodramática. Perdemos todos nós, só não podemos perder a esperança no futuro do Brasil, pois afinal tudo passa nessa vida.

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