José Sarney: “A política tem porta de ENTRADA, mas não de SAÍDA. É o que ele diz, depois de mais de 40 anos em que assumiu no Maranhão para acabar com a dinastia Vitorino. E implantar a sua.

Helio Fernandes 

Deu entrevista à Organização Globo. Jornalisticamente, a idéia é ótima. Mostrar como vivem os quatro últimos presidentes. Mas não esclareceram nada, deixaram de mostrar as incongruências, que palavra, dos quatro. Não depois que deixaram a Presidência. Mas como chegaram a essa Presidência.

Dois erros gravíssimos: Conquistaram (?) a Presidência pelo voto, pela preferência popular, pela aclamação do povo, pela escolha popular? E segundo: tentaram esclarecer como vivem fora do poder, digamos de forma sentimental, se o isolamento influencia no dia a dia. Mas e os recursos financeiros, em alguns casos, vieram de onde?

E como os quatro foram escolhidos (e muito bem escolhidos) por serem os que vieram depois da ditadura, a pergunta que não fizeram: qual foi o seu comportamento nos 21 anos da ditadura?

Como o primeiro foi José Sarney, vamos ver o que não precisou responder porque não perguntaram. Servilmente subordinado à ditadura, começou a carreira política, eleitoral e financeira, com o patrocínio dos generais.

Em 1965, quando os golpistas (auto-intitulados de revolucionários) cuidavam de tudo, destruindo os que resistiam e promovendo os que se submetiam, Sarney foi feito governador do Maranhão. A eleição ainda era chamada de direta, mas o Poder dos generais era incontrastável e incontrolável.

Como em três estados o mandato dos governadores era de 5 anos, ficou até 1970, se desincompatibilizou, foi eleito senador. Não parou mais até agora, quando está completando 80 anos. Subiu toda a escala política, mas sempre se preocupando com a geografia de suas contas bancárias.

Segundo suplente de deputado em 1954. Pobríssimo, assumiu em 1956 já sem muitos problemas, Logo, logo sócio de Abreu Sodré, que recompensou com o cargo de “governador” de São Paulo, virou mais do que rico, e sim riquíssimo.

Pouco depois da mudança da capital, ainda no limiar (lá e aqui), tinha quatro mansões. Rio, Brasília, São Paulo, Maranhão. No seu estado, então, era um exagero de luxo e prazer. Tinha mansões, ilhas e fortunas. E a exuberância do Poder.

Quando a ditadura se encaminhava para o fim, Sarney, que tinha notável intuição, dominava o PDS (o partido do Poder, além da Arena), ficou atento ao futuro e à sucessão, que sabia que seria indireta.

Tinha a certeza de que não poderia ser candidato a presidente e sim a vice, “continuaria no jogo”. Tentou ser vice de Maluf, pediu a um amigo, grande jornalista, que fosse conversar com o paulista. Maluf reagiu violentamente: “De maneira alguma, não quero perder”. O jornalista (infelizmente já morreu) veio com a negativa.

Como o candidato da oposição era Tancredo, certo, fundou o PFL (Partido da Frente Liberal), conseguiu a vice com Tancredo. A história, a partir daí, conhecidíssima. Sua carreira sempre ascendente. Mas sua fortuna cresceu muito, mas muito mais do que a carreira política.

Está com 5 (cinco) mandatos no Senado, o último termina em 2014, com a Copa do Mundo, “presidida” pela patrão do filho, Ricardo Teixeira. No meio da campanha de Dilma, admitiu, não tão abertamente, ser vice-presidente. Nem cogitaram , não por causa da idade dele, mas por lembrarem da referência: Tancredo foi para o hospital e não saiu. Motivo: Sarney era o vice.

Não podendo mais ser candidato pelo Maranhão, foi para o Amapá. Comprou ações do estado, dos majoritários Eliezer e Eike Batista, que haviam DOADO todo o manganês de lá, a preços inacreditáveis. Não cumpre a Lei do Domicílio Eleitoral. Quem esperava que fosse MORAR 8 ANOS naquela “lonjura”?

Faz até frase, que a política não tem porta de saída. Para ele e para muitos outros, não tem mesmo. Aí a culpa é da legislação e não dele. Nos EUA a vida pública se resume a 8 anos. Depois disso, mais nada. Sarney já faz política, perdão, politicalha, há 56 anos.

***

PS – Quando Tancredo foi eleito, dei um jantar para ele. E quem era quem, estava lá. Não pude deixar de convidar o vice-presidente, da mesma forma que Leonel Brizola, governador, tinha que estar presente.

PS2 – Está completando 25 anos. Ninguém falava com Sarney. Em determinado momento, Brizola me disse, praticamente perguntando: “O que esse Sarney faz aqui?” Esse era o Brizola, estava furioso.

PS3 – Assim que chegou, Tancredo me disse; “Helio, primeiro quero conversar um pouco, sem compromisso, depois me arranja um lugar para a política”.

PS4 – Quando levei o primeiro, (era o governador do Ceará, Gonzaga da Motta, estava com avião fretado), Tancredo disse que ele tinha urgência.

PS5 – Aproveitei e disse ao presidente: “O governador Brizola está uma fera, que falar com o senhor”. E Tancredo: “Eu te falo”.

PS6 – Nna entrevista, Sarney risonho e feliz, como disse o humorista, “nenhuma ruga na face da madame”. Ninguém fez carreira mais rica do que a sua. E ainda não acabou. Em raros momentos passageiros, é atingido pela depressão dos 80 anos. Mas lembra de 2014, pelo menos mais um mandato de senador, a felicidade não se compra, como no filme famoso.

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