José Serra também se esquece do que falou

Sandra Starling
O Tempo

Candidatíssimo à Presidência da República em 2018, a meu ver, na semana que passou, o senador José Serra deu mais um passo na construção desse almejado fim de vida pública. Vou mencionar momentos recentes e ímpares na trajetória do ilustre parlamentar.

Num primeiro momento, S. Exa. assomou à tribuna da Casa Alta da República brasileira e proferiu um discurso, acompanhado com reverência por todos os seus pares. Reinava aquele silêncio que me é ainda, na lembrança, ensurdecedor: quando alguém de peso sobe à tribuna para proferir uma longa arenga. Trata-se, na linguagem congressual, do momento do Grande Expediente. São muitos minutos, usados criteriosamente para um pronunciamento de grande alcance. Todos acompanham a análise sobre a situação atual do Brasil. Todos se entreolham. “… O momento entre tudo e nada, ou seja, a tristeza de Deus”, murmuro, lembrando-me de lindo poema de Carlos Drummond de Andrade…

Dias depois, em meio a uma discussão empolgada sobre a permanência ou o fim das coligações proporcionais no processo eleitoral, quando, espantosamente, PT e PSDB punham-se aparentemente em acordo, insurge-se o senador Serra, propondo a substituição das coligações pela “federação de partidos”, velha fórmula sempre agitada pelo PCdoB, temeroso de não conseguir eleger ninguém se não for abrigado em uma grande coligação proporcional. Para quem não conhece, a “federação” teria permanência maior do que apenas o período eleitoral e garantiria, assim, a sobrevivência dos pequenos partidos, ou dos partidos ideológicos.

José Serra cortejando o PCdoB! Óbvio, para alguém que tem pretensão de ser presidente da República.

PEC DA BENGALA

Na semana que passou, tão logo a Câmara aprovou a PEC da Bengala (aposentadoria compulsória nos tribunais aos 75 anos de idade), apressa-se José Serra a apresentar sua proposta de extensão do mesmo limite para todo o funcionalismo público. Oportuna e oportunista a iniciativa. Oportuna porque vem à tona quando fervem as especulações de que isso teria sido feito para retirar de Dilma o direito de indicar mais cinco membros do Supremo. Ti-ti-ti atrás de ti-ti-ti, e isso dá visibilidade na imprensa – e de visibilidade na imprensa vivem os que querem fazer carreira profissional na política. Ponto para Serra.

Oportunista porque gera grandes expectativas em pelo menos um grande número de pessoas que exercem enorme influência: os professores universitários da rede pública. Bingo.

O que me causou espécie ao ler a proposta e a justificativa foi me lembrar de que José Serra, como deputado, recitava uma mantra a todo momento: o legislador tem que se preocupar com iniciativas perenes e nunca conjunturais. A proposta dele agora não traz nenhum sinal de cuidado com as consequências de sua aprovação. Tudo de afogadilho.

Serra também se esquece do que falou.

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