Juíza Ana Paula Vieira de Carvalho ilumina o crime do Riocentro

Pedro do Coutto

Como uma personagem de Alexandre Dumas pai, autor do célebre romance “Vinte Anos Depois”, a juiza Ana Paula Vieira de Carvalho, mais de três décadas após a tentativa do crime hediondo do Riocentro, ilumina o passado inspirada na consciência humana, e aceita a denúncia formulada pelo Ministério Público Federal contra um grupo de militares e civis que, não fosse o destino, teriam causado centenas de mortes na noite de 30 de abril de 81, e número maior ainda de feridos e mutilados. Havia um show em comemoração a primeiro de maio no Riocentro, com a participação de vários artistas de renome, a começar por Chico Buarque.

Estávamos no governo João Figueiredo, que encerrava o ciclo da ditadura aberta em 64 com a deposição do presidente João Goulart, e se dispunha a realizar uma transição para a democracia, como de fato aconteceu em 85. Grupos radicais das Forças Armadas se opunham. Com isso, nas sombras, formavam na oposição ao presidente da República. Planejaram lançar bombas no Riocentro e atribuir a setores radicais, mas da esquerda, não da direita. Partiram para o projeto.

O então capitão do Exército – hoje coronel da reserva  – Wilson Machado e o sargento Guilherme do Rosário teriam executado a trama sinistra, não fosse a mão do destino. Uma das bombas que transportavam explodiu, por acaso, no colo do sargento, matando-o. Wilson Machado ficou seriamente ferido. Esta a verdade do atentado, levantado recentemente em detalhes pela Comissão Nacional da Verdade. A Comissão tentou ouvir o coronel Wilson, mas ele se recusa a depor. Basta este aspecto para acentuar a sua confissão tácita. Há outros acusados pelo MPF, acusações aceitas num gesto histórico pela juiza Ana Paula Vieira de Carvalho. Sua decisão, inclusive, foi magistralmente destacada pelos repórteres Chico Otávio, O Globo, e Bernardo Melo Franco, Folha de São Paulo, edições de 16 de maio.

NEWTON CRUZ

O general Newton Cruz figura entre os acusados de tomar conhecimento prévio da preparação do atentado e não denunciá-lo publicamente. Era o chefe do SNI do governo João Figueiredo. O major Devany Monteiro Barros tem contra si a acusação, não a de praticar o ato Hediondo, mas a do que se chama “limpar a cena do atentado”. Este ângulo da  questão merece uma atenção especial. O jornalismo da Rede Globo, então chefiado por Armando Nogueira, exibiu no jornal das 13 horas de primeiro de maio uma sequência filmada mostrando a existência de outra bomba no chão, ao lado do automóvel dirigido por Wilson Machado, portanto além da que explodiu ferindo-o gravemente e matando o sargento Rosário.

A imagem contrariava a versão do I Exército de que Machado e Rosário estavam realizando uma investigação e haviam encontrado uma bomba prestes a explodir. O que aconteceu? No Jornal Nacional, que começava as 20horas,essa segunda bomba foi retirada do material exibido. Ordens superiores explicou Armando Nogueira, quando deixou a Globo e foi entrevistado pela Isto É. Aquela segunda bomba intacta, parece até que havia uma terceira, seria a prova inicial, porém definitiva, para incriminar o capitão, o sargento, os mandantes, os planejadores do atentado que causaria tanto a explosão quanto a escuridão e o pânico no Riocentro. Mas os fatos ressurgiram com a Comissão da verdade, com o Ministério Público Federal, com a juiza Ana Paula que, ao revelar a face dos criminosos, iluminou o passado distante, mas não esquecido.

 

4 thoughts on “Juíza Ana Paula Vieira de Carvalho ilumina o crime do Riocentro

  1. Pedro

    Primeiramente é tão óbvio buscar a verdade, mesmo que decorrido 30 anos que nem quero abordar sua importância.
    Apenas, desde a notícia original até hoje, quando se retoma o assunto, uma questão me deixa muito desconfiado e eu pelo menos, nunca vi uma abordagem sobre ela.

    As bombas não eram destinadas a matar/ferir muita gente no espetáculo?

    Como então uma bomba, que explodiu num recinto fechado(o puma) matou apenas o sargento e não matou o seu parceiro?

    Dizem que haviam outras bombas (no carro ou próximas) como não explodiram pelo deslocamento causado pela primeira, como parece ocorrer nos acidentes ou atentados?

    Qual o efeito real destas bombas?

    se não tinham este poder destruidor(graças a Deus!!) a que se destinavam?

    Como militares especialistas podem ter feito tamanha trapalhada?

    Não existiria “fogo amigo” e o objetivo seria mais o de apavorar pela possibilidade do que pela efetividade?

    Em resumo, era mesmo para explodir no show ou no carro??

    Pode parecer insignificante, mas sempre me intrigou

    Um grande abraço e continue. Sua luta é nossa também.

    • não querida, a bomba explodiu à caminho do evento, enquanto ainda estavam transportando, ela tinha destino certo que era o evento, mas como explodiu antes matou apenas aqueles que tinham como função levar as bombas ao local publico, ou seja, os militares, já que explodiu dentro do veículo.

  2. O capitão terorista , apesar das provas escancaradas do crime cometido , ainda foi promovido a coronel. O terrorista ainda recusa-se a depopr. Deveria ser conduzido a ferros, e tirar-lhe a promoção de coronel. Da nojo uma situação dessas. Uma tremenda injustiça. O terrorista vive do dinheiro pública, debocha da lei, e tem gente que defende uma besta quadrada que poderia ter matado muita gente e conduzido o Brasil por caminhos muito piores do que estamos hoje. Genoíno e Dirceu nem direito ao trabalho têm. ISSO É UMA VERGONHA !

Deixe um comentário para Renato Lima Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *