Juros devoram renda familiar brasileira

Pedro do Coutto

Reportagem excelente de Clarice Spitz, Henrique Gomez Batista e Gabriela Valente, O Globo de 30 de maio, revelou que só nos primeiros quatro meses do ano os brasileiros pagaram 87,9 bilhões de reais de juros, correspondendo à parcela de sua renda salarial. Multiplicado pelo menos por 3, o resultado de janeiro a abril chegará à casa, em números aproximados, de 260 bilhões. Os juros cobrados pelos bancos e financeiras do país são, sem dúvida, os mais altos do mundo.

Para uma inflação anual em torno de 6%, de acordo com o Banco Central, a taxa cobrada sobre os saldos devedores dos cheques especiais e cartões de crédito subiram do ano passado para agora de 137% para 161, em média. Em bancos de primeira linha, basta conferir pelos extratos, os juros são de 9% mês, o que faz com que atinjam, considerado o cálculo dos montantes o absurdo de 194% ao ano. Mais de trinta vezes o índice inflacionário oficial.

Mas abandonando o himalaia financeiro e focalizando patamares mais baixos vamos verificar que os juros bancários aplicados ao crédito pessoal oscilam entre 4 a 5% ao mês. Como se vê estão perto do índice inflacionário para o ano todo. A propaganda, claro, incentiva o consumo, os prazos oferecidos completando uma espiral socialmente perigosa. Principalmente porque o giro em várias fontes de crédito não pode ser permanente. Não há como reinventar-se a roda.

NO LIMITE

A circulação do dinheiro popular, que depende do nível de emprego, tem que chegar ao limite. O limite da inadimplência ou dos atrasos nos pagamentos pode ser compensados, para os credores, pelo ingresso permanente no mercado de novos consumidores, volume que tem sua base no próprio crescimento da população. Mas não basta. O impasse que envolve o desenvolvimento social permanece movimentando outros personagens.

Fala-se na Selic, taxa básica de juros fixada pelo Comitê de Política Monetária. Foi agora mantida em 11% ao ano, portanto 5 pontos acima da inflação oficial. Mas esse processo não se reflete na sociedade. Em primeiro lugar porque os bancos são credores, e não devedores, das Notas do Tesouro Nacional emitidas para cobrir o deficit das contas internas. Por falar nisso, a dívida interna brasileira passa da escala de 2 trilhões de reais, aproximando-se do teto do orçamento da União. Em segundo lugar, porque os que aplicam em contas da poupança (6% a/a) não têm acesso ao mercado das Notas do Tesouro Nacional ou Títulos do Banco Central, aplicações restritas a instituições financeiras, aos fundos de pensão, sujeitas ainda a licenças prévias do Banco Central.

Com os juros do mundo da lua, assim, a renda no país continua a se concentrar. O bolo cresceu, as fatias nem um pouco, ao contrário do que um dia no passado previu o ex-ministro Delfim Neto.

 

7 thoughts on “Juros devoram renda familiar brasileira

  1. Os lucros de banqueiros no país, é desproporcional a renda do trabalhador, é inadmissível a cobrança de 10 ou 11% am quando se olha a pesquisa, o governo não tem força para acabar com esta farra, são bilhões de reais de lucro a banqueiros, este país é uma calamidade em economia e ainda querem que o brasileiro faça uma poupança, ganha mal, só alguns privilegiados ganham bem neste país.

  2. Sr. Pedro, agiotagem com a benção do governo, portanto oficial, o Cidadão é roubado nos impostos escorchantes, estamos próximo de chegar e 6 meses de salários de nossos minguados salários ao desgoverno, para serem roubados por mensalões e adjacências.
    O desgoverno é um verdadeiro sanguessuga, a chupar o sangue do trabalhador.
    Nossa divida, que a cada dia aumenta, li em algum lugar, que já chega próximo a 3 trilhões.
    FHC pegou a divida em 60 bilhões, entregou ao Lula em 600 bilhões, que entregou a Dilma em 1, 5 trilhão, Dilma entregará em mais de 2 trilhões, talvez a ela mesma.
    Empreste com 10%, a policia prende, a imprensa publica: Preso fulano por ser agiota, mas o banqueiros…não são agiotas; durma-se com um “barulho desse!!
    Este é o nosso País: vive na mentira governamental, e o Zé Mané, se contenta com pão e circo, e sobrevivendo no me engana que gosto.
    Dia 05/10/14, o Zé Mané, venderá seu voto obrigatório de alguma forma, na urna fraudável, reelegendo quem lhe chicoteia às costas; portanto não tem o Direito de Reclamar. Renovação total, é preciso!!!
    Conclusão: os 3 Poderes estão podres!!. Salve-se quem puder!?!!

  3. É verdade que os Juros Reais (descontada a Inflação) são altos no Brasil, tanto que os Bancos/Financeiras operam com Lucros Líquidos de +- 22%aa, as demais Empresas com Lucros Líquidos de +- 13%aa, e a Petrobras SA com Lucros Líquidos de +- 7%aa. O Lucro das Empresas não Bancárias/Financeiras caíram bastante nos últimos 4 anos, daí o Investimento estagnado.
    Os Juros devoram a Renda Familiar Brasileira e concentram Renda, mas a meu ver, menos do que dá a entender o como sempre, excelente artigo do grande Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO.
    Vejamos, de um PIB de +- R$ 5.000 Bi, temos uma Massa Salarial de +- 41%, o que dá R$ 2.050 Bi/Ano. Para uma Carga de Juros de +- R$ 260 Bi/Ano, temos de Juros sobre a Massa Salarial, +- 12,7%. = +- 13%.
    É lógico que essa Carga de Juros recai bem menos nos que ganham altos salários, digamos 5%, do que dos que ganham o Salário Médio Brasileiro ( R$ 2.000/mês em final de 2013) +- 20%, e que deve chegar a +- 30% dos que ganham o Salário Mínimo atual de R$ 724.
    A mim me parece, que o que mais concentra Renda no Brasil, é o pouco aumento de Salário Real, que nos últimos 30 anos subiu muito pouco em relação a Produtividade. Devido a grande excesso de Mão de Obra, principalmente a não especializada, as Empresas não precisaram subir muito o Salário Real, para atrair Empregados.
    Peço vênia para discordar um pouco da sua interpretação da famosa declaração do Ministro Prof. DELFIM NETTO sobre o “crescimento do bolo e sua distribuição”, porque apesar dos Juros Altos e da concentração da Renda, o bolo está crescendo e o Povo está, embora com Dívida, consumindo +- 4 Milhões de Automóveis/Ano, e +- 1,5 Milhões da Casas/Apartamentos/Ano. Temos muito ainda que trilhar para uma melhor Justiça Social, mas me parece que “as fatias do bolo”, embora deixando ainda muito a desejar, também cresceram um pouco.

  4. Prezado Sr. Pedro, 9% capitalizados mensalmente darão juros anuais efetivos de 181,26%. Ou seja: [(1,09)^12]-1×100. Ainda assim é uma barbaridade!!!

    Segundo o Banco Central 60% de toda a população brasileira está endividada com o sistema financeiro nacional!

    O comprometimento do orçamento familiar chega a 45% ao ano! E se somarmos com os outros 41% de comprometimento com o pagamento da carga tributária (o brasileiro trabalha 151 dias para pagar impostos segundo o IBPT), teremos 86% de comprometimento da renda dessas famílias brasileiras!

    Não é à toa que, na divulgação do Produto Interno Brasileiro (PIB) o IBGE revelou que o consumo das famílias – componente do PIB – encolheu – 0,1% no período. É claro, a população está ocupando maior volume de sua renda pagando dívidas do que efetivamente comprando.

    Os 86% de comprometimento que divulguei logo acima explica bem esta situação confirmada pelo IBGE.

    Ainda, na linha dos juros bancários, se olharmos as taxas cobradas pelos bancos divulgadas pelo Banco Central, encontraremos linhas de empréstimos, como nos cheques especiais, com juros de até 242,41% ao ano, cobrados pelo Banco Santander S/A., por exemplo.

    Quem quiser conferir veja aqui: http://www.bcb.gov.br/pt-br/sfn/infopban/txcred/txjuros/Paginas/RelTxJuros.aspx?tipoPessoa=1&modalidade=216&encargo=101

    Agora, a taxa de juros mais absurda de todas, cobrada pelos bancos, está na linha de crédito pessoal não consignados. Nesta linha de crédito os juros podem chegar a – acredite (!) – 988,13% ao ano!!!!!!!!!!

    São, praticamente, mil por cento (!) ao ano cobrados pelo banco Daycoval S/A.

    Se não acredita, veja por si mesmo aqui: http://www.bcb.gov.br/pt-br/sfn/infopban/txcred/txjuros/Paginas/RelTxJuros.aspx?tipoPessoa=1&modalidade=221&encargo=101

  5. Bortolotto, meu caro,
    Tu estás participando pouco neste espaço democrático!
    A tua presença é imprescindível para que o blog seja considerado incomparável.
    Reitero que as tuas análises econômicas nos ensinam sobre uma área onde a maioria a desconhece por completo, salvo gastar ou poupar dinheiro.
    Um forte a caloroso abraço.

  6. Prezado Sr. FRANCISCO BENDL, Saudações.
    Obrigado pelas amáveis palavras. Embora eu não seja um grande especialista, TODOS procuramos ajudar em formar um bom grupo de Debatedores em todos os Assuntos, e realmente o TRIBUNA DA INTERNET do grande Jornalista Sr. CARLOS NEWTON, tem sido assim, e a meu ver, cada vez melhor. Quanto a participação, é que temos que administrar o tempo.
    Aproveito lembrar que, todos os que possam, paguem via Bancos listados no Canto Superior Direito, uma pequena Mensalidade de R$ 20, para ajudar a manter esse bom Espaço da Imprensa onLine INDEPENDENTE.
    Um grande abração ao senhor.

  7. Os comentários, até agora pertinentes e sem paixões, mostram a validade do artigo do senhor Pedro do Coutto ,para o assunto, que merece, de fato, a atenção de todos que visitam o Blog.
    Digo eu: a meu ver, pela sua própria maneira de ser como dona de casa, a nação brasileira sempre exigiu de seus filhos um aprendizado de economia, nem que fosse tosco, mas o suficiente para se proteger das armadilhas da economia nacional. Isso, desde priscas eras. Estamos retrocedendo?…
    Meu comentário: fico com a análise do senhor Wagner Pires. Sucinta e verificável. Três linhas que traduzem uma realidade. Permita-me:

    “O comprometimento do orçamento familiar chega a 45% ao ano! E se somarmos com os outros 41% de comprometimento com o pagamento da carga tributária (o brasileiro trabalha 151 dias para pagar impostos segundo o IBPT), teremos 86% de comprometimento da renda dessas famílias brasileiras.”

    PS- Oportunamente lembrado pelo senhor Bortolotto, o “pingo” mensal para a Tribuna da Internet. Vamos colaborar, gente…

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