Juros rendem R$ 71 mil para bancos e apenas R$ 200 para clientes

Juliana Gontijo *

Com R$ 1.000 é possível comprar um carro de luxo no prazo de três anos. A informação não está errada. Este é o ganho das administradoras de cartão de crédito com apenas R$ 1.000, graças às altas taxas de juros praticadas por elas e que lesam o cliente. O consumidor que ficar devendo esse valor nesse período (36 meses) terá que pagar R$ 71.677,37. Se ele pegar o recurso (R$ 1.000) e aplicar na poupança não terá o mesmo resultado. Vai render apenas cerca de R$ 200.

Conforme a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis da Universidade Federal de Minas Gerais, os juros médios praticados na capital mineira são de 12,60% ao mês para quem optar pelo cartão, enquanto que a poupança paga 0,54% ao mês, o que daria R$ 5,40 de juros. “Em um ano, os juros do cartão chegam a 315%”, observa o diretor da fundação, o professor Wanderley Ramalho.

Os juros não são os mesmos no banco dependendo da situação do cliente. Se ele faz uma aplicação de R$ 1.000 num fundo de renda fixa, que pague uma taxa de 0,80% ao mês, ele receberá, segundo o presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel Ribeiro de Oliveira, R$ 8 mensais de juros. Agora, se ele tiver dívida do mesmo valor com o cheque especial terá que desembolsar R$ 75 de juros por mês, considerando uma taxa de 7,6%. Se a dívida é com o cartão de crédito, a situação é ainda pior, os gastos com juros chegam a R$ 106,90 por mês, considerando uma taxa de 10,69%.

Pelos cálculos dos especialistas, se percebe que embora a taxa básica de juros (Selic) do país esteja em 12% ao ano, na ponta do consumo, nos financiamentos, os índices são bem mais altos. No caso das financeiras independentes, conforme levantamento do Ipead, os juros chegam a 13,54% num único mês na capital mineira. A menor taxa é de 6,08% ao mês e a média de abril deste ano ficou em 9,67%. Na comparação com março, as taxas cobradas pelas financeiras tiveram incremento de 3,09%.

Com juros nas alturas é fácil entender os recordes consecutivos dos bancos. De acordo com estudo realizado pela Austin Rating, os quatro principais bancos brasileiros (Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander) completaram, após os balanços do primeiro trimestre de 2011, um ciclo de dez anos de expansão e recordes.

Em março deste ano, esses bancos superaram pela primeira vez a marca simbólica de R$ 10 bilhões de lucro, representando um incremento de 17% em relação ao primeiro trimestre de 2010.

Oliveira ressalta que os bancos têm várias fontes de receita, entre elas se destaca a intermediação financeira, o que ocasiona a cobrança de juros. E ainda há as tarifas pelos serviços. “Com taxas de juros altas para ter o crédito, é preciso pensar duas vezes antes de pedir um financiamento. O ideal é evitar ao máximo os financiamentos”, aconselha.

Dados do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) mostram que os bancos estão lucrando não só com os juros, mas também com as tarifas bancárias. De acordo com o levantamento, os pacotes de tarifas bancárias praticados no Brasil sofreram reajustes de até 124% nos últimos três anos. O Idec comparou valores de pacotes básicos e econômicos nos sete maiores bancos do país desde 2008, quando passou valer uma norma do Banco Central para regulamentar as cobranças.

 * Artigo publicado originalmente
pelo jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte.

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