Juscelino chora em Paris

Sebastio Nery

Exilado em Paris pela violncia gratuita do golpe de 64, Juscelino saiu uma tarde dirigindo seu carro e curtindo saudades do Brasil, numa conversa com seu velho amigo Olavo Drummond. Chegaram Place Vendmme, estacionou em um lugar proibido. O guarda logo aparece, alto e posudo, com seu bonezinho De Gaulle. Pediu a carteira de motorista, conferiu :

– Oh, senhor Kubitschek? Parente do grande presidente Kubitschek do Brasil?

– Sou eu.

– O senhor, o prprio presidente Kubitschek? Por favor, d-me a chave do carro. Eu mesmo vou estaciona-lo. Aqui, apesar de exilado, o senhor continua presidente, como sei que continua l.

JK entregou a chave, ps a mo no ombro de Olavo e chorou.

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ALKMIN

Jos Maria Alkmin, ministro da Fazenda, e Augusto Frederico Schmidt, assessor de inteligncia de Juscelino, foram jantar com o embaixador do Egito. A conversa corria sobre as influencias rabes no Brasil. Schmidt provocou :

– Nosso Alkmin, por exemplo, um rabe puro, a partir do nome. O que que significa mesmo Alkmin?

O embaixador sorriu, ficou sem jeito, respondeu:

– Al o artigo O. Kmin mentira. Alquime o ouro falso. Alquimia eram conhecimentos quimricos da Idade Media.

– O senhor est dizendo ento que eu sou o mentiroso?

Despediram-se s gargalhadas. Schmidt foi contar a JK.

– Alkmin j esteve aqui. Disse que Alkmin o valente.

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SANTIAGO

Santiago Dantas foi Polnia receber o titulo de doutor Honoris Causa da multisecular Universidade de Cracvia (terra de Joo Paulo II). Na hora da solenidade, deu-se conta de que esqueceu o texto do discurso de agradecimento que tinha preparado para ser lido, como manda a tradio.

Mas era preciso no ser indelicado. Chamou Marcilio Marques Moreira, diplomata e assessor, pediu algumas folhas em branco, levantou-se com elas nas mos, e, fitando-as com firmeza, pronunciou longo discurso em francs, como se estivesse lendo.

S Marcilio sabia.

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JOS BONIFACIO

Em maio de 76, na viagem do presidente Geisel a Londres, grupos de brasileiros que moravam l levaram faixas e manifestos para a frente da embaixada do Brasil, protestando contra a visita do ditador. Um jornalista encontrou, tranquilo e distante, o deputado Jos Bonifcio, lder da Arena:

– Deputado, o que o senhor est achando das faixas e manifestos?

– No estou achando nada, meu caro. No sei ingls.

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AUGUSTO DE LIMA

Em 40, Getulio nomeou o historiador e brilhante intelectual mineiro Augusto de Lima Junior, filho do poeta e da avenida do poeta, ministro plenipotencirio do Brasil durante as solenidades de mais um centenrio da independencia de Portugal.

Liminha chegou l de discurso no bolso, feliz com a histria e com a retrica. Mas no dia seguinte tambm chegou o ministro do Exterior Joo Neves da Fontoura, orador pomposo, acompanhado de ilustre comitiva, e comunicou que ia falar em nome do Brasil.

Lima Junior enlouqueceu. Pouco antes da solenidade, telefonou para o hotel e disse ao ministro que havia chegado do Brasil um telegrama do Presidente para ele. Joo Neves correu para l, trancou-se para ler o telegrama, no havia telegrama nenhum.

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JOO NEVES

Joo Neves comeou a reclamar da brincadeira, Liminha saiu, fechou a porta por fora. Os funcionrios j tinham sado, Joo Neves ficou ali sozinho, trancafiado na embaixada. Liminha foi solenidade, leu seu discurso, tranquilo e orgulhoso.

Mal acabou, chegou Joo Neves, suado, esbaforido, zangado, indignado, e pior ainda, mentindo. Pediu desculpas s autoridades portuguesas pelo equivoco quando ao horrio, que o fez atrasar-se. Queria matar Liminha. Voltou ao Rio, contou a Getulio, que riu:

– E voc no sabia que o Liminha maluco?

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