L vm os ciganos, viajando na poesia de Raul de Leni

Resultado de imagem para raul de leoniPaulo Peres
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O advogado e poeta Raul de Leni (1895-1926), nascido em Petrpolis (RJ), expressa em versos a vida e os costumes dos Ciganos. Detalhe: guzla um tipo de rabeca cigana, de uma corda s.

CIGANOS
Raul de Leni

L vm os saltimbancos, s dezenas
Levantando a poeira das estradas.
Vm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danas agitadas.

Vm num rancho faminto e libertino,
Almas estranhas, seres erradios,
Que tem na vida um nico destino,
O Destino das aves e dos rios.

Ir mundo a mundo o nico programa,
A disciplina nica do bando;
O cigano no cr, erra, no ama,
Se sofre, a sua dor chora cantando.

Nunca pararam desde que nasceram.
So da Espanha, da Prsia ou da Tartria?
Eles mesmos no sabem; esqueceram
A sua antiga ptria originria

Quando passam, aldeias, vilarinhos
Maldizem suas almas indefesas,
E a alegria que espalham nos caminhos
talvez um excesso de tristezas

Quando acampam de noite, no relento,
Que vo sonhar seu Sonho aventureiro;
Seu teto o vcuo azul do Firmamento,
Lar? o lar do cigano o mundo inteiro.

s vezes, em viglias ambulantes,
A noite em fora, entre canes dalmatas,
Vo seguindo ao luar, vo delirantes,
Alados no langor das serenatas.

Gemem guzlas e vibram castanholas,
E este rumor de errantes cavatinas
Lembra coisas das terras espanholas,
Nas saudades das terras levantinas.

E, ento, seus vultos tredos envolvidos
Em vestes rotas, srdidas, imundas.
Vo passando por ermos esquecidos,
Como um grupo de sombras vagabundas.
L vem os saltimbancos, s dezenas,
Levantando a poeira das estradas,
Vm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danas agitadas.

Povo sem F, sem Deus e sem Bandeira!
Todos o temem como horrvel gente,
Mas ele na existncia aventureira,
Ri-se do medo alheio, indiferente.

E, livres como o Vento e a Luz volante,
Sob a aparncia de Infelicidade,
Realizam, na sua vida errante,
O poema da eterna Liberdade.

2 thoughts on “L vm os ciganos, viajando na poesia de Raul de Leni

  1. Raul Leoni expresso os costumes ciganos que realizam a “eterna liberdade”, em sua vida de errantes.
    Gosto tambm do poema Argila

    Nascemos um para o outro, dessa argila
    De que so feitas as criaturas raras;
    Tens legendas pags nas carnes claras
    E eu tenho a alma dos faunos na pupila…

    s belezas hericas te comparas
    E em mim a luz olmpica cintila,
    Gritam em ns todas as nobres taras
    Daquela Grcia esplndida e tranquila…

    tanta a glria que nos encaminha
    Em nosso amor de seleo, profundo,
    Que (ouo ao longe o orculo de Elusis)

    Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
    O nosso amor conceberia um mundo
    E do teu ventre nasceriam deuses…

    Lindo demais” e do teu ventre nasceriam deuses”

  2. “E a alegria que espalham nos caminhos
    talvez um excesso de tristezas”

    Sempre ouvi falar mal dos ciganos. E j disseram at que JK era um deles.
    Entrevistei uma famlia de ciganos, j no me lembro a razo da entrevista, claro, mas foram gentis, foram timos. E interessantes.

    Antigamente se dizia que roubavam crianas.
    Acho at que dona Mironzina, a dona do cinema perto da minha casa, era cigana. Cabelos muito pretos, lisos e muitas jias.

    No leram a minha mo.

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