Labirinto ou máquina de moer carne?

Carlos Chagas

Graças ao “furo” do colunista político do Globo, Ilmar Franco, começam a ser especulados os primeiros dos sete nomes para integrar a Comissão da Verdade: d. Evaristo Arns, Nilmário Miranda, José Gregori, Paulo Sérgio Pinheiro. Nada oficial, mas tudo próximo das possibilidades, já que os quatro referidos dispõem de todas as qualidades para o desempenho da função. Para começar, honestidade e capacidade. Mas isenção, também, ainda que diante de seus nomes tenham começado as caretas nos círculos militares infensos à investigação referente aos desmandos dos tempos da ditadura.

O cardeal foi responsável pela primeira denúncia personalizada de torturados e torturadores, no livro “Brasil: Nunca Mais”.  Os outros três ocuparam a Secretaria dos Direitos Humanos, nos governos Fernando Henrique e Lula. São cidadãos acima de qualquer suspeita, menos, é claro, por parte daqueles que praticaram crimes de tortura e coisas piores.

O problema para a Comissão da Verdade, quando começar a trabalhar, envolverá inevitáveis desdobramentos capazes de ultrapassar a pessoa dos torturadores. Porque se não tomarem a iniciativa, os depoentes serão indagados sobre os motivos dos abomináveis atos dos quais estarão sendo acusados.

Ousarão denunciar chefes que sabiam ou até estimulavam e autorizavam a tortura? Pior ainda: culparão a doutrina da segurança nacional, urdida naqueles idos, que eram obrigados a seguir? Alegarão a necessidade da luta contra o “inimigo interno” e a existência da “guerra revolucionária”, da “guerra psicológica adversa” e de outras criações geradas pela Guerra Fria?

Mesmo sem poder justificar suas execráveis ações, hesitarão em alegar a existência de muitas verdades dentro da verdade, ou seja, a ação armada, assaltos, sequestros e assassinatos também praticados por partidos, grupos e associações como o PC do B, PCBR, AP, Polop, ALN, MR-8, VPR, Colina, VAR-Palmares, Libelu, Molipo e dezenas de outros? Seria o caso de ouvir seus responsáveis ainda vivos, e são muitos, alguns hoje até importantes, para saber em que delitos se envolveram, ou tipo de modelo pretendiam imprimir ao país, caso chegassem ao poder?

Mais do que num labirinto, a Comissão da Verdade corre o risco de enveredar por um funil que terminará numa máquina de moer carne.

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QUEM SEGURA O CONTA-GOTAS?

Tortura também está sendo a divulgação, em conta-gotas, do pérfido conluio entre o Carlinhos Cachoeira, sua quadrilha, os políticos, os governantes e os empresários a seu serviço. Porque a cada dia novas denúncias fluem aparentemente do relatório da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal. Ora num jornal, ora num telejornal, somos surpreendidos com sórdidos detalhes da corrupção que assola o país.

Começam esta semana os trabalhos da CPI mista designada para apurar a lambança, prevendo-se a divulgação de mais episódios e o envolvimento de mais pessoas. Tomando-se como certo que Carlinhos Cachoeira é apenas um, de muitos bandidos que agem como ele em todo o território nacional, a conclusão só pode ser uma: ou se aproveita agora a oportunidade para a faxina das faxinas ou chame-se de novo Pedro Álvares Cabral para começarmos outra vez…

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