Lançado em 1986, “It: a Coisa” mantém-se atual e exibe o talento de Stephen King

It: a coisa | Amazon.com.brJúlia de Aquino
Instagram literário @juentreestantes

“Havia um palhaço no bueiro. A luz ali não era nada boa, mas era boa o bastante para George Denbrough ter certeza do que estava vendo”

É difícil começar a falar sobre esse título “It: a Coisa”. Porque não é um livro qualquer. É uma obra de arte, um clássico que há mais de 30 anos acompanha a trajetória literária de diversos leitores e fãs de terror. Foi meu favorito de 2020 até agora (dentre os 34 livros que li esse ano).

E como é difícil falar de obras de arte de forma “simples”, vou dividir o post sobre “It: a Coisa” em duas partes – hoje trago a resenha com comentários e impressões (nesse post). Na semana que vem farei uma publicação apenas com trechos marcantes que me chamaram atenção durante a leitura e que podem inspirar muitos a lerem o livro.

A HISTÓRIA – Durante as férias de 1958, em Derry, sete amigos se aproximam e, juntos, conhecem a sensação do medo e do perigo. Nesse verão, eles entram no jogo da “Coisa”, um ser maligno e sobrenatural que marcou a cidade de Derry de formas terríveis.

Trinta anos depois, eles voltam a se encontrar quando uma nova onda de terror assola a pequena cidade. Afinal, somente eles, juntos, são capazes de enfrentar a “Coisa”.

DESTAQUES – A construção dos cenários, personagens e relacionamentos é perfeita, assim como a narrativa dos acontecimentos. Porém, a obra contém alguns gatilhos: estupro, violência física e psicológica, suicídio e violência contra animais. Trata-se de um terror com forte apelo psicológico: os leitores entram na mente de todos os personagens e analisam cada atitude, boa ou má. Os vilões e os personagens mais desestruturados e obsessivos assustam e ficam marcados em nossa mente ao longo dos capítulos.

Além da raiva, tristeza e expectativa em certos momentos, outras emoções tomam conta de quem lê a história dos sete amigos, e isso é mais um ponto que reflete a perfeição da narrativa.

É genial como King personifica o medo de cada um dos garotos no personagem do Pennywise, o Palhaço Dançarino (a forma “física” da Coisa). Se suas aparições “físicas/reais” já surpreendem, seu lado sobrenatural se supera a cada capítulo, pois reflete os maiores temores e traumas dos personagens (muitos deles inconscientes, o que é ainda pior, por não terem nenhum controle racional sobre aquilo).

TEMPO DE LEITURA – Um dos aspectos mais relativos desse livro. Já conversei com pessoas que leram em uma semana, dois meses e até dois dias (acreditem se quiser).

É uma leitura longa, mas extremamente rica. Eu o li em três meses, na primeira Leitura Coletiva que participei dede que criei o perfil Ju Entre Estantes, organizada por outros perfis literários. Foi uma experiência muito bacana, com metas definidas para cada período, e ao final de cada “marca” comentávamos os aspectos mais significativos.

Apesar de seu tamanho, não vejo necessidade de esperar para ler em grupo – é uma ótima experiência, mas não um diferencial para apreciar a história. O segredo é ler no seu ritmo. Mas uma coisa já adianto: a trama nos prende até a última página.

STEPHEN KING – Não é à toa que o autor é considerado o “rei do terror” (jogo de palavras com seu sobrenome, que significa “rei” em inglês). Com mais de 400 milhões de cópias vendidas em mais de 40 países, King estudou Inglês na Universidade do Maine, cidade que é cenário em muitas de suas histórias. Em toda sua trajetória, publicou mais de 50 livros e escreveu mais de 200 contos (publicados em algumas edições do estilo).

Desde sua infância, enfrentou muitos desafios em sua vida pessoal. Em meados da década de 1970, quando iniciava sua carreira de escritor com a obra “Carrie” (publicada em 1974), envolveu-se com drogas e álcool e graças ao apoio de sua família conseguiu largar os vícios e permanece sóbrio desde 1980.

Em 1999 sofreu um grave acidente, mas recuperou-se e continuou a escrever.

A bibliografia completa de suas obras pode ser vista aqui. https://pt.wikipedia.org/wiki/Bibliografia_de_Stephen_King

Livro: It: a Coisa
Autor: Stephen King
Editora: Suma
Páginas: 1.103

14 thoughts on “Lançado em 1986, “It: a Coisa” mantém-se atual e exibe o talento de Stephen King

  1. Precisarei ficar ausente da TI por alguns dias.
    Não sei por quanto tempo.
    Baixarei hospital no domingo porque o coração quer entrar em greve!

    Deixo um texto, de minha autoria, que escrevi tempos atrás – uma década é certo.
    Espero que apreciem.

    Abraços.
    Cuidem-se.

    OFICINA DO PENSAMENTO

    A pequena peça onde está instalado o computador e alguns livros, eu a denominei de Oficina do Pensamento.
    Entendo que meus pensamentos precisam ser consertados diariamente porque recebo informações novas, muitas pessoas pensam diferente de mim, algumas ideias são modificadas, pontos de vista são alterados, confrontações são feitas, conclusões são obtidas.

    Assim como se leva um carro à oficina para reparos e revisões, a nossa mente precisa ser verificada sistematicamente, sob pena de apresentar defeitos graves no decorrer do tempo.

    Por exemplo:
    As ideias são atabalhoadas, surgem em altas velocidades e são instáveis, necessitando de amortecedores que as estabilizem;

    alguns pensamentos se chocam com outros e diagnostico falta de freios;

    quando não entendem o que eu quero realmente dizer, percebo que não sinalizei devidamente meus argumentos e os acidentes são inevitáveis;

    na defesa de minhas interpretações a respeito de temas mais polêmicos quando coloco a faca entre os dentes, constato que a correia dentada precisa ser substituída ou o motor sofrerá uma pane grave;

    muitas vezes eu me encontro no escuro, sem saber para onde vou, e noto a necessidade de instalar faróis mais potentes que me possibilitem enxergar melhor;

    a sede pelo saber, conhecer, descobrir é tanta, que o radiador é insuficiente para atender a demanda do arrefecimento, precisando ser trocado por um maior, pois o motor está sempre fervendo;

    às vezes não me sinto confortável em discutir alguns assuntos ou porque são muito longos e requerem conhecimento de causa ou porque são enfadonhos ou porque não me interessam, mas como não podemos escolher a estrada e nem sempre ela tem uma pavimentação boa, devo procurar um estofador e melhorar o conforto dos assentos do veículo que transporta a minha imaginação;

    muitas vezes tanto ideias quando os pensamentos derrapam diante da falta de consistência, momento determinante para que os pneus sejam trocados ou não terei dirigibilidade em dias de chuva, e o meu velho automóvel terá a sua trajetória alterada mesmo em pista seca quando eu precisar freá-lo.

    Enfim, esta oficina do pensamento carece também de um ferramental mais moderno, de um torno para eu ajustar algumas peças e retificar o conjunto de ideias e pensamentos que compõem a complexidade do funcionamento de um veículo, que também sofre a influência de outras concepções que devem ser obedecidas em formas de Leis, Estatutos, Regras, Códigos, Constituições, normalmente impedindo que se possa imprimir o ritmo que se gostaria sob pena de pesadas multas ou quando não se sofre também o cerceamento da liberdade ao se pensar e exprimir ideias que não estejam em sincronia com aquelas que movem alguns poderes, significando que se deve abrir a caixa de câmbio do carro e trocar seus sincronizados, pois as mudanças de marchas “arranham” e, assim, prejudicam o conjunto de engrenagens desta peça tão delicada.

    Nem sempre conseguimos mover o carro de forma suave:
    quando ele sai trepidando ou numa subida ao movimentá-lo esta trepidação é maior, a embreagem precisa ser substituída, exatamente como são nossos conhecimentos superficiais que são sacudidos quando nos defrontamos com a amplitude de fatores que verdadeiramente elaboram conceitos, concepções, filosofias e até mesmo invenções como a de um automóvel.

    Os veículos modernos possuem pequenos computadores, que fornecem as informações essenciais aos sistemas de injeção, freios, caixa, tração e estabilidade.
    Sujeitamo-nos a alterar nossos comportamentos – diferentemente de um carro que é corrigido pelas informações emitidas por uma central –, diante de grandes quantidades de imagens e sons e notícias recebidas.

    Não temos em nossos organismos um cérebro que possa se comparar a um microcomputador e assimile o que é útil, proveitoso, adequado e necessário, mas uma caixa de ressonância, que muito bem pode expelir o correto e guardar o que não presta, pois fazemos parte de uma frota de carros e, se não andarmos em conjunto, um atrás do outro, perdemos muitas vezes a companhia do automóvel que, junto com o nosso, possibilita que não andemos sozinhos, que não estacionemos isolados, que não fiquemos sem ajuda quando se precisa.

    Claro, devemos pagar pedágio, e muitas vezes o preço é alto demais para se usufruir da companhia que queremos ou para que pintemos o nosso veículo com as cores berrantes do momento ou neles instalemos poderosos aparelhos que emitam em alto volume nossas músicas de gosto nem sempre apurado, uma espécie de motor com folga nos casquilhos da biela, e que faz um ruído nada agradável.

    O grande segredo está em ajustar este carro e fazê-lo trafegar bem em quaisquer circunstâncias, da mesma forma que devemos concatenar as nossas ideias e pensamentos para sincronizá-los com o nosso comportamento, com nossas atitudes, exatamente como o desempenho de um veículo.

    Mas, tenho uma oficina que é um simples quarto no fundo da minha casa, sem as devidas instalações e macaco hidráulico.
    Ela carece de ferramentas atualizadas e aparelhos eletrônicos, que fazem ajustes nos motores.
    Conheço carros com carburador, platinado, lonas de freios, caixa seca, estribos laterais;

    meus pensamentos e ideias, conhecimentos e informações não registram que existem automóveis com tamanho avanço tecnológico, automatismos, seguranças ativa e passiva, airbags, sidebags, freios ABS, controle de tração, controle de derrapagens, centralinas, barras estabilizadoras, amortecedores a gás, direções elétricas, que podem usar vários combustíveis ao mesmo tempo.

    Penso de acordo com o que me foi alcançado no passado:
    meus conhecimentos são empíricos;

    minha adaptação mental foi forjada através das dificuldades;

    meu intelecto apenas indica o que é útil e inútil;
    minha cultura apenas responde perguntas que os jornais publicam ou o que dizem os manuais de instruções;

    ideias e pensamentos são mecânicos e desconhecem sistemas tiptronic e eletrônicos;

    minha velocidade de raciocínio é limitada, aumentando somente em descidas e em ponto morto, aumentando igualmente os riscos de acidente, no caso eu não saber o que se está dizendo, pois as ideias são mais rápidas que as palavras, e confundir-se numa hora dessas é algo inevitável, assim como erramos um endereço e temos de manobrar em busca do caminho certo.

    A mente é povoada por velhos demônios, da mesma forma que os defeitos de fabricação, mas, por ter passado o tempo, o direito ao recall prescreveu, e se deve conviver com esses fantasmas antigos e teimosos.

    Desta forma, a intolerância convive com ideias e pensamentos naturalmente, como um carro que se sabe de suas limitações e, mesmo assim, chutamos os pneus, batemos no painel, fechamos as portas com violência, passamos a negligenciá-lo.

    Sou um caminhão velho, antigo, que ainda suporta conduzir o seu peso, que é lento e pesado nas estradas da vida, e muitas vezes atrapalha o fluxo de veículos mais leves e rápidos, mais modernos, mais completos, mais seguros e conduzidos por motoristas que aprenderam o uso de tecnologias sofisticadas e a quantidade de eletrônica embarcada à disposição.
    Minhas concepções e interpretações são parecidos.

    Eu somente fico admirando vê-los passar enquanto seguro a palanca do câmbio de modo a não escapar a marcha, e vou bombeando o pedal do freio várias vezes para segurá-lo, simultaneamente ao braço para fora a sinalizar que vou entrar à esquerda ou à direita, conforme os caminhos se mostram, e rezando para uma divindade de plantão que impeça qualquer blasfêmia ou praga eu proferir, se o meu transporte enguiçar no meio da estrada, na exata medida que estou constatando interpretar a minha existência da forma como se ela fosse um propulsor, ou seria um mero motor estacionário?

    Na verdade estou viajando em velocidade maior que esta lata velha suporta, e minhas indagações, incompreensões, teimosias, devem-se à realidade que está determinando que a estrada que o caminhão está percorrendo vai em direção a um ferro-velho, o depósito de sucatas, de veículos velhos e acidentados e que não funcionam mais.

    Semelhante a nossa mente quando já não assimila a enorme complexidade de sentimentos, emoções, sensações que a vida possibilita através do ensino, aprendizagem, do trabalho, e se torna refratária às tentativas de atualização e modernização porque sua faixa etária dificulta esta compreensão e entendimento.

    Ninguém, de sã consciência, reforma um carro velho, carcomido pela ferrugem, motor que não suporta mais retífica, suspensão arriada, molas fracas, bancos rasgados, painel sem os mostradores, portas sem travas, rodas tortas e a parte elétrica em pane constantemente.

    Pois eu me encontro nesse estado:
    um caminhão caindo aos pedaços e se dirigindo para o ferro-velho.
    Ultrapassado, sem forças, alquebrado pelo tempo, um mero transportador do meu corpo pesado, feio e inútil, e que necessita descansar!

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