Lanzmann fala de Simone de Beauvoir como Miller falou de Marilyn Monroe: sem a menor ética

Pedro do Coutto

O Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, edição de 24, publicou com grande destaque entrevista da repórter Leneide Duarte Plon, correspondente em Paris, com o jornalista, escritor e cineasta Claude Lanzmann, que vai participar da FLIP em Julho, quando lançará, pela Cia. De Letras, sua última obra A Lebre da Patagônia, livro de memórias.

O autor do documentário Shoah, sobre o holocausto nazista, está hoje com 85 anos, e revela ter sido amante da escritora Simone de Beauvoir, casada com Jean Paul Sartre e também amante do escritor americano Robert Algreen, como ela própria e Sartre divulgaram. Passava seis meses com um, seis meses com outro. De Paris a Nova Iorque, de Nova Iorque a Paris. Não sei em que espaços de tempo entrava Lanzmann. Mas ele revela agora.

Numa atitude de péssimo gosto, de sentido duvidoso, talvez para promover o livro, relata – segundo a FSP publicou – ter sido amante da autora da bíblia da alma feminina, O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir, de 52 a 59. Inclusive acentua ter viajado a Patagônia em companhia do casal de intelectuais e que dividia a cama com a escritora, que um dia dormia com ele, outro com Sartre. Foi uma paixão intensa. Mas nunca praticamos sexo a três, faz questão de ressaltar. Sartre morreu em 80, com 75 anos. Simone de Beauvoir em 86, com 78. Não estão mais vivos para falar. Pois como dizia Antonio Houaiss, de todos os problemas não resolvidos do mundo, o menos resolvido através dos milênios é o sexo.

Claude Lanzmann parece querer chocar a opinião pública, joga nisso, já que, além da inconfidência, desfechou violento ataque, na entrevista, contra Oscar Niemeyer, chamando-o de criminoso por construir edifícios circulares. Também volta-se contra o Rio de Janeiro, onde, disse, foi assaltado quando aqui esteve pela primeira vez. A opinião a respeito do arquiteto é pessoal e o alvo está firme com seus 103 anos. Sartre e Beauvoir estão mortos. Ela, assim, não pode confirmar ou desmentir a paixão tórrida que o autor de A Lebre da Patagônia afirma ter havido entre os dois. Tampouco que o rompimento em 59 tivesse sido iniciativa dele que, apesar da ruptura, permaneceram amigos. Que fazer? Atitudes desse tipo acontecem na vida . Infelizmente, acho.

E quando leio a entrevista de Lanzmann, me lembro da peça de Arthur Miller. Depois da Queda ( o título em inglês é exatamente o mesmo), levada ao palco no Rio, Teatro Municipal, 1965, com interpretações soberbas de Paulo Autran e Maria Della Costa. Autran como Miller, Della Costa como Marilyn. Arthur Miller casou-se com a atriz, então no auge da carreira em 56, e o casamento foi notícia mundial. Miller escreveu o clássico A Morte do Caixeiro Viajante em 48, remontada ano passado na Broadway com amplo sucesso. A peça resiste ao tempo. Mas este é outro assunto.

O casamento foi marcado por turbulências e chegou ao fim no início de 58. Marilyn morreu em 62, aos 35 anos. Miller foi para a máquina de escrever e produziu Depois da Queda. Colocou frases assim, ditas por ela a ele: “Eu queria ser tão maravilhosa para ser digna de você”. Auto elogio. Narrou que Marilyn tinha horror a porta de armários porque na infância, sua mãe praticava sexo por dinheiro e os eventuais clientes para chegar à cama tinham que passar pelo quarto da menina Norma Jane, seu verdadeiro nome. Uma porta dupla de armário separava a infância da sombra dos movimentos e ruídos sexuais. No final, Marilyn dirigia-lhe fortes ofensas e ele suportava. Colocou-se na posição dupla de herói e vítima. Sob o ângulo da arte, a peça é ótima. Sob o ângulo da ética, o uso da intimidade com uma pessoa morta é lamentável. Lanzmann repete o exemplo.

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