Leão não faz ginástica

Carlos Chagas
Em  magnífico artigo publicado na “Folha de S.Paulo” a respeito dos cem anos de nascimento de Tancredo Neves, o historiador Ronaldo Costa Couto escreveu que ele “sabia ler as almas”. Nada mais perfeito. O ex-presidente da República não precisava sequer conversar com as pessoas para perceber quem eram, o que pretendiam e o que escondiam.

Ronaldo foi mais do que um auxiliar de Tancredo, funcionando como secretário do Planejamento durante o governo do chefe, em Minas. Era um amigo, dos poucos que se preocupavam com sua saúde. Certa feita, com muito jeito, sugeriu que Tancredo deveria dedicar-se ao menos a uma caminhada, pelas manhãs. Ouviu que bastava um banho de chuveiro frio, ao levantar, para enfrentar o dia inteiro com muita disposição. Mas não soube responder à pergunta que se seguiu: “você já viu leão fazer ginástica?”
Castanhas com as mãos do gato
Enquanto Sérgio Cabral estrila e bufa contra o projeto que retira do Rio boa parte de sua receita, proveniente dos royalties do petróleo, José Serra mantém-se em estranho silêncio, como se São Paulo não perdesse quantia vultosa, ainda que menor.
Essa atitude lembra aquela história do cidadão que tirava as castanhas do fogo com a mão do gato. Se der resultado a campanha do governador fluminense para que o Senado modifique os termos do texto aprovado pela Câmara, o governador paulista sairá com todos os dividendos e nenhum desgaste. Experiência política é assim mesmo.

Minas não gostou
O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo mandou retirar do ar as imagens e o áudio do presidente Lula e de Dilma Rousseff, no programa de propaganda partidária gratuita do PT, sob a alegação de tratar-se de campanha eleitoral antecipada. O problema é que já foi ao ar a referência do chefe à candidata, apresentada como  “uma mineira que tem a cara de São Paulo”.  Os mineiros não gostaram, do governador Aécio Neves ao mais humilde peão boiadeiro das Gerais. Afinal, se Dilma tem a cara de São Paulo, que vá buscar votos na paulicéia, não na terra onde nasceu por acaso.
Lambanças
Estarrece todo mundo a lambança dessa viagem do Lula ao Oriente Médio, onde não deveria ter sido. Senão agressões, vem recebendo farpas sucessivas das autoridades e da imprensa de Israel, menos por ter recusado comparecer ao túmulo de Theodoro  Hertz fundador do sionismo, mais por pregar o diálogo entre aquele país e o Irã. O ministro de Relações Exteriores dos anfitriões negou-se a comparecer à sessão do parlamento que recebeu  o visitante, além de haver faltado ao encontro do Lula com o primeiro-ministro e ao jantar em sua homenagem. O primeiro-ministro comparou Maradona a Pelé, e o presidente da República chamou o presidente brasileiro de o “novo César”. O presidente do  Legislativo israelense disse que ter relações com o Irã é dar legalidade a assassinos, e a líder da oposição acentuou ser sinal de  fraqueza não concordar com sanções aos  iranianos.
Essa confusão deve-se ao assessor presidencial Marco Aurélio Garcia, defensor da visita a Israel e Palestina, o mesmo responsável por ruídos em nossas relações com a Bolívia e o Equador, pelo diagnóstico do Lula de que os dissidentes cubanos são bandidos, pela ausência do presidente na posse do conservador novo presidente do Chile e pelo apoio do Brasil ao ex-presidente de Honduras, candidato frustrado a ditador daquele país. Não é pouco, em termos de trapalhadas.
This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *