Leia aqui o artigo ‘Tudo pela pátria’, que há seis anos denunciou o abandono da Base da Antártica

O comentarista Mario Assis nos envia um artigo mostrando que a tragédia na Estação Antártica Comandante Ferraz, que destruiu 70% da base, deixando dois militares mortos e um ferido, estava anunciada há pelo menos seis anos.

Em 2006, o oficial de reserva da Marinha Antonio Sepulveda alertou, em artigo, sobre o estado de severa degradação em que se encontrava a estação, com o sistema elétrico defeituoso e vários outros problemas. No texto, publicado pelo Jornal do Commercio, Sepulveda afirmou que a estação não recebia manutenção adequada e que seu orçamento começou a sofrer cortes desde o início da década de 1990. “Alguns sistemas vitais se encontram comprometidos: rede de esgoto, proteção contra incêndios e transferência de energia elétrica”, escreveu. De acordo com o militar, em 2006, três tanques de combustível desabaram por conta de bases apodrecidas, o que poderia ter causado derramamento de óleo.

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TUDO PELA PÁTRIA

Antonio Sepulveda (Oficial de Marinha)

Parcela consciente da opinião pública aguarda, apreensiva, o desenrolar da
melancólica situação do nosso Programa Antártico. O PROANTAR começa a fazer água, por conta do descaso e da irresponsabilidade da cúpula federal que parece ignorar que o primeiro passo para o delineamento de uma grande
estratégia está na aquisição de conhecimento sensível, única fonte verdadeira de poder em qualquer cenário geopolítico.

O Brasil aderiu ao Tratado da Antártida em 1975, assim firmando os
propósitos de ocupar aquele território com fins pacíficos e de cooperar com
a comunidade internacional para o desenvolvimento de pesquisas no extremo sul do planeta.

Uma das exigências para a participação de qualquer país como parte consultiva do tratado é a realização de substanciais atividades científicas. Para esse fim, o PROANTAR é elaborado e implementado pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, em consonância com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil.

A sustentação logística dos projetos decorrentes é, com o apoio precioso da Força Aérea, provida pela Marinha que, com a costumeira abnegação do seu eterno lema “Tudo pela Pátria*, vê-se obrigada a lançar mão das migalhas que recebe de um orçamento malversado pelos politiqueiros de Brasília.

Pois é; poderia até ser coisa de país sério, de governo preocupado com a
inserção do Brasil no cenário político-estratégico internacional no papel
de ator, em vez da triste figura de coadjuvante que vem desempenhando
através dos séculos. Infelizmente, a realidade atual do PROANTAR é outra.

O orçamento vem decaindo sensivelmente desde 1990. Sem recursos – para isso, o governo não tem verbas – o Ary Rangel carece de reparos estruturais
indispensáveis, em termos de salvaguarda da vida humana. E que fique este
alerta aqui registrado, dedo apontado para o Planalto, caso  (Deus não
permita) sejamos alcançados por uma tragédia no traiçoeiro Mar de Weddell
ou na própria Estação.

A Estação está degradada por falta de uma manutenção aceitável.
Recentemente, durante uma faina de reabastecimento de combustível, três
tanques desabaram de suas bases apodrecidas, o que poderia ter ocasionado
um acidente ecológico grave decorrente do derramamento de óleo. Alguns
sistemas vitais se encontram comprometidos: aguada, rede de esgoto,
proteção contra incêndios e transferência de energia elétrica. Os módulos
estão comidos pela ferrugem; equipamentos inoperantes ou funcionando
naquela velha e brasileira base do jeitinho; escadas perigosamente
corroídas; anteparas em péssimo estado de conservação; os forros caindo aos pedaços.

Os laboratórios precisam ser reformulados, porquanto não atendem às necessidades atuais. A cozinha tem a idade da Estação e precisa ser modernizada. O auditório e a sala de refeições não comportam mais todos os
integrantes da Estação no período de inverno. A frigorífica não tem
capacidade para receber todos os gêneros que o navio leva, ocasionando
perdas de alimentos. O incinerador tornou-se ineficaz. Os paióis não
atendem ao volume de sobressalentes e de alimentos. As infiltrações são
generalizadas.

Equipamentos de pesquisa, como motos de neve, botes, lancha
oceanográfica e quadriciclos não operam em condições seguras. Tratores e
escavadeiras estão avariados. Os riscos se agravam, porque as comunicações
em alta freqüência, que permitem monitorar os pesquisadores que trabalham mais afastados, não são confiáveis.

É preciso recuperar a Estação para o Ano Polar Internacional (2007/2008), o evento de maior relevância para a pesquisa mundial dos últimos 40 anos. O
Brasil, a persistir esta inércia, poderá até mesmo perder sua posição de
membro consultivo do Tratado da Antártida, privilégio de apenas 28 países,
os quais decidirão sobre o futuro daquele continente. Pelo jeito, vamos,
mais uma vez, perder o bonde da História.

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