Lembranças de Coimbra

Sebastião Nery

À beira do urbano e camoneano rio Mondego, sob as bênçãos da milenar Universidade de Dom Diniz, em Coimbra, a Quinta das Lagrimas se fez tema e inspiração da literatura mundial. Voltaire, Victor Hugo, Stendhal, Ezra Pound, tantos já a cantaram e sobre ela escreveram.

Desde a Idade Media, a partir de 1350, a Quinta das Lagrimas, que já foi da Universidade e de uma Ordem Religiosa e hoje é um belo hotel,  cercado de matas e jardins cheios de araucárias e palmeiras, plátanos e figueiras, sequoias e agapantos, é um oásis de paz na cidade das tensas cátedras, das rebeliões universitárias e dos abismos politicos de Portugal.

Por isso virou romance e poemas. Mas nenhum com a força e a genialidade de Luis de Camões, que, no Canto III dos Luziadas, celebrou o amor e o martírio de Inês de Castro, ibérica e tragica Julieta (“Estavas, linda Inês, posta em sossego”), que, “depois de morta foi Rainha” e cujo amor impossível está eternizado em pedra e água na Fonte das Lágrimas :

– “As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram
E por memoria eterna em fonte pura
As lagrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram que ainda dura
Dos amores de Inês que ali passaram.
Vêde que fresca fonte rega as flores,
Que as lágrimas são água e o nome amores”.
***

Mais fantástica que a poesia de Camões foi o milagre de sua vida. Soldado, doca e náufrago, com os Luziadas fundou uma Nação.

Como todos os cantos e poemas das eternas novelas maravilhosas, o de Inês de Castro tinha de tudo. Dom Afonso era rei de Portugal. Dom Pedro, filho dele, era principe. E andava pela côrte uma galega magnífica, filha “bastarda” de um dos homens mais poderosos da Espanha, neto do rei Sancho de Castela, que o príncipe Dom Pedro também era. Pedro e Inês eram primos.

E se apaixonaram. Começou o maior tititi na corte. O príncipe Dom Pedro, que morava na Quinta, era casado com Dona Constança, também prima dos dois. Inês vivia no convento de Santa Clara, a meio quilometro da Quinta, e Dom Pedro lhe mandava cartas em barquinhos de madeira que saiam da Quinta e chegavam até o convento por um córrrego que passa até hoje.

***

Dom Pedro acabou despachando a Constança para o sogro espanhol, levando Inês para a Quinta e tiveram filhos. Dom Afonso, o rei pai, não aceitou, não tolerou, e, um dia em que o filho Dom Pedro estava solto nas matas, caçando, mandou três homens matarem Inês de Castro a facadas.

Ela chorou tanto, pedindo para não morrer, que fez nascer a fonte das Lagrimas, onde há quem ainda hoje veja, na mancha vermelha gravada na rocha, o sangue de Inês. Não sei o que é, mas tem mesmo cor de sangue.

O príncipe Dom Pedro se rebelou, organizou um pequeno exército e assolou o pais, tentando derrubar o pai. Não conseguiu. Logo depois, o pai morreu. Dom Pedro assumiu o trono, prendeu dois dos assassinos, arrancou-lhes os corações a facadas, anunciou que antes havia casado secretamente com Inês e mandou construir o monumental tumulo de Alcobaça, uma obra prima.

***

Dom Pedro fez uma marcha fúnebre de Coimbra até Alcobaça e obrigou toda a nobreza a acompanhar quilometros a pé, beijando a mão da morta. E pôs o corpo dela no tumulo, onde também o dele até hoje está. E Inês, como disse Camões, “depois de morta virou Rainha”

Este bucólico recanto do romance universal é sobretudo uma denúncia, um testemunho, uma lição secular contra o ódio e a violência política. O poder mata mais do que dengue e febre amarela. E mata doendo,  a facadas.

Mas Portugal não é só tragédia de reis e princesas. Continua doce, manso, e muito engraçado. Nas coisas mais simples, eles são ainda mais simples. Uma lógica singela, direta, incontestável.

-“Esta estrada vai para a Espanha”?
-“Não sei, mas, se for, vai fazer muita falta”.

A ultima cidade entre Portugal e a Espanha “são duas : se vai daqui é uma, se vem de lá é outra”.

***

E a lingua? Aqui, é um hino ao óbvio, que é a verdade nua, inteira. Entre Portugal e Brasil tudo nos une, nada nos separa. Só a lingua. Desde Pedro Álvares Cabral sabemos todos disso, mas continuamos achando hilário.

Sanduíche é “emparedado”. O gari é “o Almeida”. O jornaleiro é “o ardinas”. Cafezinho é “bica”. Um copo de café com leite é “galão”. Menino é “miudo”, Maiorzinho, já rapaz, é “puto”. Chope pequeno é “imperial”. Fila, de cinema, de transito, é “bicha”. Bicha mesmo é “paneleiro”. Um copo de água é “pinga” (Lula aqui estava feito). Batatas fritas são “elas”. Tela de cinema, de TV, é à francesa : “écran”. Bonito, belo, é “giro”. Bacana, ótimo, é “porreiro”. Sensacional é “bestial”. Não é tudo isso bestial?

Em que pais um vinho se chamaria “Bastardinho do Azeitão”? Ou “Luis Pato Quinta do Ribeirinho Pé Franco”? Pois são ótimos.

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