Lembranas de Juscelino

Sebastio Nery

Tres dias antes de morrer, Juscelino viera de sua fazendinha em Luziania e pernoitara no apartamento do primo Carlos Murilo, em Braslia. Estava triste e deprimido por tantas injustias e perseguies, e fez a esse seu primo e meu xar a seguinte confisso que, autorizado por ele, agora, pela primeira vez, vou revelar :

– Meu tempo, aqui na terra, est acabado. Tenho o qu, de vida? Mais dois, tres ou cinco anos? O que eu mais quero agora morrer. No tenho mais idade para esperar. Meu nico desejo era ver o Brasil retornar normalidade democrtica. Mas isso vai demorar muito e eu quero ir embora”.

Estava sem dinheiro e tomou 10 mil cruzeiros emprestados. Tendo Ulysses Guimares e Franco Montoro como companheiros de vo, viajou para So Paulo e desceu em Guarulhos, porque o aeroporto de Congonhas estava fechado. Ficou hospedado na Casa da Manchete, em So Paulo.

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No dia seguinte, JK despediu-se de Adolfo Bloch, que depois revelava:

– Ele deu-me um abrao to forte e to prolongado que parecia estar adivinhando ser aquele o nosso ultimo encontro. E chegou a mostrar-me o bilhete da Vasp, como prova da sua viagem, naquela noitinha, para Braslia.

E morreu dormindo. Mas, desde a vspera, havia telefonado para seu fiel motorista, Geraldo Ribeiro, pedindo-lhe que fosse a So Paulo busclo de carro, e marcando um encontro no posto de gasolina, quilometro 2 da Dutra.

Pergunta-se hoje : por que Juscelino estava despistando e escondendo a sua real inteno de no ir para Braslia e sim de retornar ao Rio? No queria que dona Sarah soubesse? Seria algum encontro amoroso?

E era.

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Esta uma das muitas, numerosas historias contadas pelo veterano jornalista e acadmico Murilo Mello Filho (nasceu em Natal, com a revoluo de 30), com mais de meio sculo de redaes, em seulivro, Tempo Diferente (primorosa edio da Topbooks) sobre 20 personalidades da poltica, da literatura e do jornalismo brasileiro:

– Aqui esto contadas historias reais e verazes, acontecidas com tantos homens importantes no universo literrio e poltico do pais, que viveram num tempo diferente : Getulio, JK, Jnio, Caf Filho, Lacerda, Chateaubriand, Tristo de Athayde, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Celso Furtado, Evandro Lins, Austregsilo de Athayde, Guimares Rosa, Jorge Amado, Jos Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Raimundo Faoro, Roberto Marinho, Carlos Castello Branco, Otto Lara Rezende.

Agora quea imprensa e sobretudo a televiso quaseesqueceram Juscelino, bom relembrar outras historias contadas pelo depoimento de testemunha de Murilo, no capitulo JK, do Seminarista ao Estadista.

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– Eu era ento (em 56) chefe da seo poltica da Tribuna da Imprensa, jornal de oposio, dirigido por Carlos Lacerda, que movia feroz campanha contra JK. Apesar disso, ele sempre me distinguiu com especial ateno e, na sua segunda viagem a Braslia, me convidou para acompanh-lo.

Samos do Rio num Convair da Aerovias-Brasil e aterrissamos numa pista improvisada, perto do Catetinho, que tinha sido inaugurado no dia 1o de novembro. s quatro horas da madrugada do dia seguinte, ainda noite escura, JK j estava de palet esporte, camisa de gola rol, chapu de aba larga, botinas e um rebenque, batendo porta de nossos quartos, e convidando-nos para irmos com ele visitar as obras de Braslia, naquele imenso descampado :

– Aqui sero Senado, ao lado da Cmara, mais adiante os Ministrios. No outro lado, o Supremo e o palacio do Planalto, onde irei despachar.

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– Naquela nossa primeira noite em Braslia, aps um dia de calor escaldante, os engenheiros estavam na varanda do Catetinho, em torno de uma garrafa de usque, que era bebido ao natural, isto , quente, porque em Braslia no havia ainda energia eletrica e, portanto, no havia gelo, que era artigo de luxo. Juscelino, presente, comentou :

– Vocs sabem que eu no gosto de usque. Mas que uma pedrinha de gelo, anos copos, seria muito bom, seria.

Nem bem ele acabou de pronunciar essas palavras, o cu se enfaruscou e uma chuva de granizo despencou sobre aquele planalto, levando os bomios candangos a aparar as pedras, jogar nos copos e tomar usque com gelo.

Era o primeiro milagre de Brasilia.

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E este bilhete de Adolfo Bloch a Murilo, jna Manchete em Braslia:

– Murillo, ai vai esta lancha para voc fazer relaes publicas no lago de Braslia. No faa economia em relaes publicas. Ns, os judeus, perdemos o Cristo por falta de relaes publicas. E fizemos um mau negocio, porque um homem como aquele no se perde.

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