Lembranças de Lacerda, o jornalista, o político e o governador. Diferença para hoje: não roubava nem deixava roubar

Luiz Geraldo dos Santos:
“Gostaria que você escrevesse sobre o Carlos Lacerda governador. O político e o jornalista são conhecidos. Falta esclarecer o seu governo. Opinião valiosa a sua, para esclarecimento geral, principalmente dos que estão chegando agora.”

Comentário de Helio Fernandes:
Muita gente vem me pedindo o mesmo, há muito tempo. Não quero que este blog seja puramente histórico, embora sempre tenha o cuidado de ligar ou entrelaçar fatos do passado com o que acontece no presente.

É preciso ficar atento ao que acontece no dia a dia, importantíssimo, principalmente num ano de eleição. Faltando menos de 15 dias para a DESINCOMPATIBILIZAÇÃO, ponto de partida para quase tudo.

Carlos Lacerda jamais pensou em ser governador. Sua determinação e disposição, a partir de algum momento, era a Presidência da República. Tendo nascido em 1914, no Distrito Federal, que não elegia governador (os cargos principais, Prefeito e Chefe de Polícia, nomeados pelo presidente), obrigado a “pensar mais alto”, assumia essa responsabilidade. Até com satisfação.

Pedro Ernesto foi o primeiro prefeito eleito pelo Distrito Federal em abril de 1935, mas já era prefeito-interventor desde 1931, quando fez a revolucionária nomeação de Anísio Teixeira para secretário de Educação, realmente fascinante. Lacerda tinha 22 anos, ainda não era o que ele mesmo se considerou: “Um intelectual cooptado pela política”.

Mas já esteve preso, freqüentava a Faculdade de Direito, no primeiro ano. Muito perseguido, só se sentia em liberdade plena na casa do avô, Sebastião Lacerda, ministro do Supremo. A polícia não chegava perto, tinha Poder mas também tinha medo. Morava na cidade de Comercio, hoje Sebastião Lacerda, em Vassouras.

Jornalista implacável e irrefutável, em 1945, (depois da entrevista com José Américo, já citada aqui no blog), participou diariamente da campanha para a eleição de 2 de dezembro de 1945, uma das grandes farsas da História brasileira. 33 dias depois da derrubada do nazista e fascista Estado Novo, todos, mas todos mesmo, voltavam ao Poder.

Retrocesso histórico, político, eleitoral e partidário, teve a mesma “importância negativa” do golpe de 1930. Até hoje o país não se livrou de 1930 e 1945, prolongamento evidente, ditatorial e continuação de tudo o que viria.

Nesse 1945, Lacerda escrevia diariamente sobre o candidato a presidente da República pelo Partido Comunista, Yedo Fiuza. O partido estava na legalidade, elegeu 15 deputados, (um deles Jorge Amado) e um senador pelo Distrito Federal, o próprio Prestes, que também foi eleito deputado.

Na campanha, o título geral das matérias era “O comunista Rato Fiuza”. Era comunista mas não desonesto. Lacerda já tinha tanta repercussão, que o candidato comunista teve 9 por cento dos votos, inacreditável, mas atribuído à campanha “contra” de Lacerda, que se transformou em a “favor”. Sempre achei que Lacerda sabia disso.

Lacerda se transformou em nome nacional, na Constitutinte de 1946, passou a fazer uma página inteira (a segunda) no Correio da Manhã, com o título “Da tribuna da imprensa”. Dessa tribuna do Palácio Tiradentes, escrevia sobre os mais variados assuntos, “até mesmo o que acontecia no plenário”.

Oprimido e restrito pelo fato de viver no Distrito Federal, em 19 de janeiro de 1947 foi eleito vereador. Eram 50 vereadores, a melhor Câmara Municipal que já existiu. Nomes extraordinários de todos os partidos, personalidades nacionais e internacionais, como Pascoal Carlos Magno, embaixador na Grécia, que se elegeu sem estar no Brasil. O que já acontecera em 1919 com Epitacio Pessoa, presidente da República sem sair de Paris. Em 11 de novembro de 1918, assinara pelo Brasil a “rendição incondicional da Alemanha”, representação que Rui Barbosa, derrotado em 1918 e que sabia que teria que haver nova eleição a seguir, recusou. Quem foi eleito? Epitacio Pessoa, no cargo que ele não quis.

Essa importantíssima Câmara Municipal, tinha 18 representantes do Partido Comunista, 12 da UDN, 11 do PTB. Os outros 9 eram de partidos diversos, sendo que o PSD, o maior partido nacional, elegeu apenas 2. O Rio, qualquer que fosse a denominação, era o máximo da oposição.

Em 1948 o Partido Comunista foi colocado na ilegalidade, cassados os 18 vereadores, Lacerda renunciou imediatamente. Não chorava o fim dos comunistas, mas sim a perda dos grandes debates diários. Assisti a muitos, memoráveis.

Não posso deixar de fazer a revelação, poucos sabem ou se lembram. Na Câmara Municipal de São Paulo, renunciou o vereador Franco Montoro, do PDC. Assumiu o primeiro suplente do partido, Janio da Silva Quadros. Que em apenas 12 anos, sem perder eleição, chegaria a presidente da República. (Só perderia depois da farsa da renúncia).

Lacerda se elegeu deputado federal, fez uma trajetória tumultuada, agressiva e agredido (até fisicamente), mas sem perspectiva de poder. No Parlamento foi um sucesso, era a atração diária, naturalmente atacando e sendo atacado. Em 1954 era o grande parlamentar, mas sem futuro, apesar da enorme vontade de chegar a presidente.

Quase no final de 1954, ainda governador de Minas, mas já praticamente candidato a presidente, Juscelino me convidou para assessor de imprensa de sua campanha, foi logo me dizendo: “Helio, falei com o Horacinho (Horacio de Carvalho, proprietário do Diário Carioca, cuja redação dirigi) que ia te convidar, mas quero dizer logo, não existe dinheiro nem para café”.

Era um profissional altamente requisitado, mas a oportunidade de passar um ano percorrendo o Brasil todo, conhecendo o que Tancredo Neves mais tarde, chamaria de “grotões e igarapés”, era irrespondível, aceitei na hora.

(Maravilhosa experiência, inesperadamente “recompensada” em 8 de dezembro de 1955, quando Juscelino fez uma viagem pelo mundo como “presidente eleito e ainda não empossado”, com mais 4 pessoas. E um único convidado, este repórter. Essa então, viagem que nenhum dinheiro pode pagar, fomos recebidos por presidentes (começando pelos EUA), reis, rainhas, primeiros-ministros, e até ditadores, como Franco e Salazar).

Apesar de nenhuma obrigação, comuniquei o fato a Carlos Lacerda. Ouviu, se levantou, respondeu até com veemência, “você não pode aceitar”. Imediatamente: “Já aceitei, considero que essa é uma rara ou talvez última oportunidade de evitarmos uma guerra civil”. Lamentou, éramos amigos, mas de lado a lado, nunca fomos incondicionais. (Eu faria 33 anos, ele havia feito 42).

Juscelino foi eleito, anunciou a mudança da capital, rompi logo com ele, fazia um programa de televisão, (1956, TV Rio, a Globo surgiria apenas em 1965), depois de algumas semanas fui proibido. Inclua-se o Millor, que fazia um programa obviamente excelente, e o próprio Carlos Lacerda. Mas este, surpreendentemente beneficiado pela eleição de Juscelino.

Em 21 de abril de 1960 a capital foi transferida, criou-se então o Estado da Guanabara. Marcada a eleição para 5 de novembro do mesmo 1960 e a posse do governador em 5 de dezembro. O novo Estado ficou com um governador provisório, Sette Câmara, no mesmo dia promovido por Juscelino a embaixador.

Houve uma tremenda guerra eleitoral. Ainda não existia segundo turno nem o absurdo domicilio eleitoral. Este domicilio eleitoral é típico e obrigatório dos regimes com VOTO DISTRITAL, avanço que o Brasil terá que adotar um dia. Como eu já disse, aqui era o centro da oposição, então a luta foi entre Lacerda, os comunistas e Tenório Cavalcanti, o famoso deputado do Estado do Rio, que disputou pela Guanabara.

Resultado impressionante, arredondando. Carlos Lacerda, vencedor, 29 por cento dos votos. Sergio Magalhães, Partido Comunista, (belíssima figura), 28 por cento. Tenório, 16 por cento. Mendes de Moraes, o prefeito mais acusado de irregularidades, principalmente na construção do Maracanã, 9 por cento.

(Se houvesse segundo turno, Lacerda não ganharia, todos se juntariam contra ele, era a ordem natural das suas batalhas). Foi a grande sorte da Guanabara e do próprio Lacerda, que teve a oportunidade de se afirmar e reafirmar, agora num setor diferente.

Não tinha a menor experiência administrativa, mas o que o ajudaria para o notável governo que fez: NÃO ROUBAVA, NINGUÉM PODIA ROUBAR, NEM SE ATREVERIAM.

***

PS – A honestidade de quem recebe dinheiros públicos, não deve ser examinada apenas por ÉTICA OU MORAL, e sim pela PRESERVAÇÃO OU AUMENTO dos investimentos. Ser honesto é uma obrigação. Mas um governador desonesto, desvia os recursos do próprio cidadão-contribuinte-eleitor.

PS 2 – Vou fazer apenas uma referência explicativa do que estou dizendo. Se o administrador, (no caso de governadores, o que nos interessa) tem digamos um número qualquer, 10 milhões, para fazer uma obra, e gasta 30 milhões indevidamente, além de desonesto, ele podia pelo menos construir três obras iguais.

Amanhã: O que fez Lacerda
como governador, sem a menor
experiência administrativa

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *