Lembrando o profeta Gentileza, cuja crítica social equivale à da Escola de Frankfurt

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

No Rio de Janeiro, é por muitos conhecida aquela figura singular, de cabelos longos, barbas brancas, vestindo uma bata alvíssima com apliques cheios de mensagens. Carregava um estandarte na mão, com dizeres em vermelho. A partir do início de 1970 até sua morte, em 1996, percorria toda a cidade para fazer sua pregação.

A partir de 1980, encheu as pilastras do viaduto do Caju com inscrições em verde-amarelo, fazendo sua crítica do mundo atual e propondo sua alternativa ao mal-estar de nossa civilização. Não era louco, mas um profeta da têmpera de Amós ou Oseias. Como todo profeta, sentiu ele um chamamento divino que veio por meio de um acontecimento de grande densidade trágica: o incêndio do circo norte-americano em Niterói, em 1961, no qual foram calcinadas cerca de 400 pessoas.

CHAMAMENTO – Ele era um pequeno empresário de transporte de cargas em Guadalupe, bairro na periferia do Grande Rio. Sabedor daquela tragédia, sentiu-se chamado para ser o consolador das famílias dessas vítimas. Deixou tudo para trás, tomou um de seus caminhões e colocou sobre ele duas pipas com cem litros de vinho. Distribuía-o em copos de plástico, dizendo: “Quem quiser tomar não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza, é só dizer agradecido”.

De José da Trino, esse era seu nome, começou a se chamar José Agradecido ou Profeta Gentileza. Interpretou a queima do circo como um metáfora da queima do mundo: ele é um circo montado pelo “capeta-capital… que vende tudo, destrói tudo, destruindo a própria humanidade”.

Ensinava com insistência: em lugar de “muito obrigado”, deveríamos dizer “agradecido”, e, em vez de “por favor”, usar “por gentileza”, porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor, e não por favor”. Junto com o princípio de geometria (Pascal), típico do pensamento técnico-científico dominante, Gentileza (“Esprit de finesse” de Pascal) funda um princípio alternativo de convivência civilizada, descurado pela modernidade e hoje de extrema importância para humanizar as relações demasiadamente funcionais, frias e marcadas pela truculência.

ESCOLA DE FRANKFURT – A crítica da modernidade não é monopólio dos mestres da Escola de Frankfurt. O profeta Gentileza, representante do pensamento popular e sapiencial, chegou à mesma conclusão que aqueles mestres.

Ou daremos razão ao profeta Gentileza e assumimos sua proposta do paradigma da gentileza, que supõe uma relação respeitosa e cuidadosa para com a natureza, ou então poderemos ir ao encontro do pior. O futuro da vida e de nossa civilização dependem da gentileza.

O profeta Gentileza nos remete ao relato do livro do Eclesiastes, no qual se lê: “Havia uma pequena cidade de poucos habitantes: um rei poderoso marchou sobre ela, cercou-a e levantou contra ela grandes obras de assédio. Havia na cidade um homem pobre, porém sábio, que poderia ter salvo a cidade com sua sabedoria. Mas ninguém se lembrou daquele homem, porque era pobre. E a cidade foi tomada e destruída” (Ecl 9, 14-16).

SABEDORIA – Comenta, pesaroso, o Eclesiastes: “Mais vale a sabedoria que o poder, mas a sabedoria do pobre é menosprezada, e suas palavras não são ouvidas” (Ecl 9, 16).

Oxalá essa atitude de desvalorização da sabedoria do pobre não se perpetue. Ela possui uma verdade escondida que, descoberta e acolhida, nos poderá proteger de catástrofes altamente destrutivas.

Mas, se cultivarmos “a gentileza que gera gentileza” como uma relação alternativa para com a natureza e a casa comum, seguramente teremos escolhido o comportamento adequado que nos poderá salvar.

3 thoughts on “Lembrando o profeta Gentileza, cuja crítica social equivale à da Escola de Frankfurt

  1. Pena que o profeta Gentileza não agia conforme falava. Eu era garota, morava em Niterói, quando ia ao Rio e encontrava o Gentileza, quase sempre nas barcas, me encolhia de medo. Ele corria atrás de moças de mini saia e/ou maquiadas, brandindo seu cajado, as xingando e praguejando.
    Gentileza não passa de um mito urbano.

  2. O falso profeta Gentileza, de verdade, era mais como o descrito por Teresa Fabricio.

    Leonardo Boff gastou tinta demais com um mito urbano esquisofrenico.

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