Lembrando Tom Jobim, um social-democrata ecológico

Está fazendo 20 anos que Tom Jobim se foi. O comentarista Mário Assis, sempre presente, nos envia um texto realmente maravilhoso, escrito pelo músico Luiz Felipe Oiticica, que vale a pena ler de novo.

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PARA SEMPRE … DESAFINANDO

Luiz Felipe Oiticica (dezembro de 1994)

A notícia chega pelo rádio e a TV confirma, mas quase não dá para acreditar que desta vez foi Tom Jobim.

Começo a escrever emocionado, enquanto uma FM qualquer passa um Especial com suas músicas. Bate de novo a sensação ruim de que acabaram de roubar toda uma época da minha vida. Exatamente o que eu já sentira quando morreu Vinícius de Moraes.

Para as gerações de hoje, Tom era apenas o grande compositor e músico brasileiro de sucesso internacional, a simpaticíssima figura de carioca e cidadão do mundo, volta e meia presente na mídia através de suas belas canções, de suas frases espirituosas, de suas preocupações ecológicas.

Mas, para as pessoas de classe média na minha faixa de idade – a turma de mais ou menos 45 a 60 anos – ele representava infinitamente mais do que isso. Foi a primeira referência cultural autenticamente nossa, no sentido de que o descobrimos sozinhos, sem nos guiar pela geração mais velha, e também no de que foi a partir dele que demarcamos nosso espaço, nossa “praia” cultural.

A música de Tom Jobim abriu definitivamente nossas cabeças para a arte e a cultura, no final dos caretérimos anos 50, quando menino que estudava música era considerado excêntrico ou maricas, menina só podia tocar piano ou acordeon, e “ser artista” ainda parecia algo estranho e distante, algo que nunca deveria acontecer a alguém da nossa família.

A primeira vez em que ouvi o Desafinado, minha cabeça deu um giro de 180 graus. Alí, aos 13 anos de idade, percebi (e quantos, ao mesmo tempo em que eu!) a existência de uma coisa chamada expressão artística criadora, e reconheci de estalo as suas matérias-primas: o inconformismo, a dissonância, a paixão pela forma nova e a intuição do que está por vir. Foi Tom Jobim (ao lado de João Gilberto, é claro) que nos ensinou a desafinar o coral do conservadorismo artístico. E é por isso que em nós sua ausência dói mais forte. Porque no referencial afetivo de cada um dos que viveram aquele tempo ficou um vazio que já não podemos preencher.

As posições políticas de Tom eram bem diferentes das minhas. Uma espécie de social-democrata ecológico, ele não sonhava a mesma revolução social que sonho. Mas e daí? A história da música popular brasileira divide-se em antes e depois de Tom Jobim; logo, ele fez a sua parte, a sua revolução, aquela que podia e soube liderar, no campo de atividade em que tornou-se um verdadeiro Mestre. Como exigir de alguém mais do que isso?

Por mim e por todos, obrigado pela lição, Maestro. Por aqui, seguiremos tentando desafinar outros tipos de corais – destrutivos e muito mais resistentes. Demorará, mas chegaremos lá. E você também gostaria de ver.

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