Liberação de cargos para incompetentes não resolve nada

Pedro do Coutto

Em entrevista ao repórter Valdo Cruz, publicada pela Folha de São Paulo, edição de terça-feira, a ministra Ideli Salvatti comprometeu-se a acelerar a liberação de cargos solicitados pela base aliada para reduzir as insatisfações que surgiram no Congresso. Afirmação quase inacreditável porque, primeiro, denota primarismo político; segundo porque a cooptação constitui crime eleitoral e administrativo.

A matéria foi manchete da página 6 e a oposição sequer deu sinais de alguma reação. E olha que a titular da pasta de Relações Institucionais classificou a iniciativa como de limpar a prateleira. Colocação simplista e totalmente fisiológica. Liberar nomeações apenas com base no critério do toma lá dá cá, além de algo eticamente absurdo, não adianta nada. Se a caneta do poder resolvesse tudo não haveria problema no mundo. Todos estariam solucionados através de decretos presidenciais.

Não é nada disso. Em primeiro lugar, cada nomeação de um incompetente acarreta, pelo menos, a esterilização de um instrumento de ação construtiva. Em segundo lugar, se o nomeado ingressar no clube da corrupção, pior ainda. Além de esterilização, o governo estará contribuindo para ampliar cada vez mais a concentração de renda. Pois a taxa de corrupção ganha disparado do índice inflacionário calculado pelo IBGE e também do IGPM da Fundação Getúlio Vargas.

O general Montgomery, subcomandante em chefe das Forças Aliadas na Segunda Guerra, que arrasou as forças de Rommel no norte da África e atuou no desembarque heróico da Normandia, escreveu um livro sobre a dificuldade eterna de selecionar pessoas. Ele se reduziu a quatro tipos básicos: o inteligente com iniciativa. A ele podem ser delegadas funções de comando. Os inteligentes porém tímidos. Devem ir para o planejamento. Os “burros” sem iniciativas. Estes podem ser aproveitados para executar tarefas que lhes sejam fixamente atribuídas. Finalmente Montgomery qualificou os “burros” com iniciativa. Estes – deixou escrito – são perigosíssimos. Não devem ser escalados jamais. São capazes de destruir o próprio Exército inglês.

Os ensinamentos do general britânico, vitorioso em Tobruk, Sharme El Sheik, em Alexandria e finalmente em El Alamein, aplicam-se às condições em geral. Atinge em cheio os incapazes  que  se especializam nas técnicas de bajulação e do envolvimento. São os falsos amigos, que se transformam no final da ópera em falsos aliados. O pior tipo: tornam-se efetivamente inimigos disfarçados. Veja-se as situações criadas ao longo do tempo por José Dirceu, Erenice Guerra e agora Antonio Palocci. Disparam torpedos do convés para o interior do navio.

“Vou fazer uma operação limpa prateleira, coisa de mulher”, disse textualmente Ideli Salvatti a Valdo Cruz.” Tem muita coisa parada no Planalto acumulado poeira e só gerando insatisfações nos aliados”. Inacreditável. As afirmações inclusive com o Estatuto do Servidor Público, são um desrespeito à lei, um incentivo à prática dos maus costumes, uma conduta nada cidadã. Se a empregada da casa da ex-senadora agisse dessa maneira em relação ao porteiro do prédio, a ministra da falsa articulação política a teria demitido. Mas ela é ministra de estado e seu julgamento cabe ao Supremo Tribunal Federal.

Seria necessário que os partidos de oposição ou algum eleitor representasse junto ao Procurador Geral da República Roberto Gurgel. Seria perder tempo, se Gurgel seguisse o comportamento omisso adotado em relação a Palocci. Mas os autores da iniciativa estariam contribuindo para resguardar a cidadania que envolve a todos e cabe a todos  preservar. A começar pela presidente da República.

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