Liberdade, igualdade e fraternidade na França? Para quem?

Alexandra Loras é consulesa em São Paulo

Eliane Trindade

A questão acima é colocada por Alexandra Baldeh Loras, 37, francesa de origem muçulmana e judaica, que vive no Brasil há dois anos como consulesa do país em São Paulo. Como todos os cidadãos franceses, ela procura respostas para os atentados terroristas em Paris em meio ao luto. Formada em ciências políticas e estudiosa do fenômeno da integração, ela assina um blog sobre minorias.

Fez sua tese de mestrado na prestigiosa SciencePo (L’École Livre de Sciences Politiques, onde se forma a elite política) sobre os negros na televisão francesa, onde foi apresentadora por sete anos. Alexandra afirma que “a França ainda precisa se assumir como nação multicultural e multirracial” para evitar que alguns de seus filhos de ascendência árabe e africana não sejam “adotados pelo terrorismo”.

A seguir, trechos da entrevista concedida dois dias depois do ataque que matou 12 jornalistas do “Charlie Hebdo” e na tarde do sequestro que acabou na morte de quatro reféns.

UM NOME FAMILIAR

“Quando vi nos telejornais que o sequestrador do supermercado kosher em Paris se chamava Coulibaly, fiquei rezando para que não fosse um dos meus primos. É um sobrenome comum na África. O terrorista que matou quatro reféns não era meu parente, mas é como se fosse. É negro e francês como eu. O que aconteceu na vida dele para que se tornasse tão violento?”

“As mortes na redação do “Charlie Hebdo” e no supermercado são atos detestáveis do terrorismo. Antes de falar de liberdades, o respeito pela vida humana me leva a condenar os ataques categoricamente como um ato bárbaro inaceitável. Estou de luto pelas famílias das vítimas.”

“Ouvi e li nas redes sociais muitas reações violentas: “esses animais, selvagens, negro sujo, árabes imundos…”. A lista de insultos é longa, mas gostaria de convidar a todos a se perguntarem o que levou esses franceses a cometer tais crimes hediondos. Os terroristas passaram alguns meses no Iêmen sendo treinados e várias décadas na França. Então, a base da identidade deles é francesa.”

RACISMO E SEXISMO 

“Apesar do nosso lema “liberdade, igualdade e fraternidade”, fomos de geração em geração condicionados a pensar que o racismo e o sexismo são naturais. Uma hierarquia construída durante séculos declarou que os homens são superiores às mulheres, que só tiveram direito de voto em 1944, e que os brancos eram superiores a árabes e negros.”

“Foi uma dor imensa crescer na França como negra. Sou de origem muçulmana, já que meu pai é da Gâmbia, um país da África Ocidental. Nasci em Paris, de mãe francesa, branca e católica.”

“O que me machucava quando criança é que sempre me perguntavam de onde vinha. Até os meus 21 anos, eu não conhecia Gâmbia. Fui criada na França. Meu avô era comunista, foi secretário-geral do partido anarquista, mas era superracista.”

“O “Charlie Hebdo” é um jornal de esquerda, que sempre publicou charges que podem ser interpretadas como xenófobas, racistas e antissemitas. Defendem um Estado laico, o que não quer dizer ateísta. Ser laico, na verdade, é respeitar todas as religiões. Que liberdade de expressão estamos defendendo? Pode-se faltar com respeito a profetas reverenciados por uma comunidade que não tem poder nos meios de comunicação para se expressar?”

JE SUIS CHARLIE

“É muito fácil dizer ‘Eu Sou Charlie’. Eu gostaria que todos fossem Charlie também quando jogaram o coquetel molotov na Redação anos atrás. Quando eles desenhavam Maomé de quatro. Quando Phillipe Val [ex-editor] foi vítima de violência da extrema direita. Quando o Charb [Stéphane Charbonnier, diretor da publicação morto no ataque] precisou de escolta policial por oito anos. Não é ser Charlie só hoje, quando houve a morte deles.”

“Eu me emociono ao ver a caminhada de quase 4 milhões de pessoas em Paris. É bom ver a França tão unida. Acho muito triste que tenham morrido personalidades conhecidas. Mas me entristece também a explosão de um carro bomba que matou 37 pessoas no Iêmen, em um atentado do mesmo grupo da Al-Qaeda, quatro dias antes do de Paris. Por que ninguém falou mais disso? As vidas do Charb e do Wolinski valem mais?”

“Após os ataques, tenho escutado: “Temos que matar esses terroristas”. Vamos matar como eles mataram? É essa a solução? Sou contra a pena de morte. Gostaria de conhecer as reivindicações deles. Por que se tornaram loucos assim? Por que caíram no extremismo?”

“Para eles, talvez, nós é que sejamos terroristas. Quantas atrocidades foram cometidas nas ex-colônias? Pegaram argelinos, marroquinos, senegaleses para lutar pela França e defendê-la para ser um país livre. Aprendi na escola que eram voluntários. Hoje, documentários mostram que não tiveram escolha, as famílias eram ameaçadas. Há um lado da história da França muito obscuro, que ela não quer assumir.”

A FRANÇA NÃO SE DESCULPOU

“A pátria mãe francesa parece ter esquecido os 400 anos de escravidão e 300 de colonização. A França ainda não se desculpou pelas dores imensas que causou na África. Precisa se aceitar como sociedade multicultural e multirracial. E hoje ela não quer assumir esses filhos. Eu me coloco entre eles. Nos sentimos rejeitados. E me refiro aos africanos, aos árabes, aos asiáticos e aos judeus também. A todas as minorias.”

“O conhecimento é a melhor arma para combater a desigualdade e desconstruir os fundamentos do racismo e do extremismo. Quase nenhum escritor, filósofo, cientista negros e árabes ganha visibilidade na televisão e nos livros didáticos na França.”

“Ao investigar essa realidade, descobri que eles existem, sim, e que potencial e talento não têm nada a ver com a quantidade de melanina na pele. Precisamos reparar e aliviar a dor que nossa sociedade gera sem que nem percebamos. E tentar entender quanto é nossa responsabilidade ter criado esses monstros.”

One thought on “Liberdade, igualdade e fraternidade na França? Para quem?

  1. A Partilha da África, iniciada por volta de 1880, que não passou de uma infame invasão europeia às nações africanas, com o consequente domínio dos povos daquele continente por países como Itália, França, Inglaterra, Bélgica, dentre outros. Houve saques, roubos, escravidão e mutilações. E não nos esqueçamos da escravidão e do tráfico de seres humanos africanos, havidos desde o século XV – para não mencionar outras barbaridades. Por tais razões, nem França, nem país algum, deve simples desculpas, mas polpudas indenizações por danos materiais e imateriais – no mínimo.

    O belo continente, de artes refinadas, berço do ‘homo sapiens’, foi devastado, explorado, escravizado, torturado. Insisto: isso merece muito mais do que um simples pedido de desculpas por parte dos países europeus. Os judeus, por exemplo, unidos como nenhum povo que habita as plagas terrestres, reivindicam indenizações, obras de arte surrupiadas durante o regime nazista e tudo aquilo que lhes é devido.

    Reivindicam e logram sucesso. Assim devem proceder as nações africanas, destacando que isso não representa mera compensação argentária. Os africanos também passaram por seu holocausto, mas são tratados de forma diversa.

    Vale dizer, a humilhação impingida à África vai muito além de um pedido de escusas.

    Todavia, isso difere das charges feitas pelo Charlie Hebdo, que, por seu turno, satirizam todos os tais profetas (Adolpho Bloch – quanta falta ele faz! – dizia que se Moisés fosse profeta teria levado o povo hebreu para a Suíça e não para Israel/Palestina), todas as religiões e seus dogmas.

    Detalhe: o que afirmo no parágrafo anterior não diz respeito à África, especificamente, mas a toda e qualquer religião, seita ou algo gemelar que, ao longo de milênios, queimou bruxas, estirpa clitóris, estabelece pena de morte por apedrejamento, obnubila o pensamento científico, secular e humanista.

    No lugar de se calcarem numa escusa ridícula – “Maomé foi sacaneado: vamos matar, matar, matar!” – que se organizem em todos os sentidos para obterem vitórias jurídicas de cunho reparatório ao longo não só da Europa, mas de todo o globo, em face das nações espoliadoras.

    Aliás, se a questão religiosa agride tanto a turma que acredita no céu e no inferno, que os ofendidos se valham do judiciário. Já houve pedidos julgados improcedentes. Mas água mole em pedra dura…

    Ou, melhor ainda, que façam seu contra-ataque com lápis e papel. Creiam: é a forma de contraofensiva mais eficaz que existe. Criem seus jornais, não para incitar o ódio, mas a ironia (fina ou não). E vão vender como água no deserto.

    Concluo insistindo: as riquezas espoliadas da África ou de outras regiões, bem como a escravidão imposta a esses povos briosos, merecem reparo de jaez indenizatório – estratosférico. Que sejam deflagradas milhões de demandas nesse sentido. Sem esmorecimentos.

    E sigo a favor da liberdade de expressão, sem medos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *