Liberdade para as campanhas

Carlos Chagas

Ainda bem que os tucanos deixaram sair pelo ralo a sugestão de um alto emplumado para denunciar o presidente Lula por propaganda eleitoral antecipada… na Espanha. Seria mesmo um absurdo se  o Tribunal Superior Eleitoral aceitasse multar  o primeiro-companheiro por haver concedido entrevista ao jornal “El País”, onde sustentou a candidatura Dilma Rousseff e declarou não ver a possibilidade de perder a eleição.

Fora esse lampejo de bom-senso, porém, tanto o PSDB quanto o PT, do outro lado, insistem em levar os adversários à Justiça, sob a alegação de fazerem campanha antes da hora. Além de farisaísmo, é pura burrice ficarem agredindo um ao outro por conta do óbvio. O presidente Lula já foi multado duas vezes, os tucanos tiveram de alterar programas de televisão,  José Serra precisou mobilizar advogados e Dilma Rousseff,  também. Tudo porque praticam o  mais simples dos postulados eleitorais, ou seja, fazem campanha.

Ora bolas, alguém duvida de que o ex-governador e a ex-ministra sejam candidatos? Haverá como impedi-los de viajar pelo país, de expor idéias e manifestar-se a respeito da realidade nacional?

Constituem pura bobagem  as sucessivas leis e as dezenas de regulamentações expedidas pela Justiça Eleitoral ao longo dos anos.  A única iniciativa sensata seria reconhecer que candidatos fazem campanha e  campanha não é crime, pelo menos quando não se utiliza nelas dinheiro público. Se um cidadão, quatro anos antes das eleições, deseja pedir votos, que peça. Se pretende divulgar suas preferências, que divulgue. Caberá apenas ao eleitorado decidir se estão abusando de sua paciência, predispondo-se a não votar nos apressadinhos. Deixa de ser  assunto para leis ou  regulamentos.

Fica para as próximas eleições

Só por milagre a Câmara aprovará hoje, para valer em outubro, a essência do  projeto que nega autorização para o registro de candidatos condenados pela Justiça. Firulas de toda espécie foram incluídas no texto para os deputados darem a impressão de apoiar as limitações, mas só para o futuro e apenas para condenações confirmadas por tribunais. O resto é pantomima pré-eleitoral.

Se algum candidato foi condenado pela Justiça e deveria ser proibido de candidatar-se, bastariam poucas palavras para caracterizar a situação. É golpe contestar as sentenças exaradas em primeira instância, transferindo-as para os tribunais. Como golpe também será empurrar com a barriga os efeitos da lei, deixando-os “para as próximas eleições”…

Um valor mais alto

A partir de hoje Dilma, Serra, Marina e outros entram em cone de sombra. Alevanta-se um valor maior do que a sucessão presidencial, a partir do momento em que o Dunga anunciar os 23 que comporão o selecionado brasileiro de futebol. Importa menos, até, saber se Adriano, Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Ganso estarão ou não na relação. Agora será torcer os dedos em figa, acreditar que o plantel  é esse mesmo, ainda que pudesse ser melhor, e carregar todas as esperanças na Copa a se iniciar dentro de um mês.

Pouca repercussão terão as viagens dos candidatos presidenciais quanto cotejadas com a chegada da seleção à África do Sul. Menos ainda as entrevistas por eles concedidas, se comparadas com os primeiros e já atrasadíssimos treinos de conjunto. Até o todo-poderoso  presidente Lula cederá espaço ao Dunga. Como na corrida para o palácio do Planalto, só haverá lugar para um vencedor.

Desgaste garantido

Houve quem sugerisse ao presidente Lula encontrar um pretexto para deixar de viajar ao Irã, na próxima semana, de onde fatalmente sairá desgastado. Sem a emissão de juízos de valor a respeito de estar o país dos aiatolás preparando ou não sua bomba atômica, a verdade é que a opinião  mundial posiciona-se pela adoção de sanções ao governo de Teerã. Poderia o presidente Lula obter alguma moratória na ação proposta pelas nações mais poderosas do planeta? E conseguiria por parte dos iranianos um pouco mais de boa vontade em aceitar a fiscalização internacional em suas usinas nucleares? Só por milagre. A previsão é de que o nosso primeiro-companheiro retorne de lá como irá chegar, ou seja, com as mãos abanando. Desgastado junto à comunidade que até agora o tem aplaudido. Não há coelhos a ser tirados dessa cartola.

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