Lições da Espanha

Sebastião Nery

O nome dele era Isidoro. Todo mundo sabia quem era, mas ninguém sabia como era. Secretario-geral do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), o mais antigo do pais, fundado por Pablo Iglesias em 1879,era o grande enigma da abertura que viria.          

Filho de um vaqueiro da Andaluzia, nascido em 5 de março de 1942, sofria de asma desde os dois anos. No curso secundario, tinha que optar entre Letras e Ciências. A mãe o matriculou em Ciências. Não sabe por que, trocou para Letras e estudou Direito.         

Na Faculdade, atuou entre os grupos universitários  católicos. Em 1962, conheceu um grupo de colegas socialistas já organizados (são como irmãos até hoje): Afonso Guerra, Guilhermo Galeote e Luis Yanez. Tinham um projeto : assumir o comando do Partido Socialista em Sevilha, depois na Espanha e a partir daí o governo.  Vinte anos depois, em 1982, conseguiram. 

ISIDORO 

Formado, Isidoro montou escritório de advocacia sindical para fazer política na ilegalidade. Em 65 e 66 estudou dois anos na Bélgica, voltou para a luta interna no PSOE e a externa contra Franco. Em 69, assumem o comando do PSOE  em Sevilha:

– “Logo percebi que meu discurso tocava as pessoas”.

Em 72, no congresso do PSOE na França, entraram para a direção nacional. Em 74, Isidoro se elegeu secretario-geral, derrotando o velho Rodolpho Lopis, 79 anos, herói da guerra civil. Mudou-se para Madri, sempre clandestino e sempre Isidoro.

Foi lá que o conheci, em 1976, os cabelos bem negros, cheios, caindo sobre o pescoço, a barba cerrada, a boca grande, um discurso forte e 35 anos.  Em dezembro de 76, convocou a imprensa e anunciou que o PSOE estava voltando à legalidade depois de 40 anos proibido e na clandestinidade.

FELIPE 

Já não era mais Isidoro. Era Felipe, Felipe Gonzalez. Nas eleições de 15 de junho de 77 para a Constituinte, seu partido fez 28,51%% dos votos. O Partido Comunista 9,025%. A Aliança Popular, a direita ex-franquista, 8,19%. Ganhou as eleições a UCD (União do Centro Democrático) de Adolfo Suarez, o chefe do governo(Presidente do governo, como dizem lá) com 34,34%.

Só em 82 Felipe e seu PSOE ganhariam as eleições. Mas aquela Constituinte era uma primeira lição para o mundo. Depois de 41 anos de ditadura, a Espanha entregava o pais à competência, determinação e sabedoria de três jovens : o rei Juan Carlos, 39 anos; o chefe do governo Adolfo Suarez, 45 anos; e Felipe Gonzalez, o líder da oposição, 35 anos. 

Os três construíram a nova Espanha.  Em 1992, em Madri, ouvi Felipe Gonzalez, então presidente da Espanha,  dizer a Fernando Collor, presidente do Brasil:

– “Fernando, governar é resistir”.

AZNAR

A partir de 82, Felipe e seus socialistas ganharam quatro eleições e governaram durante 16 anos. Até que perderam para o Partido Popular de José Maria Aznar, que ficou dois mandatos. E os socialistas voltaram com José Luis Zapatero por 8 anos.

Agora, nas eleições municipais, levaram uma “surra histórica” : 37% contra 27%. Das 13 comunidades autônomas (províncias), perderam em 11 e nas maiores: Madrid, Barcelona, Andaluzia, Sevilha, Galícia. Ganharam Pais Basco e Astúrias.       

LIÇÃO

Em 2012 é inevitável outra derrota do PSOE, agora sob o comando do vice do governo Alfredo Rubalcaba ou do secretario-geral do partido José Blanco, que disputarão o comando do PSOE em previas, e o governo contra o secretario do PP Mariano Rajoy.

E mais uma vez a Espanha dá outra lição de democracia ao mundo. O poder longo cansa e perde. Se os problemas econômicos e sociais crescem, é preciso entregar o governo a outros e testar.

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