Lições de 50 anos atrás

Carlos Chagas

“Chegamos à estranha situação de que, no governo, os que decidem não são votados, e os que são votados não decidem”.

Tome-se a presidente Dilma, reeleita em outubro passado. Entregou a economia a um banqueiro cujas iniciativas jamais foram referidas nos palanques onde Madame garantiu seu segundo mandato.

“O governo demonstra renitente e impenitente incapacidade para compreender os problemas políticos revelados pelos que se supõem capazes de resolvê-los”.

Nada se ajusta mais a essa sentença do que a aceitação, pela presidente Dilma, da redução de direitos trabalhistas adotada faz pouco, decisão rejeitada por todas as centrais sindicais e mais a torcida do Flamengo.

“Todos reconhecem em V. Excia uma liderança de qualidades excepcionais, que exerce extraordinária influência nas bases do partido, mas os processos dialéticos destrutivos que costuma empregar contra seus adversários não podem ser aplicados contra seus próprios companheiros”.

Essa análise serve, sem tirar nem pôr aos comentários do Lula em recente reunião com religiosos, quando demoliu a sucessora de forma inapelável. O ex-presidente utiliza sua óbvia liderança para destruir o governo atual.

“Jamais se viu tamanho libelo infamatório contra a representação do próprio partido”.

De novo o comentário aplica-se ao Lula, e também a Dilma, quando sufocaram a indignação dos companheiros frente à política econômica, na recente reunião do V congresso nacional do PT.

“O governo tornou-se impopular este ano. Será popular quando vierem as eleições?”

A indagação atinge a presidente e seu antecessor por conta das recentes pesquisas que só indicam queda vertiginosa em seus índices de aprovação.

Poderemos acrescentar a esse elenco de frases aspeadas muitas outras de igual atualidade, como : “Candidato invencível para uma eleição que não vai haver…”; “a ovelha negra não faz parte do rebanho”; “assistimos a um romance de amor e de ódio”; “o bom senso, que lhe falta, e a inteligência, que lhe sobra”; “entrega um passaporte para o desconhecido”; “vendo antes, dou a impressão errônea de ver demais”…

Fomos encontrar a autoria de todos esses vaticínios e críticas entre aspas, formulados há exatamente 50 anos, em 1965, na correspondência enviada por Carlos Lacerda ao presidente Castello Branco, quando o então governador da Guanabara tentava salvar sua candidatura presidencial, logo depois atropelada inexoravelmente pelo golpe militar. Aqui para nós, nada como o passado para nos orientar, porque se ele não nos diz o que fazer, aponta com rara precisão o que evitar…

2 thoughts on “Lições de 50 anos atrás

  1. Carlos Lacerda não era bom analista político. Contra a opinião de Hélio Fernandes, foi a favor da prorrogação do mandato de Castelo Branco. Achava que não seria cassado, no que foi advertido por Hélio Fernandes que, mais uma vez estava certo, e Lacerda errado. O “Corvo” não é boa referência de análise política. Ontem fez onze anos da morte de Brizola. Como forma de resgatar a memória de Brizola e Lacerda, abordando quem foi realmente este último, apresento um artigo de minha autoria publicado aqui na Tribuna da Internet em 2012.
    http://www.carlosnewton.com.br/para-a-professora-sandra-cavalcanti-com-carinho/

  2. Caro Chagas,

    Vale a pena reler o texto “POR QUE BRIZOLA DIZIA QUE O PT É A UDN DE MACACÃO E TAMANCOS?” do arguto participante Antonio Santos Aquino :

    ‘Nos idos dos anos 80, Leonel Brizola cunhou uma frase sobre o PT dizendo:

    “O PT é a UDN de macacão e tamancos”. Referia-se aos preconceitos e discriminações que tinham sobre os trabalhistas do PDT.

    E sutilmente dizia à sociedade: Não se enganem Lula é um político de direita.

    Posteriormente, Darcy Ribeiro cunhou outra frase: “O PT é a esquerda que a direita gosta”.’

    http://tribunadainternet.com.br/por-que-brizola-dizia-que-o-pt-e-a-udn-de-macacao-e-tamancos/

    De fato, “Brizola era também um frasista mordaz, tipicamente gaúcho.

    Quando queria dizer que um aliado insinuava abrir mãos dos valores cultivados até então, Brizola falava na cara: “Estás costeando o alambrado”.

    Afinal, hoje, “Para quem Brizola diria ‘estás costeando o alambrado’?”

    http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2014/09/05/para-quem-brizola-diria-estas-costeando-o-alambrado-quem-seria-bundinha/

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