Lista tríplice é apenas uma relação de nomes que nada significa no exercício da democracia

Bolsonaro nomeia novo PGR

Charge do Duke (dukechargista.com.br

Percival Puggina

Nas sociedades modernas, há um tipo de democracia que se convencionou chamar de democracia direta, da qual se diz que, nela, “o povo toma as decisões políticas”. A História está cheia de exemplos comprovando que esse é um ingrediente no caldeirão dos totalitarismos. Aqui no Rio Grande do Sul, sempre que o eleitorado caiu nessa conversa, os companheiros se reuniam como se “o povo” fossem, para referendar o que já fora decidido nos estofados de couro do andar de cima.

A ideia de que o comando dos corpos sociais seja escolhido pelo voto de seus membros é um derivativo disso, nascido na mesma maternidade. Trata-se, no entanto, de ditadura indireta, comandada externamente, condição que não muda mesmo quando, por analogia, é transplantada para um ambiente de trabalho.

GESTÃO DIFICULTADA – Aplicada extensivamente no serviço público brasileiro, tal prática determina um acúmulo de dificuldades de gestão, fragilizando a cadeia de comando e transformando a escolha do dirigente num confronto entre afinidades e simpatias.

Nas Forças Armadas, os comandantes não são escolhidos pela tropa. Numa delegacia de polícia, o delegado não é eleito pelos outros policiais. Numa empresa, o diretor não é eleito pelos funcionários.

Democracia e voto universal não são poção mágica para solucionar conflitos ocorrentes nos corpos sociais. Numa democracia, os esquemas de poder paralelo não têm aquela estabilidade com que muitos se habituaram. Onde se clama por eficiência, oxigenação e renovação o caminho é outro.

ABUNDÂNCIA DE CONSELHOS – Houve longo tempo, entre nós, em que a administração, os órgãos do Estado e seus poderes foram sendo aparelhados pela criação de conselhos de toda ordem (cerca de 700 deles só no governo federal), funcionando como verdadeiros sovietes. Bolsonaro quis dar um jeito nisso e a exótica composição de STF que aí está não permitiu.

Da mesma sala de parto onde nascem os sovietes esquerdistas vem a pressão para que os preferidos em listas tríplices sejam necessariamente nomeados para a função que disputaram. Listas tríplices e outras composições análogas são imposições legais cujo efeito é restringir o arbítrio da autoridade que vai formalizar a nomeação, sem, contudo, anular o discernimento daquele a quem esse poder foi legal ou constitucionalmente atribuído.

O PODER DA CANETA – Listas tríplices são apenas isso: listas com três nomes. Tornar obrigatória a escolha do mais votado é transformar o processo em eleição e extinguir o poder da autoridade que nomeia.

A regra estabelecida na Constituição para escolhas dessa natureza – como a de novos desembargadores, procuradores gerais, reitores de universidades, entre outros – visa ao alinhamento entre estes e a autoridade que procede a nomeação. Simples como isso. A legitimidade da escolha é dada pela origem do poder de quem tem a caneta, a mesma caneta que vai nomear, também, ministros de Estado, dirigentes de estatais, embaixadores e reitores de universidades.

8 thoughts on “Lista tríplice é apenas uma relação de nomes que nada significa no exercício da democracia

  1. “A legitimidade da escolha é dada pela origem do poder de quem tem a caneta, a mesma caneta que vai nomear, também, ministros de Estado, dirigentes de estatais, embaixadores e reitores de universidades.”

    Interessante mas inconclusivo, infelizmente. Caso fosse avesso ao modo de escolha atual do quer que seja, dirigentes, ministros e outros que tais, deveria compará-lo com o primeiro mundo para que tivéssemos um parâmetro, mas não apenas. Deveria oferecer soluções.

    A propósito, o culpado por termos um asno na presidencia são os outros, de preferencia comunistas e radicais esquerdistas. Puggina sendo Puggina.

  2. Data vênia caro Percival, talvez a criação das tais listas tríplices tivessem na sua origem uma ideia boa, os indicados são pessoas para comporem conselhos e reitorias, como no caso das universidades. Hoje com o sistema das lista tríplice está corrompido, fruto da intromissão indevida do poder judiciário. Agora cabe ao Executivo ou ao Legislativo corrigir este sistema alterando a regra atual, até lá teremos que conviver com este cipoal de conselhos e conselheiros incompetentes.

  3. Abaixo, em ordem de postagem, três parágrafos do artigo em tela, de Percival.

    “Aplicada extensivamente no serviço público brasileiro, tal prática determina um acúmulo de dificuldades de gestão, fragilizando a cadeia de comando e transformando a escolha do dirigente num confronto entre afinidades e simpatias.”

    “Nas Forças Armadas, os comandantes não são escolhidos pela tropa. Numa delegacia de polícia, o delegado não é eleito pelos outros policiais. Numa empresa, o diretor não é eleito pelos funcionários.”

    “Democracia e voto universal não são poção mágica para solucionar conflitos ocorrentes nos corpos sociais. Numa democracia, os esquemas de poder paralelo não têm aquela estabilidade com que muitos se habituaram. Onde se clama por eficiência, oxigenação e renovação o caminho é outro.”

    Não seu se sou eu ou o articulista, mas se eu inverter a ordem desses tópicos mencionados, o gaúcho jamais se mostrou tão contraditório como nesse artigo!

    Vejamos:
    Registrando o parágrafo do meio como primeiro:
    “Nas Forças Armadas, os comandantes não são escolhidos pela tropa. Numa delegacia de polícia, o delegado não é eleito pelos outros policiais. Numa empresa, o diretor não é eleito pelos funcionários.”

    Puggina misturou alhos com bugalhos sem a menor cerimônia.
    Aqueles que atingem as funções mais elevadas foram conduzidos por méritos próprios, estudaram, se aperfeiçoaram, fizeram cursos, se dedicaram a crescer na profissão escolhida, portanto, absolutamente são outras organizações e diferentes na hierarquia, ainda mais em atividades privadas!

    Caso eu transferir para o meio o terceiro parágrafo:
    “Democracia e voto universal não são poção mágica para solucionar conflitos ocorrentes nos corpos sociais. Numa democracia, os esquemas de poder paralelo não têm aquela estabilidade com que muitos se habituaram. Onde se clama por eficiência, oxigenação e renovação o caminho é outro.”

    Pô, pelo que sei e aprendi, a solução para os problemas do país começam pela democracia, principalmente eficiência, oxigenação e renovação.
    Se não é através do voto, Puggina propõe indiretamente a ditadura?!

    E se desdiz de forma até pueril, se eu postar o primeiro por último:
    “Aplicada extensivamente no serviço público brasileiro (Puggina aborda a Lista Tríplice), tal prática determina um acúmulo de dificuldades de gestão, fragilizando a cadeia de comando e transformando a escolha do dirigente num confronto entre afinidades e simpatias.”

    Ou seja, a decisão cabe exclusivamente à presidência da República quanto às escolhas que lhe compete, deixando de lado até mesmo a sugestão de três nomes indicados pelos colegas, que são as verdadeiras aferições da capacidade dos sugeridos!
    Puggina de novo enaltece, sub-repticiamente, a ditadura e, desta vez, sendo claro, insofismável.

    Se os delegados não são eleitos pelos policiais e os comandantes de tropas militares também não, e estamos diante de instituições públicas sem a intromissão do presidente, MUITO MENOS Bolsonaro deveria ter o poder de nomear quem ele quiser para os tribunais superiores, razão absoluta de o Supremo ter sido transformado em tribunal político!

    O certo, o correto, também não democrático, mas justo, seria um quadro de carreira dos magistrados, cujo ápice seria atingir os tribunais superiores, STJ, TST, TSE e STF.

    Conforme a ficha profissional do juiz CONCURSADO, ele galgaria etapa por etapa, até ter a pontuação necessária para automaticamente ser um ministro do Judiciário.
    Não só acabaria com essa promiscuidade entre política e justiça, como a natural obrigação do apadrinhado em agradecer a nomeação e ter a mesma tendência ideológica do presidente, um dos maiores problemas do Brasil nos dias de hoje!

    Defender que mais autoridade tenha o presidente, e em locais onde deveria se manter afastado, significa um poder autoritário, sem dar satisfações aos eleitores e às instituições.

    E quem poderia afiançar que as escolhas seriam excelentes?
    Toffoli, que o diga.

    A História registra exemplos inúmeros de erros crassos nas nomeações dos presidentes que tivemos, principalmente para o Supremo.
    Insistir nessa prática é não só antidemocrático, como faz questão que o Judiciário continue na sua sanha, na sua vontade incontrolável de impunidade aos colegas do poder legislativo e executivo.

    O meu conterrâneo, na minha ótica, evidente, anda muito tendencioso.

  4. a vida dos conservadores é tão ou mais difícil que os da “esquerda”. Num Estado cleptocrático é lógico que conselhos e listas sejam figurativos. eles poderiam impedir a roubalheira generalizada do centro, esquerda e direita.
    Daí partir para uma comparação com os sovietes é de um contorcionista ideológico muito típico desses tais conservadores (e dos fundamentalistas em geral, que têm que esconder a realidade, inclusive a si mesmos), pois dizendo-se democratas, no fundo são uns tremendos totalitaristas. São como latinhas de sardinha, se entrar um pouquinho de ar mostram-se putrefatos e tóxicos. Precisam manter seus preconceitos, amoralidades, retroutopias sob o falso manto de defensores da democracia, assim esse discurso torto, digo, torpe.
    Ainda não sei porque não saio o partido lulobolsonaristas.

      • Embora não seja um estruturalista, a estrutura, as bases fundantes do pensamento dos tais conservadores, são os mesmo dos tais esquerdistas. Ambos louco com ditadoras, de forma que suas idiossincrasias, psicopatias e desvios de personalidade ficam ocultos, sem nenhuma interferência de conselhos, sovietes, listas tríplices, povo, ciência, evolução civilizatória, avanço sociais, políticos, econômicos, ambientais etc. Basta fazermos uma análise comparativa entre hitlerismo e stalinismo, para não estendermos a lista de totalitarismo, tão a gosto dessa gente torta e torpe.

  5. Percival, observando sob a ótica do absurdo, teu artigo abre o caminho para a certeza do absurdo.

    Por exemplo, quando li “”Nas Forças Armadas, os comandantes não são escolhidos pela tropa.”, imediatamente me lembrei da desculpa da direção da diretoria da Petrobras no caso da mudança do Departamento de Finanças da empresa para Salvador/Bahia – a de que tinha sido realizada uma consulta aos funcionários e a maioria tinha VOTADO a favor da mudança.

    Aí, os generais da Petrobras obedeceram aos soldados rasos e o Departamento de Finanças foi para Salvador/Bahia – embora o estado não esteja entre os três maiores de petróleo do Brasil.

    Será que a mudança tem algo a ver com o Petrolão ?

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