LIvre pensar é só pensar( Millôr Fernandes)

Capítulo XV

Furioso com o desrespeito de suas criaturas (furioso para show, furioso pras arquibancadas, pois, sendo Onisciente, Previdente e Onipresente, Deus sabia muito bem o que Adão e Eva iam fazer), o Todo-Poderoso apontou-lhes imediatamente o olho-da-rua, depois de desejar aos dois coisas que não se desejam nem ao pior inimigo, como ter filhos sem os processos da técnica moderna e ganhar o pão com o suor do próprio rosto.

Outro (pequeno) parêntesis

Os leitores perguntarão como Deus descobriu, tão rapidamente, a desobediência de Adão e Eva. Onisciência à parte, ele só poderia descobrir o Pecado alguns meses depois, quando Eva demonstrasse os primeiros enjôos da gravidez ou, horror!, através da denúncia de algum dos animais presentes, um macaco puxa-saco-dedo-duro. Mas, embora pareça inacreditável, quem se denunciou foi o próprio Adão. Passado o orgasmo lhe veio um sentimento que não tinha antes: culpa. De modo que quando Deus chama por ele, ele demora em aparecer. O senhor pergunta o motivo da demora e ele, sem querer, se trai: “É que quando o Senhor me chamou eu estava nu e fui me vestir.” Deus então trovejou: “Quem te disse que você estava nu? Será que você comeu da…?” Aí Adão confessou, botou a culpa em Eva: Eva botou a culpa na Serpente e foi aquela cena baixa. Mas Deus expulsou-os, em verdade, não por terem comido aquele fruto, mas por temer que viessem a comer o fruto de outra árvore, a Árvore da Vida, que os teria tornado imortais. Segundo os teólogos e psicanalistas o Senhor agiu motivado menos pela ira do que pela ansiedade ante a hipótese de ser igualado: realmente um estranho sentimento de insegurança para um Deus Todo Onipotente.

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