Livre pensar é só pensar (Millôr Fernandes)

O Fósforo

Pais, cheios de preconceitos como sempre, podiam, até os dias anteriores a Marco Pólo, fazer vista grossa sobre os deslizes de suas filhas. Chamam-se deslizes, ninguém ignora, certos senões de caráter que o são mais de corpo e que conduzem passo a passo ao que o povo sabiamente denomina de Mau Passo. No escuro anterior à pólvora, era difícil o controle da natalidade, digo da fatalidade, que leva as moças aos rapazes. De modo que chegamos aos 2.000.000 de habitantes. Mas lá veio o dia em que se juntou um paiol de pólvora ao tronco de uma árvore. Daí saíram milhões de fosforinhos. Fosforinhos esses que iluminaram tudo e mostraram aos pais horrorizados o quanto sua linda filhinha já estava adiantada no ars amandi. Frase essa que o leitor arguto saberá traduzir no devido calão.

Vão Gôgo, 1949

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