Loucos, distantes da realidade, os poetas nunca sentem saudade, diz João de Abreu

Abreu e a doce loucura de quem traz a poesia na alma

Paulo Peres
Poemas & Canções

Formado em Letras (Português e Literatura), artista gráfico, músico e poeta carioca João de Abreu Borges (1951-2019), no poema “Loucos os Poetas”, louva a doce loucura de quem traz a poesia na alma e não enxerga horizontes.

LOUCOS OS POETAS
João de Abreu

Loucos, distantes da realidade,
Os poetas nunca sentem saudade
Nem pensam no que o futuro vai trazer

Loucos, os poetas, amam como girassóis,
Diamantes e manhãs
São tão claros que enxergam no escuro

Loucos, os poetas, agarram-se entre as estrelas
Promovem feias e belas
E acabam com suas vidas
Entre os planetas que orbitam ao seu redor

Loucos, os poetas, sem ter qualquer nome algum
Não querem ser apenas um
E tornam-se os homens
Que ocupam a nossa mente e a nossa voz

Loucos,
são estrelas de tudo que não tem forma,
Porque não saíram de uma forma
E se sustentam sobre tantos pés

Estetas,
são tão loucos, não só por serem tão poetas,
Mas por terem as pernas tortas
E sempre driblarem os “joãos”

Loucos,
os poetas, que não enxergam horizontes
E só passam pelas pontes
Quando por elas passam os mais intensos vendavais

Loucos,
os poetas, que gritam pelos oprimidos
Sentem a dor dos sem-sentidos
E ficam ouvindo o mar quando ouvem os sem-faróis

Loucos,
os poetas, mesmo sem querer poder
Podem o que eles querem ser
Apenas com sua dor por sobre a palma da mão

Ainda olha para a lua
Como se ela ainda fosse sua
Última esperança, tanto quanto é esta canção
Ainda hoje, e principalmente hoje,
Mais do que nunca
Nua.

4 thoughts on “Loucos, distantes da realidade, os poetas nunca sentem saudade, diz João de Abreu

  1. NAVEGANDO NA INFERNET

    Estávamos no ano 3.273 (do calendário judeu), quando, de
    repente caí em profundo torpor. Dali, então, senti minha mente
    mergulhar em delírios: vi-me sentado no sopé duma montanha, que era contornado por
    um riacho de água corrente. Ao volver para a linha do horizonte,
    vislumbrei uma tremenda fresta que se abriu nas nuvens, e por aquela
    abertura o Anjo do Senhor descendo dentro duma redoma, uma espécie
    de garrafa com a inscrição 51.
    Tamanha foi a minha surpresa, quando surgiu diante de mim um
    trem fantasmagórico, serpenteando a cordilheira com um “balacobaco”
    azucrinante. Ao passar por mim aquela carruagem, fui abduzido
    para o seu interior. Dos passageiros, falante, só havia eu; os demais se
    comunicavam por telepatia. Ali eu dividia o espaço com seres
    monstrengos. Perplexo, procurei saber do maquinista, onde seria o
    paradeiro daquele camboio. Ele me respondeu: “Sheol, Ades, Hell, Nara,
    Inferno!” Então, exclamei: Basta! Agora já entendi!
    Na parada final, estacionamos perante um gigantesco portão de
    ferro, ladeado por uma guarita, dentro dela havia um cão-de-guarda
    de dez cabeças – era um cachorro afalado – um recepcionista muito
    cavalheiro, que atendia pelo nome de Cérbero. Em seguida, cada
    visitante recebeu um crachá, no qual constava um código de barras sobreposto pelo número
    666. O maldito credencial era indispensável para que pudéssemos
    trilhar inferno adentro.
    Distando uns cinqüenta metros da entrada, deparamos com um delta –
    a nascente de três rios – Geena, Estige e Baratro. Defasados entre si
    por um ângulo de 120 graus, pelos seus meandros abismais corria uma
    calda de lavas incandescentes. À meia-noite, a pino, horário local,
    fomos arrecadados por um barco que aportou à margem do Baratro,
    cujo timoneiro era o Sr. Aqueronte. E assim zarpamos rumo a uma jornada horripilante.
    À medida que velejávamos, nas orlas, ia surgindo um aglomerado de
    galpões em forma de baias; pois lá as almas penadas são alojadas
    conforme as suas categorias. Na linguagem infernal, aqueles
    depósitos são chamados de biotérios, as criaturas que neles
    agonizam são denominadas de cobaias. Acolá, todos vivem sob os
    cuidados das Fúrias (entidades infernais), e estas, por sua vez,
    recebem a supervisão do médico alemão, Dr. Joseph Menguelli
    (ex-manipulador génetico dos Campos de Concentração Nazistas). O tédio só foi quebrado
    quando os navegantes avistaram um suntuoso anfiteatro à esquerda
    do rio, ali a tripulação foi obrigada a ancorar a fim de que pudéssemos
    apreciar a maravilha à vista. Adentramos, sentamos e
    aguardamos o início do espetáculo. –Adivinhem que era o dramaturgo? -Pasmem, Dante!
    Com a sua Divina Comédia.
    No primeiro ato: assistimos a um delegado sendo empalado por um
    espeto abrasante, cuja extremidade pontiaguda transfixava o casco de
    sua cabeça (escalpo).
    A segunda encenação: exibia como protagonista um advogado
    chicaneiro que tinha 80% do corpo carcomidos por um cranco maligno.
    Ainda restava estavam 20% de sua anatomia deplorada.
    O terceiro drama: apresentava o cadáver de um pastor com 90% do
    seu total sendo dizimado por uma nuvem de gafanhotos; os 10%
    restantes os insetos pouparam; temendo indigestão.
    Finda a sessão, despedimo-nos com a tradicional saudação dos
    teatros terrenos: Merda! Merda! Merda!
    Tomado por acesso de pânico, pus uma venda nos olhos para não
    seguir assistindo àquelas alucinações macabras. Todavia, ainda tive nervos
    para solicitar ao cicerone, o meu maior desejo, qual seja, o de
    contemplar a trindade satânica: Lúcifer, Belzebu e Aschtaroth. Tive,
    enfim, a glória de chegar à antessala que dava para o bunker
    (porão blindado), onde está assentado o trio onipotente. Frustrante! Ao fim
    duma longa sabatina, o chefe de gabinete e selecionador, Lunguinho,
    concluiu, alfim, que eu não era digno de me entrevistar com aquelas
    três sumidades, porque, segundo ele, aqui na terra eu teria status de
    um sujeito phodido. De imediato, ouvi, simultaneamente, uma
    descarga de sifão, entoada por um murmúrio que me parecia ser do John Lenon:
    The dream is over!” (o sonho acabou).
    Quando dei por mim, foi com os solavancos da empregada,
    sacudindo freneticamente a minha rede. Ainda em madorna, pude
    entrever numa mãos da “secretária” – uma xícara contendo chá de boldo com casca de laranja
    – na outra mão, uma notinha deixada pelo garçom da noite
    anterior. Mas, só despertei para valer, com os toques do telefone: era
    o meu chefe ligando pela sexta vez! Vade retro satana!

  2. David Hume (1711-1776):
    It makes no sense to speak of time as having an absolute existence that is Independent of observable objects whose measurements permitted us to define time.
    From the sucession of ideas and impressions we form the idea of time.
    =====
    “Se é a sucessão de idéias e impressões que nos dão a idéia do tempo”, por que nosso estômago, que não pensa nem forma idéias, nos avisa sempre da hora certa de comer?

  3. Impressões Organolépticas!
    Observando o texto acima, de autoria do Dr. Sapo de Toga, reporto-me mais uma vez a um cálculo que eu já havia elaborado, com a finalidade de desconstruir uma afirmativa de minha professora de inglês e britânica inata também. Ela e muitos ingleses refutam a ideia de que o inglês seja uma língua neolatina. Até debocham do pig latin.
    No meu levantamento, em média, 63% do idioma falado por Shakespeare procedem do latim, principalmente, através do francês. Muitas vezes, os vocábulos vem distorcidos ou alterados, bem como: uus, us; siti, city; en (prefixo verbalizador que o inglês, ao contrário do português, usa como sufixo posposto ao substantivo. Exemplo: dark(en), light(en), fatt(en). Os adjetivos terminados em “ous” são todos de origem latina = serious, dangerous, famous etc.
    O inglês é sobremodo criticado por sua pobreza vocabular, e que só se impõe por causa da hegemonia camone: iniciada pela Inglaterra e prosseguida, por enquanto, pelos EUA.
    No conteúdo de referência, 45,5% tem origem no latim.

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