Lula afasta-se mais de Cabral

Pedro do Coutto

As declaraes do prefeito Lindberg Farias O Globo de 30 de maro anunciando que, no Estado do Rio de Janeiro, o presidente Lula pedir votos para sua candidatura a senador e tambm para a reeleio de Marcelo Crivella, reportagem de Cssio Bruno, evidentemente garante a reeleio do representante da Igreja Universal, que sempre alcana 20 por cento nas votaes de que participou. E deve tambm assegurar a vitria de Lindberg Farias, escolhido candidato nico do PT, quando pela lei a legenda pode concorrer com dois nomes, j que so as duas vagas em jogo.

Isso de um lado. De outro, a afirmao de Lula o aproxima mais de Anthony Garotinho e o distancia de forma acentuada do governador Srgio Cabral. Por que isso? Simplesmente porque Cabral apia Jorge Picciani, do PMDB, para o Senado, o principal atingido pela afirmao do presidente. Os votos que Picciani vai perder em conseqncia da opo de Lula vo se refletir claro, no apenas nele, mas na chapa que integra como companheiro inseparvel do governador, desde o tempo em que o primeiro presidia a Assemblia Legislativa e o segundo ocupava o cargo estratgico de primeiro secretrio em matria de administrao interna da Casa.

Lula pedindo votos para Lindberg atinge Srgio Cabral de forma indireta, quebrando a base de Picciani no interior do Estado. Base das mais possantes, uma vez que, com ela, conseguiu que seu filho Leonardo alcanasse 170 mil para deputado federal. Ter 170 mil votos no brincadeira. O milionrio Ronaldo Cesar Coelho elegeu-se com 50 a 60 mil votos. Portanto, o esforo em favor de Leonardo foi quase trs vezes maior. Dose para dinossauro.

Sem o apoio de Lula, os recursos eleitorais de Picciani no valem nada. No sero suficientes para eleg-lo nem em segundo lugar, porque inclusive existe ainda a candidata do Partido Verde, Aspsia Camargo, que, a meu ver, deveria ser substituda por uma pessoa mais afirmativa como a vereadora Teresa Bergher, muito mais disposta ao combate do que a postura fria e defensiva de Aspsia. Mas esta outra questo.

O principal que o apoio de Lula a Marcelo Crivella, que por sua vez j tem o apoio de Wagner Montes, para quem trabalha na TV Record, deixar o bispo forte demais, praticamente imbatvel. Picciani, sem Cabral, ou com Cabral enfraquecido, no representa nada.

O poder econmico pode pesar para as eleies proporcionais. Mas nenhum efeito produz em disputas majoritrias. Se fosse assim, Ermrio de Moraes no teria perdido o governo de So Paulo para Orestes Qurcia em 86. E perdeu. O que provavelmente aconteceu foi de Lula ter se irritado com Srgio Cabral com a sua infeliz declarao de que no votaria em Dilma Rousseff se a chefe da Casa Civil subisse no palanque de Garotinho. Ora, um presidente da Repblica no pode receber ameaa e menos ainda ultimatos desse tipo. O resultado a est: o apoio a Lindberg, que do PT, mas paralelamente o apoio a Crivella que pertence aos quadros do PR.

No episdio que para Noel Rosa foi um palpite infeliz Srgio Cabral pode ter jogado fora, pela janela do destino, a sua reeleio ao Palcio Guanabara. Inclusive porque ele lidera o preo at agora, mas o segundo turno contra Gabeira ou Anthony Garotinho passou a ser ainda mais certo agora.

Poltica como a vida humana. Os episdios nunca se encerram em si. Continua, produzem reflexos, projetam-se no espelho dos fatos que, como todos os reflexos, trocam as imagens de um lado para outro. Marcelo Crivella surge como o primeiro vitorioso nas eleies do Rio. E, claro, vai apoiar Dilma Rousseff. Antes de Cabral faz-lo. O governador cometeu um gol contra si mesmo terrvel.

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