Lula agride ética ao minimizar crimes na Receita

Pedro do Coutto

O presidente Lula errou politicamente e agrediu a ética, na terça-feira, na tentativa de minimizar a importância das violações dos dados  fiscais de adversários políticos do PT, incluindo Verônica Serra, filha do candidato da oposição, José Serra. E não foi este o primeiro caso. Antes, em Mauá, São Paulo, através do estranho contador Carlos Atella Ferreira, petistas invadiram as declarações de Imposto de Renda do ex-ministro Mendonça de Barros, que no governo FHC articulou a privatização das teles, do ex-diretor do banco do Brasil, Ricardo Oliveira, e do ex-subchefe da Casa Civil, Eduardo Jorge Caldas Ferreira.

Os autores ultrapassaram as barreiras que separam o Código Civil do Código Penal e também revelaram a ponta de um iceberg. Que começou a emergir com o fato, noticiado pelo Globo quarta-feira, de a servidora da SRF Adeilda dos Santos, também em Mauá, ter acessado criminosamente mais de 2 mil declarações de IR. A declaração de Verônica Serra foi praticada em Santo André. Por quê? Se integrantes do PT desejavam saber quais as transações de uma apontada sociedade entre Verônica Serra e Verônica Dantas, irmã de Daniel Dantas, se existiram, não seriam localizadas no  sistema financeiro nacional. Mas estas são outras questões.

O essencial no novo estágio do episódio foi o erro cometido pelo presidente da República e sua investida para lançar uma nuvem em torno do que foi praticado. Qual a razão disso? Nenhuma. Sobretudo no momento em que o Vox Populi, em sua mais recente pesquisa, divulgada a 7 de setembro pelo Jornal da Band, apontou 56 pontos para Dilma contra somente 21 de José Serra. A sucessão 2010 está antecipadamente liquidada. Serra está descendo, a ex-ministra subindo, Marina Silva não sai do lugar.

Não há mais no que discutir em matéria de votos nas urnas. Porém há muito o que debater a respeito da casa da mãe Joana em que se transformou a Receita Federal com a omissão do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Pois em vez de Cartaxo e o próprio Mantega agirem rápido para apontar e responsabilizar os culpados e as culpadas, decidem fixar o prazo de 60 dias para uma comissão de inquérito investigar o que já está descoberto e concluir seus trabalhos. Os responsáveis diretos já são conhecidos. Faltam os mandantes, os neo aloprados, versão 2010.

A atitude de Lula e a protelação da SRF fornecem um péssimo exemplo ao país. Além do que acentuam reações contraditórias. Sim, claro. Pois se o próprio presidente da República sustenta que, aproveitando-se do que aconteceu naquelas localidades paulistas, Serra baixou o nível da campanha sucessória, há de reconhecer que muito mais baixaria praticaram os autores das invasões indevidas e ilegais. Lula, portanto, deveria voltar-se contra esse grupo de falsos aliados, e não contra os que condenaram os crimes que perpetraram.

Não se pode, logicamente, defender criminosos. Tampouco agir para acobertá-los. Até porque o fato de serem inscritos no PT não quer dizer que sejam correligionários. Muito menos amigos. Quem pratica crime em nome de outro, ou supostamente com autorização tácita deste, não pode ser classificado como amigo, pois, no fundo da questão, é inimigo quem trai a confiança de quem lhe estende a mão em sinal de amizade.

Lula vai sair consagrado do governo pela opinião pública. Por diversos motivos, mas não pelo acobertamento indireto ou tentativa de blindagem em favor de um bando de aproveitadores e aproveitadoras de seu prestígio. Longínquo, sem dúvida, em relação a eles e elas, mas suficiente para iludir a boa fé de muitos e invadir a propriedade e a privacidade de outros tantos.

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