Lula anuncia que terá uma participação mais ativa na política nacional. Traduzindo: a presidente Dilma Rousseff não terá sossego e o meio campo vai embolar.

Carlos Newton

É impressionante o comportamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele insiste em declarar que se manteve fora da política desde a posse de Dilma Rousseff e agora até ameaça “voltar”, dizendo que pretende ter uma participação mais ativa na política nacional.

Parece brincadeira, mas é verdade. Ao discursar sexta-feira durante o II Congresso Nacional da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Lula avisou que chegou ao fim o período de seu afastamento voluntário do cenário político. “Eu disse, no início do ano, que ia entrar em um processo de desencarnação, para poder permitir a encarnação da presidenta Dilma”, afirmou, anunciando: “Vou voltar a andar por este país. Vou voltar a incomodar algumas pessoas outra vez”.

Como se vê, Lula certamente está com alguma dificuldade de memorizar os fatos ou desenvolveu uma maneira própria e peculiar de enxergar as coisas. Quando fala em “período de afastamento voluntário do cenário político”, a que período ele estará se referindo?

Será que Lula não lembra que foi ele quem montou o atual ministério, que tanto problema tem dado à presidente Dilma Rousseff? Não recorda que, desde a posse, fala diariamente com sua sucessora por telefone, tentando interferir no dia-a-dia da administração e da política federal?

Também não parece recordar que foi ele mesmo quem insistiu em preservar Antonio Palocci quando o escândalo já ia longe, não havia mais qualquer possibilidade de recuperação da imagem do então chefe da Casa Civil, sua queda era uma tragédia mais do que anunciada.

Lula não lembra ter ido a Brasília, para fazer uma surpreendente intervenção no caso Palocci, embora fosse assunto que competia apenas à atual presidente Dilma Rousseff? Não recorda também ter se reunido com parlamentares e assumido a solução do caso publicamente, dando entrevistas e interferindo ao máximo, para depois ter de se recolher novamente a São Paulo, com Palocci já completamente aniquilado?

Na verdade, Lula jamais “desencarnou” da Presidência. Continua obcecado pelo poder e agarrado à Presidência, como se fosse um carrapato. Na semana passada, veio ao Rio num jatinho da FAB e se encontrou com a presidente Dilma Rousseff durante cinco longas horas, num encontro secreto e em local desconhecido, conforme divulgou maliciosamente o jornalista Jorge Bastos Moreno, de O Globo, que até insinuou a existência de um romance entre os dois e só faltou dizer que o amor é lindo.

Se isso tudo representa “um período de afastamento voluntário do cenário político”, pode-se imaginar o que significará o tal retorno do ex-presidente à plena atividade política. Só falta Lula seguir o exemplo do deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP) no Ministério dos Transportes, e também arranjar uma sala privativa no Palácio do Planalto, para dar ordens a torto e a direito, como se fosse presidente de verdade.

Vamos aguardar. Mas ele próprio já adiantou que as suas ações serão voltadas à busca de soluções para os problemas sociais. “Embora não seja mais presidente, sou cidadão brasileiro. Como cidadão brasileiro, serei o lobista número 1 das causas sociais. Quem tiver um problema social pode me contar que farei lobby com o Gilberto Carvalho (ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência) e com a presidenta Dilma Rousseff para que a gente possa resolver isso”, anunciou aos trabalhadores na sexta-feira, enquanto caminhava na beirada do palco, cumprimentando os sindicalistas que se esforçavam para fotografá-lo.
Ao falar sobre o seu governo, Lula voltou a usar um de seus bordões mais famosos. “Nunca antes na história deste país houve um presidente que tratou os trabalhadores com o respeito que eu tratei, que recebeu as centrais sindicais a quantidade de vezes que eu recebi”. Segundo ele, somente os sindicatos “muito pelegos” não conseguiram aumentos reais de salário para as categorias que defendem.

Certamente, Lula ainda não leu – nem lerá – uma importante entrevista que circula na internet, concedida por Ronald Barata, fundador da CUT e ex-presidente do Sindicato dos Bancários, sob o título “Nenhuma conquista se acrescentou ao rol dos direitos dos trabalhadores com o PT no poder”. Nessa entrevista Barata conta também como Lula foi ajudado por Golbery para que o regime militar pudesse neutralizar Leonel Brizola e evitar que ele chegasse ao poder. É muito interessante.  

Agora, Lula não deveria anunciar que está voltando a participar da política, porque isso significa apenas que ele vai intensificar uma participação que jamais se interrompeu. E isso certamente será um grave problema para a presidente Dilma Rousseff, que precisa justamente do contrário, ou seja, que Lula se afaste totalmente, para que ela enfim assuma de forma integral sua autoridade de governante, que é única e intransferível.

Mas quem é que consegue convencer Lula de alguma coisa? Dificilmente ele deixará a sucessora em paz. As possibilidades disso acontecer são mínimas. E o país terá de seguir suportando um governo dividido, bifurcado, repartido em uma hidra de duas cabeças.

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