Lula demite Palocci pela segunda vez e Roberto Gurgel ficou mal no desfecho

Pedro do Coutto

Foi o ex-presidente Lula – mais do que Dilma Rousseff  – quem demitiu o ministro Antonio Palocci pela segunda vez. A primeira no episódio da violação da conta bancária do caseiro Francenildo. A segunda, agora, proferindo uma espécie de voto político de minerva, acionando a caneta hoje nas mãos de sua sucessora. Não há dúvida. Uma decisão tão clara somente foi tomada depois da palavra do líder absoluto do PT.

Palocci, claro, debaixo de fogo cerrado, que ele próprio armou contra si, não podia se manter no convés. Caso contrário faria submergir o navio do próprio governo. E levaria Rousseff para o plano negativo e nebuloso que ele adotou como rumo e prumo. O desgaste sofrido pelo governo foi enorme e era inevitável, bastando à presidente tomar a decisão correta no tempo certo.

Equivocou-se a não prever a direção do vendaval cujo endereço era o do seu chefe da Casa Civil. O Procurador Geral da República, Roberto Gurgel não percebeu e muito menos conseguiu traduzir o quadro. Dependendo, como eu disse ontem, de uma assinatura da presidente para uma recondução ao posto por mais dois anos, escolheu a avenida errada. Dilma Rousseff esperava um parecer exatamente oposto àquele que proferiu. Era a oportunidade para se livrar de Palocci. Roberto Gurgel foi fraco, para dizer o mínimo. Como poderia aceitar justificativas vãs e genéricas de Palocci quando o adequado seria cobrar os recibos pelos pagamentos recebidos, conferir os trabalhos executados, e comparar os valores pagos às deduções das empresas que contrataram as tarefas no Imposto de Renda.

Como isso era absolutamente impossível, pois se fosse possível Palocci teria publicado seu trabalho, coisa que não o fez, é mais do que evidente que a procedência dos 20 milhões de reais não era em função de pareceres econômicos geniais. Consultorias de 20 milhões em prazo curto seria demais até para uma pesquisa de Einstein. Palocci não convenceu a ninguém. Tampouco a si próprio.

Tanto não convenceu que seu ambiente no PT era – vê-se hoje – dos piores. Tanto era dos piores que sua substituta no cargo, senadora Gleisi Hoffman, esposa do ministro Paulo Bernardo, é autora de discurso no Congresso condenando frontalmente seu procedimento e sua omissão (de Palocci). Uma surpresa, portanto, a substituição do acusado pela acusadora. Sinal revelador de que havia rejeição total a ele nos bastidores da legenda.

Rejeição maior até do que no PMDB. Como escrevi, quanto maior fosse a dificuldade em torno de Palocci, melhor para o partido de Michel Temer e José Sarney. O PMDB teria feito Dilma Roussef refém do ministro da Casa Civil. E em função de tal situação conseguiria emplacar as nomeações pelas quais vem lutando sem sucesso. Admitia o PMDB que pudesse transformar Dilma em dependente de sua falsa lealdade. Pensou. Mas não conseguiu.

Palocci custou mais tempo a cair do que deveria, mas caiu finalmente. Foi o seu segundo desastre. O primeiro no confronto com o caseiro, o segundo no confronto consigo mesmo. Ninguém na política pode sobreviver à contradições do porte em que se envolveu. Duplamente demitido, cometeu um triplo e tremendo erro: precipitou-se. Para quem entrou na entrevista depois da vitória a 31 de outubro ao lado da eleita, só o deslumbramento pode explicar sua pressa. O governo é de quatro anos. Palocci desembarcou em menos de seis meses. Era um falso aliado.

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