Lula é, Dilma não é?

Carlos Chagas

Pode ter sido coincidência, certamente foi, mas não deixa de ser estranho que no espaço de um dia, tanto o Lula quanto Dilma tenham se referido às eleições, depois de dois anos de silêncio absoluto, pelo menos de público. Em Paris, esta semana, o ex-presidente admitiu a hipótese de disputar eleições, mesmo sem dizer quando. Falava a um grupo de empresários, aqueles que não votaram nele “mas jamais ganharam tanto dinheiro como no meu governo”.

A afirmação deu-se num momento difícil para ele, acusado de ter participado do mensalão e às voltas com suposições alegres a respeito de seu relacionamento com uma certa Rosemary Noronha. Enfim, o Lula é candidato, ignorando-se a quê, se a presidente da República, governador de São Paulo ou senador. E sem sabermos, também, se visava 2014 ou 2018.

No dia seguinte, em entrevista ao Le Monde, indagada sobre se disputará a reeleição, pela primeira vez a presidente admitiu falar sobre o tema. Ou não falar, porque respondeu apenas “não ser hora de tratar disso”.

Mesmo sem doutorado em semântica, pode-se concluir que o Lula é candidato e Dilma não é. Hoje, é claro. Amanhã, ela poderá vir a ser, com o entusiasmado respaldo do antecessor, que por mais de uma vez acentuou ser dela a vez, para um segundo mandato. De qualquer forma, e apesar de afirmações cifradas, sente-se uma certa eletricidade percorrendo a distância entre a Europa e o Brasil.

A lógica indica a disputa pela reeleição, por parte de Dilma, com o apoio total do Lula, mas como política não tem lógica, melhor aguardar que os fatos se desenrolem.

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QUE ELAS EXISTEM, EXISTEM

Declarando-se contra a corrupção, a presidente Dilma ressalvou ser contra a caça às bruxas. Dizia o espanhol não acreditar nelas, mas que existiam, existiam. Não dá para ignorar as ameaças de Marcos Valério e de Carlinhos Cachoeira, mesmo tendo partido de dois meliantes. Porque fica difícil não visualizar José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Valdemar da Costa Netto e tantos outros vestidos de camisolões pretos, com chapéus pontudos e dançando em torno do caldeirão. Apenas, estão sem vassouras, impedidos de voar e de fugir. Impossível condená-los à fogueira, em pleno Século XXI, mas à prisão já foram, restando saber onde.

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SEM BARBA

Mohamed II, sultão do Império Otomano, conquistador de Constantinopla, indagado sobre seus planos para a próxima incursão na Europa, respondeu: “se um fio da minha barba soubesse, eu o arrancaria…”

Pois é. O nosso sultão aqui dos trópicos não deixou mais a barba crescer. Não fosse o bigode e poderia estar guardando segredo absoluto sobre seu futuro. Claro que vai reagir diante de suposições e acusações de haver tido conhecimento e até participado do mensalão. Pode ser uma candidatura inesperada ao palácio do Planalto, pode ser a retomada de caravanas do PT por todo o território nacional. Ficar parado em Constantinopla, jamais. É bom lembrar que os turcos, tempos depois, chegaram às portas de Viena, deixando de ocupá-la por obra do destino e de uns cavaleiros poloneses. A surpresa, agora, poderia ser a ação desabrida de umas amazonas búlgaras…

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DESTRUIR E CONSTRUIR

Raciocínio malicioso que circula entre os tucanos, no Congresso: “o PT é capaz de destruir governos, mas jamais construirá um”. Porque tanto no mandato do Lula quanto no de Dilma, bem que os companheiros tentaram e ainda tentam demolir as estruturas erigidas pelo torneiro-mecânico e pela guerrilheira.

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