Lula ficou preocupado com a repercussão da afirmação, “serei candidato em 2014”, colocou na rua todo o Instituto Lula, não conseguiu desmentir. Dilma vibrando.

Helio Fernandes

Tenho deixado bem claro que agora ninguém mais segura o processo de discussão dos presidenciáveis de 2014. Na Primeira República não havia controvérsia, o paulista que assumia já sabia o nome do paulista que ia substituí-lo. Depois, duas ditaduras, uma de 15 anos, outra de 21, não havia sucessão.

Contando nos dedos, os nomes e números são muito poucos. A partir de 1998, com a reeleição inconstitucional, a renovação ficou cada vez mais restrita. Com o presidente no cargo, usando toda a potência da máquina, é difícil perder.

Pelo menos nas duas únicas oportunidades de reeleição, quem estava no cargo, continuou. FHC, que comprou o segundo mandato, e Lula, que usufruiu da modificação. O ex-presidente pode dizer, agora sem qualquer dúvida, que não sabia nada do que foi feito por FHC, em benefício próprio.

Surgiu, então, a terceira oportunidade de um presidente no cargo, tentar se manter. No caso de FHC só houve perplexidade, desconfiança e acusação. No de Lula, a ratificação mais do que esperada. Agora, com Dona Dilma, a repercussão é mais rumorosa. E antecipada. Envolve seu partido (qual?), o grande eleitor e patrocinador, menos adversários.

Por que tanta controvérsia e mudança de convicção? É que Dona Dilma, seguindo o mau exemplo de FHC e Lula, deveria ter garantido o segundo mandato. Mais convincente ainda por não ter, fora do PT, nenhum adversário. Sua reeleição deveria ser defendida pelo próprio Lula, que inventou-a para a primeira locação do Planalto-Alvorada.

Mas a nostalgia do Poder e a certeza de que é invencível levaram Lula a afirmações impensadas e apressadas. A mais contestada: “Serei candidato em 2014”. Manteve o grande eleitor de Dona Dilma na condição de grande eleitor, mas dele mesmo.

O SENHOR DOS ANÉIS

Isso gerou mais confusão do que controvérsia, eis o senhor dos anéis na defensiva, mesmo que aleatória e enganadora. A maioria sabe ou admite que é apenas a tentativa de abafar a repercussão. Lula não mudou um milímetro a sua perspectiva, vá lá, esperança no futuro. E jogou, no desmentido, toda a cúpula do Instituto que leva seu nome.

Surgiram apenas disparates, tolices, defesa do chefe amado idolatrado, nenhuma explicação pelo menos com um traço de credibilidade. Cada um cumpria sua obrigação, redigia algumas laudas, “batia o ponto” no emprego do Instituto e ia embora. Como dizia o grande Ascenso Ferreira (conterrâneo de Lula), “pernas por ar que o corpo não é de ferro”.

O primeiro a falar foi Paulo Okamotto, não por ser o mais servil, mas pela hierarquia, é presidente do Instituto. Exagerou na trivialidade, o que fazer? “O candidato de Lula em 2014 se chama Dilma Rousseff”. E para ficar invicto na tolice, acrescentou: “Não descartamos uma eventual candidatura de Lula em 2018”. “Nós” quem? Em 2018 Lula estará com 73 anos, arriscadíssima essa afirmação sem nenhuma base.

Outro diretor do Instituto Lula entregou seu trabalhoso esforço de desmentido, era Paulo Vannuchi. Foi menos reticente e mais audacioso. Assimilou o que Okamotto havia dito, “Lula só em 2018”, mas foi bem mais longe, tentou até ser filosófico.

“Mas pode não ser obrigatoriamente em 2018. Se surgirem contradições ou uma crise nacional (textual) e Lula despontar como solução, ele estará disposto, não se opõe, como aconteceu em 1998”.

“CRISE NACIONAL”

Quer dizer que se houver uma “crise nacional”, Dona Dilma já está descartada, só serve para tempos de bonança? Em 1998, quando FHC com a mão na massa e com dinheiro de sobra era invencível, Lula foi candidato sabendo que perderia, mas teve que concorrer.

A verdade: se não disputasse, o candidato para perder seria o senador Suplicy. Só que Lula, que sempre vê longe, acertou: “Se Suplicy for candidato agora, vai querer repetir em 2002, aí eu não perco pra ninguém”.

Vannuchi não é tolo, muito ao contrário. Com Lula foi ministro dos Direitos Humanos, com Dilma ignorado completamente, dispensado até sem aviso prévio. Com Lula outra vez no Poder, quem sabe essa “outra vez” não surgiria também para ele?

Um que não deveria ter falado, embora reticente, Luis Dulci. Não o conheço, se passar por mim não sei quem é, mas fez um bom trabalho como redator de discursos do presidente, quando não queria correr o riso, em momentos graves ou importantes, de deixá-lo improvisar. Apesar de que, no trivial, Lula seja melhor falando o que decidir na hora. Ou seja, sem nada escrito.

INDECISÃO

Com essa indecisão ou uma decisão velada e meio escurecida, Dulci perdeu a oportunidade de eventualmente ser comparado a Ted Sorensen, que escrevia os discursos de Kennedy. No dia da posse em 1961, colocou aquela frase admirável, que é citada e recitada até hoje, e não apenas nos EUA: “Não pergunte o que o país pode fazer por você, e sim o que você pode fazer pelo país”. Aula de cidadania numa frase.

Para qualquer um, seja quem for e de onde vier, “pensar política e eleitoralmente para 2018, 5 anos à frente”, é mais do que loucura, é vontade de errar. Não faço previsão, analiso com base nos fatos ostensivos, e o que sei, por enquanto como informe, podendo ou não se concretizar como informação.

Por exemplo: Dona Dilma pela primeira vez foi audaciosa e corajosa, deu resposta a tudo que se dizia, com apenas uma frase-convicção: “Serei candidata em 2014”. Quem tiver cacife que desminta. Quem não tiver, fique calado.

Considero mais viável (apenas viável como hipótese) a candidatura de Lula ao governo de São Paulo em 2014. Se ganhar e não surgirem obstáculos físicos, poderá tentar a Presidência em 2018, depois da reeleição de Dilma. Não adianta dizer que Lula não tem cacife para ganhar o governo de São Paulo. E a demonstração de força política e eleitoral com Haddad?

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PS – Uma observação que garanto sem medo de errar: o presidente eleito em 2014 será Dilma ou Lula, no caso dela, reeleição. Como os dois estão praticamente iguais nas pesquisas, a  disputa será interna, a externa confirmada, são do mesmo partido. Os adversários (?) não terão vez. A oposição não tem nomes e os que surgirem, estarão voltados para 2018.

PS2 – O que não acontecerá de jeito algum: no dia 15 de novembro: Lula contra Dilma. Pode haver confronto (e haverá mesmo) de bastidores. Nas urnas, impossível. Na cabine eletrônica, o cidadão ter que escolher entre Dilma ou Lula? Nem imaginar. Só Dilma ou só Lula.

PS3 – Vou até aí, análise pura. Adivinhação? Deixo para os outros. Ele ou ela, o vencedor. Isto não é predileção, participação, vontade reprimida e agora ostensiva. Desde que foi fundado, o PT não teve eleição tão fácil.

PS4 – Nem sei se administrativamente, eticamente, historicamente, o PT merece. E os outros? Oposição tosca, sem projeto e sem coragem, aprisionada na sua própria incompetência. Preparada para o massacre eleitoral.

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