Lula, Gilmar Mendes e Jobim: falta algo na análise de Élio Gáspari

Pedro do Coutto

No espaço que preenche brilhantemente no Globo e Folha de São Paulo, o jornalista Élio Gáspari comentou, edição de quarta-feira, o encontro entre o ex-presidente Lula, o ministro Gilmar Mendes, do STF, e o ministro aposentado da Corte Suprema, Nelson Jobim. Como foi amplamente divulgado no escritório particular deste personagem. Uma versão do terceiro homem.

Publiquei artigo na quinta-feira. Já o tinha redigido antes de ler Gáspari, um dia antes, e volto ao tema depois. Gáspari condena os três por igual. Não quero dizer que eticamente esteja totalmente errado, porém parcialmente. Creio que se equivocou num ponto. A ideia do encontro reservado só pode ter partido do ex-presidente. Do ministro Gilmar Mendes evidentemente não foi, o que se comprova por sua forte e frontal reação ao diálogo travado.

Nelson Jobim? Parece pouco provável. Foi ministro da Defesa de Lula e do Supremo Tribunal Federal, portanto conhece bem o estilo de ambos. Foi acionado, não acionou a conversa que resultou num fracasso, uma bomba política sem a menor sombra de dúvida.

As manchetes principais de O Globo, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo de 30 de maio confirmam esta visão nítida do diálogo reservado que se transformou em duelo público.

Então o que provavelmente aconteceu, como a lógica indica? Que o ex-presidente Lula, antes de mais nada, procurou a presidente Dilma Rousseff e tentou conduzi-la para a tentativa de influenciar os rumos do julgamento do Mensalão pela Corte Suprema. Ela se negou, contrariando-o. Tal impasse o levou a agir por conta própria. Recorreu a seu ex-ministro (da Defesa). Ao mesmo tempo aposentado do Supremo. Mas Lula na possui mais a caneta mágica do poder. Ele se encontra nas mãos de Dilma.

Não digo, nem de longe ou de perto, que Gilmar Mendes seria mais receptivo a Dilma Rousseff do que foi a Luiz Inácio da Silva. Nada disso. Desejo apenas assinalar que, ao perceber o rumo da conversa, Gilmar Mendes primeiro tentou desconversar. Como o interlocutor retornava ao tema mensalão, decidiu enfatizar a negativa e rebater a investida, certo de que Lula recorria em segunda instância.E só partiu para esta depois de verificar que perdera a primeira junto à presidente da República que elegeu, mas sobre a qual não exerce influência absoluta.

Aliás, influência absoluta ninguém exerce sobre ninguém. Os casos de ruptura entre grande eleitor e vencedor são inúmeros. A começar pelas eleições de 45, quando Vargas assegurou a vitória do general Dutra e a primeira atitude deste foi romper com ele a todo o PTB. Dutra fez imediatamente acordo com a UDN, partido que derrotara nas urnas de 2 de dezembro.

Entregou logo dois ministérios altamente importantes à União Democrática Nacional: Maurício Joppert foi nomeado para os Transportes; Clemente Mariani para a Educação.

Muitos outros rompimentos entre criador e sucessor eu poderia citar. Mas não vale a pena. O da redemocratização de 45 julgo suficiente. É o maior de todos. São coisas da política, título da coluna que Carlos Castelo Branco manteve no Jornal do Brasil até sua morte.

Creio que este ângulo de análise foi esquecido por Gáspari, no meio do cálculo de aproximações e possibilidades, para explicar, o envolvimento estéril.
O impacto torna esta versão a mais possível.

Pode não ter acontecido totalmente assim. Estou analisando e especulando. Porém estou convencido que me aproximei da realidade vista da ponte. Vamos ver o que pensam os leitores.

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