Lula interferindo mais rápido do que muitos imaginavam: “Não quero Palocci em lugar de destaque para não fazer sombra à Dilma”. Na verdade, Lula cuida do espólio da Dilma, e da sua tão tramada e premeditada herança 2014.

Helio Fernandes

Para quem não acompanha o jogo político, pode ser estranho, que 24 horas depois da eleição da Dilma, o ainda presidente Lula já começa a vetar nomes de possíveis ou futuros ministros. Lula ainda é presidente, Dilma já é presidente, uma coisa nada a ver com a outra.

Mas é sempre assim, em qualquer parte do mundo. Como o presidente (ou primeiro-ministro) não pode tomar posse no mesmo dia da eleição, existe ou se forma o que chamam de transição, vácuo, vazio de poder. No Brasil vai de 31 de outubro (no caso do segundo turno) até 1º de janeiro, quando então ocorre a posse do eleito.

Mas nesta sucessão, as coisas se passaram de forma surpreendente, digamos, um presidente poderoso elegendo alguém sem importância. E por conta disso mantendo (ou pretendendo manter) os direitos ou os royalties sobre esse Poder. Ninguém ignorava que isso aconteceria, mas não se imaginava que começasse tão cedo.

Mas convenhamos, Dilma foi insensata ao anunciar como “homem forte” do seu governo (uma nova Erenice masculina) o ex-ministro Palocci. Ora, tendo estado ao lado de Lula nos últimos quatro anos, dentro do próprio Planalto, Dilma tinha obrigação de conhecer a “filosofia” de Lula em relação à repercussão de auxiliares, fossem de que estágio fossem.

E mais ainda definitivo: foi por causa dessa “filosofia” (desculpem, chamemos assim) de Lula, que Dilma foi retirada do limbo e elevada aos céus. E um que foi sacrificado “para não fazer sombra a Lula” foi o próprio Palocci, mas só no segundo mandato.

Sua entrada em cena logo no início, e como ministro da Fazenda, assombrou o próprio PT. No partido, Palocci era tido como um caboclo que viera do interior, acusado das maiores irregularidades e subia na pirâmide do governo.

Espantoso. Mediocríssimo, era identificado como marxista, porque tinha um sócio e parceiro nas tramóias e falcatruas, que se chamava Marx. Palocci ria muito quando o chamavam de “marxista”.

Palocci começou a crescer e a subir, a ponto de Lula dizer muitas vezes e publicamente: “Fico torcendo para o Palocci me dar sinal verde para abaixar os juros”. Era a evidência e a confirmação: Palocci subira mesmo, “então vamos aderir”.

(A escolha de Meirelles para o Banco Central, também foi um choque para aqueles raros do PT, que acreditavam em alguma coisa, não queriam apenas cargos e “mensalão”. Tiverem que se render a Meirelles, quando receberam a explicação: “A nomeação dele é exigência do sistema financeiro norte-americano”. Exigência tão exigente, que Meirelles já está há 8 anos, e se prepara para a adaptação: ficará no BC ou irá para onde o sistema financeiro decidir).

Dilma devia saber e conhecer os métodos do chefão. Desde a demissão de Cristovam Buarque (pelo telefone), de Mercadante (pela omissão e o desprezo), de Dirceu (por causa do mensalão), Lula ia ceifando os que tentavam aparecer e se credenciar como possíveis sucessores.

Dilma precisava da sensibilidade política para perceber: a nomeação de Palocci como chefe do período de transição, e depois ministro da Fazenda, era ao mesmo tempo suicídio virtual e desafio ao próprio Lula, a quem deve tudo.

E não é segredo para ninguém; assim como tirou Dilma do nada e elevou-a ao máximo, Lula preservará sem um pingo de hesitação, seu futuro mandato, daqui a 4 anos, sucedendo à própria Dilma. Nem contra nem a favor, apenas realidade ou fato indiscutível. Se alguém tem direito de seu o sucessor de Dilma, lógico, não tem mais direito do que Lula. E Dilma deve agradecer ao ainda presidente, a generosidade de deixar que ela complete os 4 anos. E se não quiser, ela não completa e não acontece coisa alguma.

Sejamos justos na análise: Lula queria ficar longe de tudo, não intervir, deixar a presidente Dilma erra sozinha, mas só a partir de 1 º de janeiro. Não podia assistir, estarrecido mas silencioso, a nomeação daquele que “já afastara do próprio caminho”. E Palocci era e continua sendo o mais representativo de todos.

O raciocínio (?) de Lula não foi hostil e sim previdente: “Para tranquilidade de Dilma, veto o Palocci agora, para não vetar em massa depois”. Ele é o chefe, é o homem mais poderoso, não pode assistir “escorregões” como esse.

Lula também não gostou da afirmação da presidente Dilma: “Vou renovar inteiramente a equipe de governo”. Lula riu, e disse para o Gilberto Carvalho (que já determinou que fique no Planalto, vigiando a Dilma): “Onde a Dilma vai buscar 37 ministros para fazer o que ela chama de RENOVAR o governo?  Não respeita os que governaram comigo”?

Lula sabe o que está dizendo, quando pergunta “onde Dilma irá buscar 37 nomes para completar o governo”? Ele chegou a esse número pela sua própria incapacidade de conseguir menos do PMDB. Que agora está querendo 11 ministérios, impossibilidade total. Pois os “partidos da base”, (10) também “querem mais”.

E não só ministérios. A Petrobrás tem subsidiárias e diretorias, verdadeiras potências. Um delas, a Transpetro, está desde 2003 com Sergio Machado, que não se reelegeu senador, foi para lá, transportado pelo amicíssimo Renan Calheiros. Falaram em  substituir Sergio Machado, o alagoano gritou: “fui reeleito, quero mais do que antes”.

***

PS – Ainda não abriu a temporada de caça aos cargos, mas o tiroteio já é grande. Há meses, depois que Erenice Guerra se “desmascarou”, disse aqui: “O chefe da Casa Civil de Dilma deverá ser Paulo Bernardo”.

PS2 – Tinha condições positivas, não rouba, não é brilhante, trabalhador, tem que ser aproveitado.

PS3 –Saindo, Paulo Bernardo deixa vago o inexpressivo ministério do Planejamento. Ótimo para o também inexpressivo Mercadante. Como já está tudo “planejado” entre Dilma e Lula, ótimo para Mercadante.

PS4 – Esse ministério é tão “desimportante”, que não tendo sobrado nada para Mantega, no primeiro governo Lula, contrariado, foi para lá.

PS5 – Vagou o BNDES, mudou, depois pulou para o Ministério da Fazenda, tão desconhecido que substituiu Palocci sem nomeação. Agora deve ficar na Fazenda, Dilma já disse: “Quero decidir no Ministério da Fazenda”. Ótimo, deixa Mantega lá.

PS6 – Falam muito que a diretora da Petrobras, Graça Foster, vai para “um cargo importante, por ser amiga de Dilma”. Podiam dizer, por ser competente.

PS7 – Sergio Gabrielli queria ser presidente da nova empresa “que administrará o pré-sal”. Recebeu um NÃO bem grande. Ficará na Petrobras, onde não manda nada, divide tudo com mais de 400 assessores. Depois, disputará e perderá o governo da Bahia.

PS8 – Foi puro ato insensato DOAR a vice ao troglodita (com 21 acusações não respondidas) Michel Temer. É agora, o segundo homem  do Poder. Que República.

PS9 – Se o PMDB quer 11 ministérios, quantos terão que ir para o PT? O PMDB, na maioria, é composto de lobistas, se assanham mas se acomodam.

PS10 – O PT vem cheio de reivindicação, e com um estado de espírito muito longe da acomodação. Este é o quadro geral, poucos dias depois da eleição. Aguardem, isso ainda é o mínimo.

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