Lula, no palco central, aponta a mendacidade do PT e de Palocci

Pedro do Coutto

Ao afirmar textualmente aos repórteres Bernardo Mello Franco e Valdo Cruz, manchete principal de quinta-feira da Folha de São Paulo, que a presidente Dilma Rousseff demitiu Antonio Palocci no momento certo, o ex-presidente Lula apontou à opinião pública a mendacidade que também marca a atuação do PT. Farsa da qual foi igualmente protagonista o próprio ex-ministro da Casa Civil. Quando me vem à cabeça a palavra mendacidade, lembro a frase famosa que Tennessee Williams colocou na sua peça “Gata Em Teto de Zinco Quente”, exibida no Rio em 1956, Teatro Maison de France. Atuação soberba de Cacilda Becker no papel título. Num momento de discussão com os personagens de Valmor Chagas e Ziembinsky, sobre a política americana, ela diz: “A mendacidade é o nosso sistema”. Aqui também, acrescento eu.

Claro. Pois se as explicações de Palocci não convenciam ninguém, mas muitos políticos vinham a público fingir acreditar, tal comportamento era hipócrita, portanto mendaz. Ou seja: fazer ou pensar algo e agir em sentido contrário. Mendacidade é isso, traduzindo a atmosfera que a palavra acentua. A declaração de Lula – destacam Bernardo Mello e Valdo Cruz – contraria a versão oficial do demitido. Palocci disse que veio (para o governo) ajudar a presidente. E saiu para preservar o diálogo entre a presidente Dilma e a sociedade. Falso. Não foi nada disso.

A afirmação do antecessor de Dilma, no centro do palco político, desmentiu tudo aquilo que se tentava sustentar de público, mas se murmurava nos bastidores e restaurantes de Brasília. Palocci não se demitiu: ao contrário, lutou para se manter, mas foi demitido. Submergiu novamente.

Antonio Palocci, aliás, parece ser um homem tempestade. Seu destino assinala que seu destino é ocupar postos de alto relevo e importância e não conseguir se desempenhar positivamente. Foi exonerado do Ministério da Fazenda, em 2005, por Lula em consequência de denúncia feita pelo caseiro Francenildo. Juntamente com o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Matoso. Quase incrível.

Mas se um caseiro teve força para, indiretamente, derrubar um ministro de estado e o presidente de um dos maiores bancos do país, é porque os motivos reproduzidos pela imprensa eram pesados demais. Do contrário, o desfecho seria simplesmente impossível.

Agora é demitido da Chefia da Casa Civil pela presidente Dilma Roussef pelas fantasiosas consultorias que prestou a empresas, no valor profissional de 20 milhões de reais, no espaço de tempo de menos de seis meses. Desse montante, a metade entre a vitória de Dilma nas urnas de 31 de outubro e sua posse no Planalto a 1 de Janeiro. Um novo Bill Gates surgiu no imaginário petista e em alguns setores do PMDB. Neste segundo caso por jogada política. Pois quanto mais fraco estivesse Palocci, mais forte seria a pressão do partido por cargos não preenchidos no segundo escalão.

Dilma Roussef emocionou-se no discurso de despedida. As despedidas, como sustentava meu amigo Nelson Rodrigues, são sempre tristes. E acrescentava: por isso não se deve dizer adeus e sim até logo, até breve, até sempre, mesmo sabendo-se que este sempre é nunca. Havia amizade, sem dúvida. Até porque quando se formou a equipe de transição do governo FHC para o de Lula, foi Palocci quem a introduziu na equipe. O resto da sequência foi  Dilma, ela própria.

Mas, como no futebol, na vida um passe certo, bem aproveitado, define um destino. Palocci recebeu dois passes na medida. Chutou umas vezes o destino político fora. Perdeu o jogo para si mesmo. Foi derrotado pela própria ansiedade. E pela mendacidade.

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