Lula: o retorno

Carlos Chagas

Não está fácil entender o ex-presidente Lula. Depois de ampla maratona pelo exterior, dedica-se agora ao interior, percorrendo obras que deixou inacabadas e visitando cidades carentes de realizações variadas. Lá fora,  fazendo conferências, aliás, muito bem remuneradas, dava a impressão de estar disputando algum alto cargo internacional, hipótese que não se confirmou. Aqui dentro, viajando, deixa a nítida impressão de estar em campanha para outro cargo que sabemos muito bem qual é.

O problema repousa na evidência de que o Lula perturba o governo Dilma, mesmo sob o argumento de estar ajudando.  Primeiro por ser muito cedo para  disputar os votos  de 2014. Depois,  por haver  declarado  mais de uma vez que a sucessora tem todo o direito de pleitear  um segundo mandato. Por que, então, esse açodamento todo?

Para ampliar os espaços do PT não parece, apesar de ser seu presidemnte de honra. Afinal, os problemas dos companheiros situam-se em Brasília, no relacionamento de suas bancadas com o palácio do Planalto. No máximo em São Paulo, agora que o Congresso está de recesso.  Aumentar  sua popularidade? Perda de tempo, mais do que já dispõe é impossível.  Falta do que fazer? Ora, nenhuma ocupação seria melhor do que começar a escrever ou ditar  suas memórias, agora que inaugurou um instituto de exaltação às suas qualidades.

Positivamente, até prova em contrário, o homem  não desencarnou, como havia prometido. Deve estar contando os dias para voltar à presidência da República. Encenando  um filme cujo título já sabemos: “Lula: o  Retorno”. Ou então “A Volta de Quem Não Partiu”.

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DE PERNAS PARA O AR

A se confirmar a informação de que José Serra prepara demorada permanência  numa universidade dos Estados Unidos, onde ficaria até o começo do próximo ano, a conclusão é de estar a política brasileira de pernas para o ar. Porque  quem precisaria estar viajando pelo país, percorrendo os estados e visitando regiões variadas seria ele, não o Lula. Pelo menos se mantiver a esperança  de disputar outra vez a presidência da República. Isolar-se em longínquas  bibliotecas acadêmicas constitui meio caminho andado para favorecer Aécio Neves como candidato tucano. E perder de uma vez por todas o controle do PSDB.

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A MORTE DA MEMÓRIA NACIONAL

A tentativa do prefeito Gilberto Kassab de fundar o PSD agride a memória nacional, não pelo seu direito líquido e certo de criar uma nova legenda, mas pela escolha da sigla. Afinal,   o Partido  Social Democrático constituiu-se na grande escola política brasileira, até no dizer de um  de seus mais ferrenhos adversários, Carlos Lacerda. Experiência, capacidade, malícia e espírito público foram características do velho PSD, amplamente majoritário no Congresso, nas Assembléias, nas prefeituras e governos estaduais. Na presidência da República,  emplacou   Eurico Dutra, Nereu Ramos, Raniéri Mazzilli  e Juscelino Kubitschek, sem esquecer o decisivo apoio dado a Getúlio Vargas e a João Goulart. Para impedir o partido  de continuar como árbitro da política e das principais decisões nacionais,  o marechal Castelo Branco precisou extinguí-lo por um Ato Institucional.

Pois vem agora o alcaide paulistano,  sem pudor nem imaginação, escolher a mesma denominação para a aventura que pretende encenar. Falta-lhe memória.

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LIÇÕES DE ITAMAR

 Quando recebeu do Senado a participação de que deveria assumir a presidência da República, naquela oportunidade apenas interinamente, até o julgamento de Fernando Collor, o saudoso Itamar Franco disse apenas uma frase: “Rejeito a  modernidade que não leva a todos os cidadãos os benefícios da civilização  e da cultura”. Naqueles idos a palavra modernidade estava na moda como engodo das elites para tapear as massas, já que a pobreza dominava a maior parte da população. Fernando Collor, antes, e Fernando Henrique, depois de Itamar, governaram para o andar de cima. Avançaram, é claro, numa série de mudanças que beneficiaram a indústria, a ciência e a tecnologia, mas deram pouca importância aos menos favorecidos.

Agora que a presidente Dilma inaugura a campanha para acabar  com a miséria, seria que lembrasse o roteiro do antecessor. Melhor dizendo, que lembrasse a Aloisio Mercadante a lição do recém-falecido senador. Porque ciência e tecnologia constituem valor e necessidade para todos, não só  para os privilegiados.

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